Bússola estratégica demasiado apontada a leste

Não é um bom exemplo usar a atual tensão na Ucrânia para justificar a necessidade de uma estrutura de defesa comum da União Europeia, como fez Josep Borrell, o alto representante para a Política Externa e de Segurança dos 27. Num debate em Bruxelas em torno da Bússola Estratégica, o documento que deverá ser assinado em março e corporizar a tal política externa e de defesa de que tanto se diz a Europa precisar, o diplomata espanhol apontou a hipótese de uma intervenção russa dentro das fronteiras ucranianas como a mais recente das ameaças à paz no continente e esqueceu as divisões nos próprios 27 sobre a resposta a Moscovo.

Para se perceber como Borrell está a ignorar a realidade, basta pensar que a Alemanha recusou fornecer armas a Kiev contra Moscovo e que a França, que assume a presidência semestral da UE, insiste em que a via diplomática ainda pode resolver o conflito entre uma Rússia que quer o vizinho do sul na sua esfera de influência ou no mínimo neutralizado e uma Ucrânia que quer integrar a NATO de facto por não o conseguir de jure e assim furtar-se às ambições hegemónicas do vizinho do norte.

Exagerados ou não, os riscos de um conflito russo-ucraniano envolver outros países existem, e perante tantas ameaças verbais, tantas linhas vermelhas de um lado e do outro, qualquer faísca pode provocar fogo, tanto mais que há guerra desde há oito anos no Donbass, região ucraniana de língua russa. Mas são os países da UE que estiveram sob controlo de Moscovo durante a Guerra Fria, seja como repúblicas soviéticas (caso dos bálticos) ou como membros do Pacto de Varsóvia (caso da Polónia), aqueles que mais solidários se mostram com a Ucrânia, refletindo desconfianças históricas em relação à Rússia. E ao lado deste bloco leste-europeu estão convictamente os Estados Unidos e o Reino Unido, que acontece serem países da NATO, mas não da UE, o primeiro por causa de a geografia o colocar noutro continente, o segundo porque assim decidiu o seu governo após um referendo que pôs fim a quase cinco décadas como membro.

Ora, com Berlim e Paris, o eixo da UE, a destacarem-se nas reticências a um conflito generalizado com a Rússia, que unidade mostram os 27 na realidade nesta matéria? E não será uma crítica a um ponteiro demasiado virado para leste a recente referência do ministro português da Defesa de que "o Atlântico está um pouco ausente" do documento em elaboração, que até do Indo-Pacífico fala, isto sabendo-se como João Gomes Cravinho tem sido defensor da necessidade de convergência dos 27 em matéria de segurança?

Têm sido muito noticiadas as declarações do vice-almirante Kay-Achim Schönbach, agora ex-chefe da Armada alemã, numa conferência na Índia, sobre a irreversibilidade da anexação da Crimeia pela Rússia e desvalorizando uma invasão da Ucrânia, mas outras vozes em Berlim mostraram também surpreendente candura com Vladimir Putin, como Rolf Mützenich, líder do grupo parlamentar do SPD, o partido do chanceler Olaf Scholz, que afirmou compreender o "sentimento de ameaça" do presidente russo em relação à NATO. E, em Paris, o próprio presidente Emmanuel Macron insiste no formato Normandia, que sob a égide franco-alemã tenta pôr russos e ucranianos a dialogar em vez de tocarem tambores de guerra.

Para os 27 terem sucesso na definição de uma política externa e de segurança comum, que lhes dê margem própria sem abdicar da NATO, a tensão com a Rússia está mesmo muito longe de ser hoje o melhor terreno: suspeita-se de que há demasiada influência das memórias da Guerra Fria nas reações da administração presidida por Joe Biden e portanto a possibilidade de a América não estar verdadeiramente a ponderar os equilíbrios atuais da Europa; no Reino Unido, por muito que se fale de manobra de diversão para os problemas internos de Boris Johnson, o que se vive é sobretudo uma clara diplomacia musculada pós-Brexit; e no leste europeu há demasiada memória de agressões russas a moldar decisões para que se possa permitir que sejam os interesses estratégicos, ainda que legítimos, de alguns países a moldar o modo de ação de toda a Europa.

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