Ruth Bader Ginsburg. A juíza que despreza Trump não pode morrer

Cada vez que a magistrada do Supremo Tribunal, de 85 anos, fica doente a América liberal treme perante a ideia de Trump poder nomear um terceiro juiz para a mais alta instância judicial dos EUA.

Minúscula, cabelo apanhado num carrapito, toga preta e gola espampanante, ar sério e luvas de renda. A descrição não dirá nada a muitos portugueses, mas na América as máscaras de Ruth Bader Ginsburg foram um sucesso no Halloween. Pelo menos na América liberal. Essa que sabe que, aos 85 anos, a juíza do Supremo Tribunal carrega o peso de, apesar da recente operação ao cancro e duas costelas partidas, não poder reformar-se. Muito menos morrer. Porquê? Se tal acontecer, dará ao presidente Donald Trump a hipótese de nomear um terceiro juiz para a mais alta instância judicial do país, deixando-a ainda mais conservadora.

"O que é que ela estava a fazer às voltas no gabinete?", inquiria o comediante Stephen Colbert depois de Ginsburg fraturar as costelas numa queda, "ela é demasiado preciosa. Esqueçam a toga preta, ela devia andar embrulhada em papel com bolhas de ar e ser levada pelas escadas como se fosse um ovo Fabergé". Passemos o exagero do humorista, mas este é o sentimento da maioria da América liberal sempre que acontece algo a esta mulher de figura frágil e diminuta.

Afinal estamos a falar de uma magistrada da instância judicial que decide sobre questões que definem a sociedade americana. Questões como o aborto, a saúde, o casamento homossexual, discriminação de género, mas também financiamento das campanhas ou quem é o presidente, como quando em 2000 os juízes decidiram parar a recontagem de votos na Florida, dando a vitória ao republicano George W. Bush sobre o democrata Al Gore.

Juiz do Supremo é um cargo vitalício e, se aquela que é conhecia como "Notorious RBG" - alcunha que lhe foi dada há uns anos por uma estudante de Direito e que se inspirou no rapper Notorious BIG - deixar o lugar por alguma razão nos próximos dois anos, irá permitir a Trump colocar o Supremo com uma maioria conservadora de seis contra três.

A própria sabe disso. E não esconde o desprezo pelo presidente. Em 2016, confessou à CNN: "Não consigo imaginar como este país seria com Donald Trump como presidente. Para o país podem ser quatro anos, para o Supremo podem ser... nem quero imaginar." Palavras duras, pelas quais recebeu críticas da direita mas também da esquerda, preocupada com a sua imparcialidade. Acabou por pedir desculpas.

Claro que isto dos juízes do Supremo é uma lotaria. Se Jimmy Carter serviu quatro anos e não nomeou nenhum, no mesmo espaço de tempo George H.W. Bush nomeou dois. Em oito anos, Barack Obama também confirmou dois magistrados, mas Trump está na presidência há dois e já nomeou o mesmo número. Com os juízes a serem cada vez mais novos - tanto Neil Gorsuch como Brett Kavanaugh andam nos 50 e tal anos - e a esperança de vida a aumentar, escolher um juiz é deixar a sua marca na América.

Judia de Brooklyn

Joan Ruth Bader nasceu em Brooklyn, a 15 de março de 1933. Os pais, Celia e Nathan, viviam no bairro de Flatbush. Ela emigrou de Odessa, na atual Ucrânia, então parte do império russo, ele da Áustria. Apesar de não serem muito religiosos, os Bader fizeram questão de que a filha frequentasse a sinagoga e aprendesse os rituais judaicos.

Aluna dedicada, foi na universidade de Cornell, em Nova Iorque, que Ruth (como havia muitas Joan na turma quando era miúda, foi a mãe que sugeriu à professora chamar-lhe Ruth) conheceu Marty Ginsburg. Tinha 17 anos mas não teve dúvidas: "Conhecer o Marty foi de longe a melhor coisa que me aconteceu na vida", confessa a juíza no documentário RBG. O casamento durou 56 anos, até à morte dele em 2010, e está agora no centro do enredo do filme Uma Luta Desigual, sempre com Marty a aceitar ficar na sombra enquanto a mulher apostava na carreira.

E nem sempre foi fácil. Estamos a falar da América nos anos 50, uma América onde Ruth Bader Ginsburg viu o salário cortado por estar grávida. E era legal. Uma situação que não terá sido alheia à sua luta futura para denunciar a discriminação de género nos EUA.

Tudo começou pela dificuldade em encontrar emprego. "Era judia, era mulher e era mãe", lembraria mais tarde. Três características que pareciam contar mais do que o facto de ter sido uma das nove mulheres a entrar em Direito em Harvard em 1956 ou de ter sido a melhor aluna da sua turma em Columbia.

Acabou por ir dar aulas de Direito na Universidade de Rutgers, mas foi como advogada que se distinguiu. Da defesa da capitã da Força Aérea a quem foi pedido para abortar se não queria perder o emprego ao viúvo a quem foi negado a pensão quando a mulher morreu durante o parto.

