Apesar de proibido declaro o meu voto

De que estamos a falar quando estamos a votar? Ah, é da Europa! Gosto. Tratando-se da grande (porque antiga, variada, inspiradora e poderosa), é um tema digno de nos levar à condição honrosa de minúsculo decisor do seu destino. Europa, dela falar e por ela votar.

Por isto e por aquilo, mas a política é assim, falou-se pouco da Europa. Talvez também seja um pouco da Europa falarmos pouco da Europa. Diz-se agora que somos cada vez mais muito nações e pouco continente. Um amargo militante até ironizou: encontrem-me um europeu que eu empalho-o... Àquilo que pode levar esse conceito de "tão pouca Geografia para muita História" ficámos dolorosamente a saber ainda há pouco tempo. Há um quarto de século (na Europa, quase nada), aos Balcãs deu-lhes para explodir, e aos seus, a cada um dos seus, deu para caçar os vizinhos, cada um dos outros.

Ontem, no Porto, o europeu (bósnio, sérvio, jugoslavo ainda?...) Emir Kusturica tocou com a sua banda de gypsy rock sons de uma mistura - acontecida na pequena terra dele (Geografia), de muitos povos (História) - como tantas que fizeram o nosso continente. Kusturica já contou o mesmo em filmes. Por exemplo, Gato Preto, Gato Branco (1998) e A Vida É Um Milagre (2004) são essa Europa cruzada, descomplicada se formos iluminados pelo humanismo mas facilmente abalada se os tempos forem de os dogmas pontificarem. Ora, o mais europeu dos cineastas já não filma, foi obrigado a deixar de o fazer - não por tribunal, mas só por insídia daqueles que têm ideias feitas. Ontem, a Alfândega do Porto, onde Kusturica tocou, poderia ter sido lugar para uma boa noite de reflexão eleitoral. Aprendemos - já nem digo com os tantos séculos passados - com o passado recente?

Avis rara, o europeu? Então, por favor, não o empalhem, acasalem-no e façam-nos procriar. Porque o europeu é do melhor que os homens fizeram mundo fora. Sim, sim, os europeus foram também autores do pior, de muitos piores, mas o balanço é glorioso como é de lembrar nestas eleições que coincidem no mesmo maio em que se comemora Leonardo, o santo patrono da Europa. Já há 500 anos os europeus eram assim, criativos, e a Europa era assim, dos florentinos Medici ao rei francês Francisco I, ambos mecenas de Da Vinci. A quem pertence Mona Lisa? Ao mundo, claro. Mas há uma mensagem ao mundo que interessaria lembrar nestas eleições: "Com muito prazer." E a assinar a oferta: "Europa."

Há cem anos, James Joyce já tinha escrito Gente de Dublin (Dubliners, em inglês) e ia escrever Ulisses, afinal sempre sobre o mesmo, a sua cidade irlandesa, afinal a sua pátria, porque a pátria da sua infância. O editor francês de Dubliners quis traduzir o título por Como Eles São em Dublin. Mas Joyce recusou: "Claro que não, Dubliners é sobre como nós somos em qualquer lado - é sobre a moderna vida urbana." A noção universalista dos europeus (pelo menos dos melhores de nós) é a marca do continente (pelo menos na melhor contribuição da Europa).

Escolho um escritor difícil de ler para ilustrar o nosso orgulho porque ele é a Europa que somos e às vezes não sabemos. É conhecido que a Irlanda ensinou a América a comer mal e a fazer casas feias, dos feijões no pequeno-almoço aos pequenos tijolos vermelhos, comuns de todos os bairros do lado errado do caminho-de-ferro, de Nova Iorque a Chicago. Mas toda a grande música branca americana é filha da Irlanda, tal como os Beatles, os três grandes (John, Paul e George) são filhos de irlandeses imigrados em Liverpool. Repito, escolhi o quase nunca lido e genial James Joyce para lembrar que um dos nossos povos europeus mais desconhecidos, afinal já se entranhou profundamente cantado em nós.

O que eu quero dizer é que somos irremediavelmente e felizmente europeus. Vote nisso.

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