Armazéns do Chiado. A modernidade chegou há 20 anos

Levaram 11 anos a reerguer-se das cinzas do incêndio de 1988, mas os Armazéns do Chiado mudaram o comércio naquela zona da cidade.

Da manhã de 25 de agosto de 1988, Teresa Pupo recorda a "confusão enorme". Nas ruas da Baixa de Lisboa, onde trabalhava, juntavam-se moradores, curiosos, bombeiros, polícia, políticos e muitos repórteres. O Diário de Notícias, longe de conhecer os ritmos que a internet hoje obriga, levava para as bancas a segunda edição do dia, confirmando na capa os piores receios: um vulcão de labaredas arrasara o Chiado durante a madrugada. Lá dentro, reportagens na primeira pessoa davam conta "do pânico, do caos, do pandemónio" que se instalara. E de um "vulcão que tingia de sangue o céu da cidade".

O incêndio levou 18 edifícios, o equivalente a oito estádios de futebol. Pelo caminho ficaram os Grandes Armazéns do Chiado, os Armazéns Grandella, a Perfumaria da Moda, a Pastelaria Ferrari, a Casa Batalha, todo o espólio da Valentim de Carvalho, e tantos outros. Era um "desastre nacional", diria Mário Soares, à data Presidente da República.

À madrugada negra seguiram-se dias igualmente cinzentos. "Aquela zona sofreu um bom bocado. As poucas lojas que não arderam foram esquecidas, muitas morreram. Os comerciantes sofreram muito, as pessoas nem tão-pouco queriam ir para ali", conta Teresa Pupo, que agora está ao balcão da histórica Chapelaria Azevedo, na Praça do Rossio.

Os anos de recuperação que se seguiram ao incêndio foram longos e culminaram, a 25 de outubro de 1999, com a abertura dos novos Armazéns do Chiado. Faz hoje 20 anos.

"Foi uma espera muito longa", lamenta Manuel Sousa Lopes, presidente da Associação de Dinamização da Baixa. "Houve pessoas que sofreram muito. É claro que daquela recuperação se retiraram muitos benefícios, temos ali um dos melhores centros de comércio. Os armazéns deram uma nova alma ao coração do Chiado."

Vítor Silva, da Associação de Valorização do Chiado, lembra o timing bem aproveitado por Lisboa, numa altura em que Portugal ainda estava na boca do mundo graças à Expo'98. "Deu um impulso bastante significativo àquela zona", conta, admitindo que a reabertura dos armazéns, 11 anos depois do incêndio, "permitiu um trabalho de reposicionamento do comércio, da qual os armazéns são uma âncora".

"Os armazéns têm uma responsabilidade bastante grande na recuperação daquela zona que, de certa forma, renasceu das cinzas", conta Maria de Lourdes Fonseca, presidente da União de Associações de Comércio e Serviços. "Eu era bastante mais nova mas penso que, numa primeira fase, houve o rescaldo do incêndio, e a surpresa pelo extinguir da principal zona de comércio da cidade - era o Grandella, os Armazéns do Chiado, referências de compras para Lisboa. Penso que foi feito, tanto por parte dos comerciantes como da câmara e de outras entidades oficiais, uma reconstrução que marcou o que hoje é o Chiado. Os próprios armazéns trouxeram um dinamismo diferente ao comércio, porque levaram para ali um outro tipo de comércio, diferente daquele a que a cidade estava habituada, e passaram a coexistir tanto algumas lojas centenárias como algumas das mais famosas marcas de luxo."

Foram tempos estimulantes, conta João Soares, presidente da Câmara Municipal de Lisboa à data da inauguração e também protagonista desta história. "Não foi um processo difícil. Pessoalmente foi altamente estimulante para mim, um processo fantástico, o contacto com o arquiteto Siza Vieira...É claro que foi complicado, mas, o que é bonito, é resolver as coisas complicadas. É olhar à fidelidade de Bartolomeu Dias, que transformou o cabo das Tormentas no cabo da Boa Esperança. É o que eu também tenho procurado fazer ao longo da vida", contou ao DN/Dinheiro Vivo. Num vídeo que foi apresentado ontem, como parte das comemorações, João Soares evidenciou ainda "a ligação à memória de infância e o encanto de ver renascer de uma forma mais jovem e renovada uma grande referência da cidade de Lisboa". Lembrou também a importância de levar uma marca como a FNAC para os armazéns.

Neste vídeo, Marcelo Rebelo de Sousa voltou atrás no tempo para lembrar o jantar de dia 24 de agosto de 1988, no Grémio Literário e "um último passeio" no velho Chiado. "Decorridas estas décadas, como é bom ver refeita a alma cheia de mundo, cheia de gente, cheia de vida. É outro Chiado, são outros armazéns. Mas a vida continuou, felizmente", diz o Presidente da República.

Francisco Ferreira ainda não estava na Multi Portugal quando a empresa agarrou o projeto para gerir os Armazéns do Chiado. Lembra que a "A Multi era uma empresa focada na reabilitação urbana e o incêndio foi visto como uma oportunidade" e não esconde o trabalho moroso que envolveu os dois prémios Pritzker nacionais - Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura - para tentar manter a tradição e juntar-lhe a modernidade. "Foi um projeto exigente pela expectativa que envolveu para uma zona que já representava um ponto de centralidade para a cidade."

O edifício do shopping é detido pelo Commerz Real e a Multi Portugal detém a concessão. Francisco Cavaleiro de Ferreira, diretor-geral da empresa gestora, assume que espera continuar este caminho com a manutenção da concessão "por mais vinte anos". O shopping está a crescer 5% em vendas globais de acordo com o índice de vendas da APCC (Associação Portuguesa de Centros Comerciais), que coloca o setor a crescer 4,8%.

Hoje, 20 anos depois, passam pelo Chiado 8,5 milhões de visitantes todos os anos.

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