Apenas uma obra de arte

Um corpo inanimado atrás de um vidro fez pessoas chamar o 112 várias vezes. Fariam o mesmo pelos sem-abrigo com que nos cruzamos todos os dias na rua? O artista quis provocar uma reflexão sobre o que não vemos, ou escolhemos ignorar. O seu simulacro comoveu mais que a vida.

É uma montra num prédio pombalino. No vidro lê-se "Porta 14". E atrás dele está o que parece uma pessoa, uma mulher talvez (veste calças sob uma saia florida, tudo sujo e empoeirado como se há muito não mudasse de roupa, como quem vive na rua), de borco sobre um monte de sacos de entulho. À volta as paredes brancas, limpas, lisas, e o chão de pedra larga polida pelos séculos.

Ao lado da montra há uma grande porta de madeira, quase sempre entreaberta durante o dia - é a entrada de um ateliê de arquitetura. Mas ninguém ali foi bater ou fazer perguntas, ninguém foi ali dizer "está uma pessoa aqui, sabem quem é?"

Ninguém. Mas pelo menos duas ou três das pessoas que passaram e viram aquilo que lhes parecia um corpo inconsciente, talvez um cadáver, chamaram o 112. Houve gente a dar murros na montra, a ponto de quase partir o vidro, para tentar acordar quem ali viam. Gente preocupada, em cuidado, solidária, a tentar ajudar.

O mesmo com os polícias e bombeiros que se deslocaram ao local da chamada. À meia-noite e tal de segunda-feira 20, estavam já a começar a cortar o vidro com uma máquina quando o dono daquele espaço e do ateliê, que mora no prédio, ouviu o barulho e foi a correr explicar que aquilo - aquele corpo sobre os sacos - é uma instalação artística, que aquela montra é da galeria Porta 14. Que inaugurou a 17 de maio aquela peça, intitulada Alvará, do artista plástico Noé Sendas.

Para evitar confusões, a polícia solicita que se coloque alguma coisa na montra que permita às pessoas perceberem o que estão a ver; o dono do espaço concorda e coloca, ao lado da peça, um dístico que diz "Isto é arte" em português e inglês.

Mas no dia seguinte mais alguém, sem reparar no dístico ou talvez não o compreendendo - para muita gente aquilo, aquela figura suja sobre sacos sujos, não poderá ser isso a que se chama "arte" --, liga para o 112. Dessa vez, os polícias pedem que a exposição encerre até que um texto mais explicativo impeça qualquer confusão. O dono da galeria fala com o artista. São sensíveis à ideia de que os recursos de socorro são preciosos, e que serem desviados sistematicamente por causa de uma instalação artística pode implicar que faltem onde podem fazer a diferença entre a vida e a morte. Decidem colocar uma placa de esferovite a tapar a peça. Dois dias depois uma folha colocada no vidro permite a retirada da placa e a reabertura da exposição. "Por questões de segurança a Porta 14 e o artista Noé Sendas foram obrigados pela polícia a notificar que o que está a ver neste espaço é apenas uma obra de arte", lê-se em três línguas.

"Obrigados pela polícia" é uma imprecisão: a polícia obviamente não tem autoridade para impor o encerramento de uma exposição ou mesmo a afixação daquela informação; dizer que "obrigou" é admitir que uma autoridade não judicial pode interferir na liberdade de expressão e naquilo que se passa num espaço privado, ambas ideias perigosas: só uma ordem de juiz poderia "obrigar" a tal, e, no caso, com duvidosa constitucionalidade. É de resto pouco crível que os agentes tenham colocado as coisas nesses termos; se o fizeram, abusaram da sua autoridade.

Mas o interesse deste caso vai além da questão clássica sobre os "limites" da liberdade de expressão e dos poderes policiais (fazendo recordar aquele em que numa feira de livro de Braga, em fevereiro de 2009, a polícia ordenou a retirada de, ou apreendeu mesmo, livros cuja capa ostentava uma imagem do quadro de Courbet A Origem do Mundo, porque alguém a considerou "pornográfica"). O ponto, ou, como diria Barthes, o punctum desta história está noutro lugar. Como comentou a também artista plástica Fernanda Fragateiro na página de Facebook de Noé Sendas, "a polícia devia fechar a cidade de Lisboa porque está cheia de gente de verdade a dormir nas ruas."

Quem esmurrou aquela montra e chamou o INEM fica igualmente preocupado quando passa na rua por sem-abrigo que parecem dormir mas que podem estar inconscientes? Não sabemos. Pode ser, como diz Fragateiro, que "já não são as coisas em si que chocam, como a realidade tão dolorosa e incompreensível dos que não têm casa, nem país, que dormem todos os dias na rua, e pelos quais passamos sem os ver. O que choca é a representação da realidade: o que é visto através da montra, do ecrã. Isso agora é que é o real?"

Colocada por uma artista, esta pergunta tem um alcance mais fundo: a arte não é real? E, ao contrário, o real não é sempre uma construção, uma criação e portanto um simulacro? Ou há um momento no qual, como numa célebre discussão entre dois filósofos, temos de admitir que não faz sentido discutir se a mesa que está à nossa frente existe ou é uma projeção, porque se lhe batermos com a mão com força, ficamos sem dúvidas: está mesmo ali e faz doer?

Mas aqui, lá está, a arte fez doer. E fez doer precisamente porque não foi lida como arte. Talvez o facto de aquela figura estar atrás de uma barreira tenha permitido mais facilmente a emoção e a ação; talvez seja mais fácil exprimir preocupação e empatia quando não temos de interagir com o objeto delas, quando podemos delegar ou projetar a intervenção, quando podemos sentir-nos bons e justos sem sermos "sugados" para o contacto pessoal e tudo o que ele implica de responsabilidade, de exigência, de dor.

E não, isto não é, de maneira nenhuma, um fenómeno novo ou facebookiano: pensemos como decerto os contemporâneos de Oliver Twist se comoveram e revoltaram com a sorte do pobre órfão e dos seus companheiros de desgraça sem que isso implicasse que passassem a olhar de outra forma todas as crianças e adolescentes miseráveis, prostitutas e outros excluídos que pululavam nas ruas da Londres do século XIX, quanto mais fazer alguma coisa por eles.

Em todo o caso, com aquela folha espetada na montra o impacto da peça de Noé Sendas ficou irremediavelmente afetado - mesmo se aquele aviso corresponde a uma espécie de "meta discurso" elevado ao triplo, ou seja, um discurso sobre o discurso sobre o discurso da peça, um prolongamento das perplexidades que ela suscita. "O importante é pensar / dar atenção à questão de alguns / demasiados lisboetas estarem a ser tratados como entulho...", diz Noé, que vive em Berlim. "Esta peça foi mesmo um impulso depois de ter passeado por aquele bairro [o da galeria, junto à Sé] e por Lisboa, de espreitar pelas montras das lojas fechadas, de ver um mar de sacos de entulho espalhados por toda a cidade."

Uma cidade que se reconstrói e renova e festeja como "polo turístico" e oásis de estrangeiros endinheirados, indiferente aos que exclui e expulsa, mas que se comove e indigna com o boneco sujo atrás do vidro. Não era nisto que Nietzsche estava a pensar quando escreveu "temos a arte para não morrer de verdade" - não na arte para nos poupar, para nos aquietar e confortar, mas para nos permitir chegar à verdade sem perecermos dela. Para a vermos sem cegar.

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