O Brexit que saiu queimado

No sábado passado, o escritor John Le Carré fez 88 anos, pegou neles e mais no cancro que recentemente anunciou ter e foi para a gigantesca manifestação londrina contra o Brexit. Ele ainda tinha esperanças de que se mudaria de rumo. Afinal, de uma nação tida como de gente sensata, pragmática e também extremamente egoísta não se espera que se suicide em direto. Anunciar que vai dar um tiro no pé, ainda vá lá, a Velha Albion sempre foi histriónica como os chapéus das senhoras em Ascot, e um tiro no pé é uma metáfora raramente fatal. A menos que a nação ou, no que para estas coisas mais conta, os decisores da nação tenham, antes, alojado o cérebro no pé.

Recapitulando, em poucas linhas, o que valeram estes três anos passados. Em 2016, o primeiro-ministro conservador David Cameron convocou um referendo sobre sair ou não da União Europeia. Entretanto, explico porque recorro a John le Carré. Ele foi espião, deixou de o ser e passou a escrever livros de ficção sobre espiões, uma carreira de quase seis décadas, 25 romances, alguns admiráveis, de O Espião Que Saiu do Frio ao Um Legado de Espiões, publicado há dois anos.

O sucesso universal e, sobretudo, o reconhecimento dos críticos dão-nos uma informação para lá das suas obras. O mundo dos espiões é complexo e recheado de gente inteligente e subtil. Escrever, inventar sobre eles, ser deus deles, exige ao escritor, para ser verosímil, um patamar pelo menos tão alto no pensar como o do espião George Smiley - protagonista de vários livros de Le Carré. Este escritor merece ser ouvido, além da trama dos seus romances.

Como neste mês foi lançado o Agente em Campo (também por cá, nas edições D. Quixote), Le Carré deu várias entrevistas internacionais e nelas mostrou-se furibundo com o Brexit. Disse que convocar um referendo no Reino Unido, berço mundial da democracia parlamentar, é um absurdo. "A chave da democracia parlamentar é que se escolhem pessoas competentes para representar a tua comunidade", explicou ao jornal espanhol El País. É verdade que encontrar a vontade dos cidadãos tem mais que se lhe diga, não se encerra em fórmulas simples e os referendos podem ser úteis. Mas sabe bem ouvir recordado o que é essencial na nossa democracia.

Sobretudo quando estamos perante este caso de democracia sequestrada, como tivemos sucessivas e contraditórias provas ao longo de três anos histéricos. Desde logo, o porquê do referendo. O primeiro-ministro Cameron convocou-o, não por algo relacionado com a União Europeia mas por razões internas, para se livrar das mordidelas nas suas canelas do UKIP, um partido da sua área política, minúsculo e antieuropeu. Escolha imprudente.

No Partido Conservador, Boris Johnson cavalgou o referendo, de novo não por razões europeias, mas por igual oportunismo: livrar-se do rival Cameron. Aliado ao UKIP, Johnson fez uma campanha de mentiras, que ele próprio sem vergonha reconheceria. Entre elas, o que estes três anos demonstraram: afinal, a saída da Europa não era sem custos e o Reino Unido não podia escapar deles.

Surpresa, o Brexit ganhou. E Boris Johnson respondeu não querendo ficar com a batata quente. Cameron derrotado, Boris reticente, intermediou Theresa May, uma pró-europeia no referendo que não quis desperdiçar a oportunidade de uma lamentável glória, governando com o que antes estava contra.

Meses, anos de impasse e uma situação podre - e, nesta, Boris Johnson, que voltou, deu-se bem. Três anos, três primeiros-ministros, todos incompetentes mas a jogar com uma vantagem maior: na oposição liderava o trabalhista Jeremy Corbyn, um antieuropeu encapotado.

O Reino Unido vai sair da Europa, com risco grande de se desunir, de perder a sua Irlanda e de ver partir a Escócia. A contrapartida é mirabolante: troca a sua participação de membro da União Europeia, forte e necessário, para sócio irrelevante de Donald Trump, militante da irresponsabilidade. John le Carré: "O Brexit é a maior estupidez feita pelo Reino Unido."

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