De juíza centrista a ícone pop

Nomeada em 1980 pelo presidente Jimmy Carter para o Tribunal de Recurso do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington, Ruth Bader Ginsburg ganhou fama de centrista, votando muitas vezes ao lado dos conservadores. Uma postura que manteve nos primeiros anos no Supremo, onde chegou em 1993 por nomeação de Bill Clinton. Segunda mulher nomeada para a mais alta instância judicial dos EUA, à medida que os anos passaram as suas decisões viraram à esquerda.

Já doente - sobreviveu a dois cancros e tem problemas cardíacos -, muitos questionaram-se porque não se reformou enquanto Obama estava no poder, dando hipótese ao presidente de escolher um juiz liberal para a substituir. Mas ela foi muito clara: "Enquanto conseguir fazer o meu trabalho, estarei por aqui."

E ali, no edifício de colunas brancas do Supremo, junto ao Capitólio, fez amigos. Até os mais improváveis. Como o entretanto falecido Antonin Scalia, o juiz conservador com o qual partilhou a paixão pela ópera.

A sua defesa da igualdade de direitos, o estoicismo com que argumenta, as longas pausas e o ódio à conversa fiada tornaram Ruth Bader Ginsburg uma figura adorada na América liberal. Mas a fama mundial só chegou com o meme da "Notorious RBG". Criado no Tumblr em 2013 pela estudante de Direito Shana Knikhnik, mais tarde transformado em blogue e depois em livro, este levou Ginsburg até uma nova geração de feministas, fascinadas com a paixão da juíza. "Há pessoas de todas as idades excitadas por verem uma mulher num cargo público que mostrou que, mesmo aos 85 anos, pode ser inflexível na sua dedicação à igualdade e justiça", disse à BBC Irin Common, coautora do livro Notorious RBG.

Hoje a imagem da juíza está por todo o lado. Nos fatos de Halloween, em canecas, em T-shirts. A sua vida, inclusive a sua rotina no ginásio, inspirou o documentário RBG, nomeado para os Óscares. Do último filme da Lego aos The Simpsons, são muitas as referências pop a Ruth Bader Ginsburg. A própria diz divertir-se muito a ver a atriz Kate McKinnon vestir a sua pele no programa de humor Saturday Night Live. E as suas luvas de renda e golas elaboradas já se tornaram acessórios de moda.

"Parece ser uma coisa que a juíza Ginsburg aprecia. Sentir que o seu legado pode inspirar uma nova geração de mulheres é muito entusiasmante para ela", garante à BBC o seu antigo estagiário Paul Schäffer Berman, hoje professor de Direito na Universidade George Washington.

Os americanos retribuem o carinho. Quando se soube que fraturara as costelas e voltara a ser operada a uns nódulos cancerígenos em dezembro de 2018, a internet inundou-se de mensagens a desejar-lhe as melhoras. "A única coisa que quero para o Natal é uma Ruth Bader Ginsburg saudável", escreveu um utilizador no Twitter. Não é o único.

OS NOVE JUÍZES

No Supremo, cinco dos juízes são considerados conservadores e quatro como mais liberais.

NEIL GORSUCH
Nomeado por Donald Trump e confirmado pelo Senado em abril de 2018, ocupou o lugar de Antonin Scalia. Tem 51 anos e é conservador. É protestante.

SONIA SOTOMAYOR
Filha de porto-riquenhos nascida no Bronx há 64 anos, foi nomeada por Barack Obama e confirmada em agosto de 2009. Ocupou o lugar de David Souter. É liberal. Católica.

ELENA KAGAN
Nomeada por Obama, foi confirmada em agosto de 2010. Aos 58 anos, é a única no Supremo a não ter sido juíza antes. Liberal. É judia.

BRETT KAVANAUGH
Confirmado pelo Senado após ter sido acusado de assédio sexual, foi nomeado por Trump. Aos 53 anos, é um conservador. É católico.

STEPHEN BREYER
Nomeado por Bill Clinton e confirmado pelo Senado em agosto de 1994, vota com os liberais. Tem 80 anos e é judeu.

CLARENCE THOMAS
Chegou ao Supremo em 1991, nomeado por George H. W. Bush e após ter sido acusado de abuso sexual. É agora o único afro-americano no Supremo. Conservador, tem 70 anos e é católico.

JOHN ROBERTS
Após a morte de William Rehnquist, em 2005, foi nomeado presidente do Supremo pelo presidente George W. Bush. Apesar
de conservador, tem votado algumas vezes com os liberais. Tem 63 anos e é católico.

RUTH B. GINSBURG
Nomeada por Bill Clinton em 1993, aos 85 anos é hoje a figura de proa dos liberais no Supremo. É judia.

SAMUEL ALITO
Confirmado em 2006 após nomeado por George W. Bush, tem 68 anos. Conservador, é católico.

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