Sim, eu censuro Le Pen. Dão licença?

O que devemos fazer perante discursos que execramos, senão tornar clara a nossa desaprovação? De que serve a liberdade de expressão, se não pudermos dizer não?

Foi considerado o parlamentar mais influente nas redes sociais em 2017. Como candidato à presidência do quinto maior país do mundo, está em segundo nas intenções de voto. Praticamente tudo o que diz levanta ondas de choque. É sem dúvida um fenómeno.

Falo de Jair Bolsonaro, o político brasileiro que defende a esterilização dos pobres; que acha que as mulheres não devem ganhar o mesmo que os homens "porque engravidam"; que quando os pais suspeitam de que um filho é homossexual devem bater-lhe para o "curar" (igual se descobrirem que usa "drogas"); que a tortura é uma prática legítima ("o cara tem de ser arrebentado para abrir o bico"); que disse a uma deputada, no parlamento, "você não merece ser estuprada", explicando porquê depois: "É muito feia." Ah, e que defendeu também a censura (de Estado, a da bayer).

As últimas sondagens, divulgadas esta semana, revelam que os eleitores "núcleo duro" de Bolsonaro são "homens, pessoas com ensino superior, renda alta, evangélicos, brancos". Explica a responsável de uma das empresas de sondagens: "Tendem a ser menos voláteis do que os demais grupos de eleitores. É gente que já se informou, formou uma convicção e dificilmente deve mudar em massa." Quanto aos que ainda não têm um candidato na ponta da língua, são 19% os que o escolhem numa lista. Num país com mais de 200 milhões, é muita gente.

Agora imaginem que Paddy Cosgrove, que pediu ajuda para saber quem há de convidar para a próxima Web Summit depois de voltar atrás no seu convite a Marine Le Pen, se lembrava de Bolsonaro. Quem falou de "censura" a propósito da reação adversa ao convite a Le Pen, argumentando que temos de "a ouvir para compreender os seus argumentos" (sério? Não os conhecemos?); que "estaria na primeira fila para debater com ela porque assim é que pode ser derrotada"; que asseverou "não se combaterem estas ideias e estas pessoas desprezando-as mas tentando perceber os motivos de quem as apoia" (era para isso a WS? Não me gozem), iria então impante assistir a uma palestra do brasileiro. Ou pelo menos nada faria -- nem um abaixo-assinado, nem uma campanha nas redes, nem uma mostra pública de nojo -- para tal evitar. Porque, como li várias vezes na última semana e meia, não está em causa "normalizar" quando gente e ideias assim têm 20% dos votos, porque isso significa que já estão normalizados. Suponho que a conclusão é de que temos de os achar normais, quiçá até sorrirmos-lhes e oferecermos bar aberto.

Como se argumenta com a raiva, o ressentimento, a xenofobia, o racismo? Com a ideia de que se se fecharem as fronteiras e se expulsarem os "escurinhos" (ou estes forem reduzidos ao seu estatuto de inferiores) tudo volta a ser "como antes", haverá empregos bons e o sol brilhará para todos nós?

Pois discordo: quanto mais normalizados parecerem mais devemos insistir em que não podem sê-lo. Quanto mais poder têm mais devemos execrá-los. Se resulta? Não sei. Acho que ninguém sabe. Não sabemos mais do que os que assistiram, dentro e fora da Alemanha, à ascensão de Hitler. Houve os que não acreditavam que pudesse ser verdade, os que deram o benefício da dúvida, os que ficaram a observar e os que quiseram fazer acordos com. Sabemos como acabou; não se (e como) poderia ter sido evitado.

Dizem: é preciso compreender por que motivo tanta gente apoia bolsonaros, trumps e le pens e agir aí, argumentando. Certo. Bem tentamos. Mas como se argumenta com a raiva, o ressentimento, a xenofobia, o racismo? Com a ideia de que se se fecharem as fronteiras e se expulsarem os "escurinhos" (ou estes forem reduzidos ao seu estatuto de inferiores) tudo volta a ser "como antes", haverá empregos bons e o sol brilhará para todos nós? Ou de que matar prisioneiros sai muito mais barato que alimentá-los na prisão?

Claro que conseguir que o WS desconvide Le Pen - como no caso de um hipotético convite a Bolsonaro, ou, por que não, a um estratega de comunicação do Daesh, sem dúvida o maior fenómeno, nesse campo, do século XXI -- é só simbólico, "de nada serve" no sentido em que não convencemos um único dos seus apoiantes a desapoiá-la. Mas, desculpem, agora as posições éticas para serem defendidas têm de ter eficácia material? Não chega o objetivo de não credibilizar ideias que abominamos, não contribuirmos para o simbólico de lhes dar palco? E não pode ser porque é censura, ai Jesus? É censura, sim, e bem: no sentido de desaprovação - como em 1990, em carta aberta contra vinda do pai Le Pen, fizeram Freitas do Amaral, Lobo Xavier e o atual PM, entre muitos outros, da direita à esquerda (consenso que, como frisou Louçã na SIC, se parece ter quebrado em Portugal) -- não naquele que foi estultamente invocado, o da supressão do direito ao discurso.

Direito ao discurso é também, como livres cidadãos de um Estado democrático, dizermos: "Sabemos muito bem ao que vem, e não é bem-vinda". Era o que faltava que não pudéssemos usar a nossa liberdade de expressão para dizer isso: não.

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