Fujam, vem aí o Boris Johnson

A demissão de May pode fechar um ciclo de insucessos vários, mas abre outro com potencial destrutivo superior. No meio disto, Trump visita Londres e as instituições europeias vão ter de acomodar os resultados destas eleições. A disfuncionalidade entre Londres e Bruxelas ainda agora vai a meio.

O Brexit não destrói de imediato, mas corrói sem fim à vista. Desde que Cameron lhe passou o testemunho depois de tirada a ilação ao referendo, Theresa May perdeu em menos de três anos uma maioria absoluta nos Comuns, a coesão já intermitente na bancada conservadora, o pouco diálogo que mantinha com a oposição, o mínimo de convergência estratégica no cabinet, a autoridade política na relação com Bruxelas depois dos três chumbos ao acordo de retirada e, no meio disto tudo, 36 ministros e secretários de Estado. Ter sobrevivido durante estes anos no cargo foi um milagre político só explicado pelo período excecional que vive o Reino Unido.

Não será um ás no talento político nem certamente uma líder especialmente carismática. Tão-pouco foi brilhante. Apesar disso, e ao contrário dos muitos obituários que estão a ser feitos na imprensa, considero ser justo dizer que a primeira-ministra demissionária foi séria no cumprimento do mandato que tinha em mãos e resistente no meio da brutalidade atual da política britânica. Séria porque tudo fez para acomodar o turbilhão de pressões internas e externas, conseguindo um acordo com os 27, apesar de tudo preferível a um não entendimento. Resistente porque ninguém a imaginaria com capacidade para suportar tanto. Não chegou, é certo, mas bateu-se por uma linha de atuação para chegar à retirada do seu país da UE, posição que não defendeu no referendo. Se temos uma avaliação negativa deste seu mandato, e é perfeitamente legítimo que o façamos, esperem para ver o que aí vem.

Theresa May estava a prazo. Curtíssimo prazo. Tal como aconteceu com outros líderes conservadores, de Heath a Thatcher, de Major a Cameron, foi a relação disfuncional entre o partido conservador e a União Europeia a vergá-la. A União Europeia é o tema nacional mais salvador e destrutivo da política britânica em simultâneo. A adesão permitiu uma tábua económica e geopolítica essencial depois do império; os anos da permanência foram usados com proveito histórico evidente e álibi a vários falhanços; a saída tem sido um calvário penoso de observar, que tudo tem atropelado e promovido, desde a estabilidade institucional à unidade do reino, passando pela emergência da mais reles demagogia até à premiação dos seus protagonistas.

Nas últimas 72 horas, acenando com um segundo referendo, que lhe rasgaria o que ainda restava de apoio partidário, e antecipando uma derrota histórica nas eleições para o Parlamento Europeu, reconfirmando a fuga de votos para Farage como aconteceu em 2014, May abriu caminho à ascensão de uma linha mais unilateral na condução do Brexit, tendencialmente favorável à saída sem acordo, desprovida de qualquer predisposição negocial com a oposição, muito menos sensível ao resultado negativo destas europeias. É que nem essa linha reconhece grande legitimidade ao processo - dado que na sua ótica nunca deveria ter acontecido - nem está propriamente muito preocupada com a vitória de Farage, pois partilha da sua mensagem. O hard Brexit une as duas agendas e oficializa a canibalização entre nacionalistas e conservadores. A perspetiva de um governo minoritário com apoio unionista já mastigado e liderado por Boris Johnson (ou Dominic Raab) em alinhamento estratégico com a mensagem de Nigel Farage é a visão mais próxima de um grande circo cheio de palhaços, canecas de cerveja e piadas atiradas para o ar. Os dois, em Londres e em Bruxelas, já provaram que o institucionalismo não os muda nem verga. Pelo contrário: são os cargos e as instituições que ficam marcados pela sua atitude política.

A consequência deste quadro - se entretanto não emergir nenhum candidato à liderança conservadora que congregue uma frente anti-Boris, vença e faça passar um acordo de saída ordenada em Westminster - é a sua convergência temporal com os arrumos nas instituições europeias saídas destas eleições, o que torna tudo potencialmente mais disfuncional ainda. Lembro, por exemplo, que nenhuma comissão europeia tomará posse sem que todos os comissários propostos sejam aprovados em audição no Parlamento Europeu, o que implica a aprovação do nome indicado por Londres. A hostilidade à práxis negocial que Johnson ou Raab trarão ao processo pode acrescentar novos níveis de exasperação na comunidade empresarial e financeira britânica, que acionará os seus planos de contingência, alarmando de outra forma o contexto com os países europeus mais expostos ao Reino Unido.

Além disto, ainda com May no cargo, é provável que a visita a Londres de Donald Trump seja aproveitada para tirar vantagem da situação britânica, com uma ou outra tirada a incitar o divórcio rápido com a UE e elogios de apadrinhamento a Johnson e Farage. A "relação especial" está pelas ruas da amargura, mas não será por isso que Trump vai perder a oportunidade de fazer o seu bullying para consumo interno, o que expõe ainda mais o buraco onde o Reino Unido se enfiou. Além de triturar a política britânica, o Brexit mirra o potencial negocial do Reino Unido com terceiros. Todos nos lembramos de que os seus defensores juravam ser a saída não apenas fácil como geradora de uma dinâmica imparável de afirmação britânica no mundo. Estamos a ver onde isso está a levá-los. A verdade é que a demagogia no Reino Unido tem tido um custo tremendo para o país, mas dividendos generosos aos seus propagandistas. A sociedade, entretanto, é quem paga a fatura.

Investigador universitário

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