Mali. Porque é que o teto de um tribunal é mais baixo?

Mala de viagem (111). Um retrato muito pessoal do Mali.

Do Burquina Fasso fomos pisar o Mali e acrescentar mais um país na conta. A vila de Koro está localizada próximo da fronteira, numa zona granítica, e coincide com a rota de transporte de mercadorias malianas para o Burkina Fasso. Esta rota comercial cruza o Mali de noroeste a sudoeste a partir de Mopti, onde chega o peixe capturado no Bani, em direção ao Burkina Fasso, que não tem acesso ao mar ou a um grande rio. Trata-se de um caminho com importância estratégica regional, no comércio e, lamentavelmente, nos conflitos armados. Particularmente controlado, com alta densidade de postos de controlo ao longo da estrada, é, no entanto, o eixo usado pelo contrabando, especialmente de álcool, pelo que todo o cuidado foi pouco no seio do nosso grupo. Em Koro, todas as casas são feitas de barro, através de uma prática ancestral da chamada "arquitetura da terra". A vila é dividida em duas partes: uma camponesa e a outra composta por ferreiros e ceramistas. De etnia "bobo" e religião animista, os camponeses cuidam das culturas durante todo o período de inverno e só retornam à aldeia no fim das atividades agrícolas. Da mesma etnia mas de religião muçulmana, os ferreiros estão sempre na vila, tal como os lojistas do grupo étnico "dioula" e religião muçulmana. Alguns dos habitantes surgiram-nos com os rostos pintados. Entrámos numa das casas - uma cabana tradicional em barro sobre um embasamento de granito. Os construtores usam uma técnica antiga para o corte do granito para as fundações, ou seja, queimam grandes blocos para enfraquecer a pedra antes de quebrá-la com grandes martelos, cinzéis e barras de minas. As pedras são então empilhadas para fazer uma laje, na qual a areia é derramada para equilibrar o pavimento. Para cima, manda a arte do barro. A argila amarela necessária para fazer cerâmica é retirada do fundo dos terrenos mais próximos ou mais longínquos. Os blocos já formados e secos ao sol são montados à mão pelas mulheres, imersos em laterite esmagada e molhada, para tomar a cor vermelha, tal como se apresenta a Câmara Municipal, ou cobertos com um revestimento feito de sementes queimadas e batidas, misturadas com água e argila, para tomarem a cor negra. O teto é feito de madeira colocada plana, que deve ser renovada a cada ano, embora já houvesse algumas chapas metálicas quando ali estivemos. As paredes interiores são branqueadas com argila branca. Uma outra construção se destaca das demais: o Tribunal. O teto é deliberadamente muito baixo, a fim de evitar discussões animadas durante as sessões, pelo que, ao levantarem-se, os mais veementes esbarram no teto e sentam-se de novo. Os lojistas dispõem-se pelas ruas, e os grandes mercados no topo da colina ocorrem especialmente quando há um funeral, que nesse dia não havia. Num país que, porém, se tem mostrado profundamente instável nos anos mais recentes, o lema da região de Koro é este: "Paciência, sabedoria, bondade e rigor são as qualidades para uma melhor governação." Um pensamento de sábio, a fazer jus ao nome da vila de Koro, que significa, precisamente, "sábio".

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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