Partiu e deixa saudades

Jorge Jesus voltou para casa e deixou órfãos alguns milhões de torcedores do Flamengo - talvez uns 40 milhões, entre os quais me incluo. Esteve entre nós por pouco mais de um ano, mas o seu nome ficará gravado na história do clube de futebol mais popular do Brasil, detentor de uma trajetória de 125 anos a completarem-se em novembro. Sim, o Flamengo, fundado em 1895, já está no seu terceiro século de existência.

Por ele passaram dezenas de treinadores, nacionais e estrangeiros, alguns de grande influência no futebol brasileiro. Um deles foi o húngaro Dori Kürschner - no Brasil, estranhamente, Kruschner -, veterano de muitas conquistas no futebol alemão e suíço, inclusive como treinador das suas seleções nacionais. Kruschner veio para o Flamengo em 1937 e trouxe ideias que, mesmo na Europa, ainda eram novidade. Foi ele quem instituiu, por exemplo, o sistema tático 3-2-2-3 ou 3-4-3, com três defesas (dois laterais e um central), o meio-campo com dois armadores defensivos e dois ofensivos e um ataque com dois pontas e um avançado central. O desenho dessa formação lembrava um W e um M sobrepostos, daí ser chamado de WM. Foi Kruschner também quem impôs aqui a preparação sem bola, à base de deslocamentos e jogadas simuladas, e tornou o Flamengo pioneiro no Brasil na adoção de uma segunda camisola - branca, com apenas duas listas rubro-negras -, mais apropriada aos desafios noturnos. A sua passagem entre nós também foi curta, mas porque, quando chegou ao Rio, já tinha 52 anos, idade avançada para a época. Morreria aqui, de enfarte, em 1941, aos 56.

A diferença entre ele e Jorge Jesus é que, ao contrário de Jesus, Kruschner não conquistou títulos. Mas foi basicamente quem armou o Flamengo que, em 1939, 1942, 1943 e 1944, venceria as principais disputas sob o comando do homem que ele tivera como assistente: Flavio Costa. Este, por sua vez, seria um vitorioso. Ao deixar o Flamengo em 1945, assumiria o grande rival Vasco da Gama, que ele transformaria na maior equipa brasileira do pós-guerra e base da seleção nacional vice-campeã mundial em 1950. Já em fim de carreira, Flavio Costa teria uma passagem sem expressão pelo Porto, em 1956-57, mas voltaria ao Flamengo e seria campeão de novo, em 1963.

Outro estrangeiro a quem o Flamengo e o Brasil muito deveram foi o paraguaio Fleitas Solich, que levou o Flamengo a outro tricampeonato, o de 1953-1954-1955, e seria o principal modernizador do sistema 4-2-4, já em vigência - quatro defesas, dois armadores e quatro avançados. Solich adaptou-o para uma espécie de 4-3-3, com o recuo de um ponta para reforçar a armação. Esse ponta foi nada menos que Mario Zagallo, futuro campeão mundial pelo Brasil como jogador em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile, como treinador em 1970, no México, e como coordenador técnico em 1994, nos Estados Unidos. O próprio Solich só não foi escolhido treinador da seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1958 por ser estrangeiro - o que, na época, não se admitia. Hoje não há mais esse obstáculo. Se tivesse continuado por aqui, Jorge Jesus seria em breve, e inevitavelmente, convidado a dirigir a nossa seleção - mesmo porque ninguém mais suporta Tite no cargo.

O Flamengo também venera dois outros treinadores que o levaram a uma penca de títulos nacionais e internacionais: Paulo Cesar Carpeggiani, comandante do Flamengo na era Zico, que conquistou o campeonato mundial de clubes em 1981, derrotando em Tóquio o Liverpool, campeão europeu, por 3x0, e Luiz Carlos Nunes, Carlinhos, numericamente com ainda mais conquistas, inclusive de campeonatos brasileiros. Tanto Carpeggiani como Carlinhos haviam sido jogadores do clube, assim como Andrade, que atuou por muitos anos ao lado de Zico e, como treinador, levou o Flamengo também a um campeonato nacional, o de 2009. Tudo isso apenas para dizer que Jorge Jesus só precisou de uma passagem relâmpago para dividir o coração dos rubro-negros com tantas figuras tão queridas.

Com todo o entusiasmo que as suas vitórias e conquistas despertavam - goleadas inesquecíveis, um estilo de jogo revolucionário e cinco títulos importantes, inclusive os campeonatos nacional e sul-americano, e até a derrota por 1x0 para o mesmo Liverpool na final do Mundial de Clubes do ano passado -, nunca achei que Jorge Jesus viera para ficar. O simples facto de não ter trazido a família para morar com ele indicava isso. Outro foi observar que Jesus não se integrava na vida do Rio - nunca foi visto muito longe de seu apartamento e do centro de treinamento do Flamengo, ambos em bairros distantes da verdadeira cidade. Não vinha jamais à Zona Sul, onde ficam as praias, os restaurantes, os cartões-postais. Aparentemente não tinha vida social - o seu círculo parecia resumir-se aos auxiliares diretos, que trouxera de Lisboa e aos dirigentes do clube. Arrastava multidões de admiradores, mas teria amigos? E nunca se dispôs a passear a pé pelas ruas do centro da cidade - se o tivesse feito, sentir-se-ia talvez em Lisboa. A única vez em que esteve lá foi para receber o título que a Câmara dos Representantes amorosamente lhe ofereceu - o de cidadão honorário do Rio.

Jorge Jesus se foi e tentaremos recomeçar tudo a partir do que ele deixou. O que não será impossível, ao saber que contamos com jogadores como Everton Ribeiro, Bruno Henrique, Gerson, Gabigol, Arrascaeta, Rafinha, Rodrigo Caio, Filipe Luís, William Arão, Diego Alves, Diego Ribas, Pedro, Vitinho e outros, com os quais ele foi tão vitorioso.

Quero crer que Jorge Jesus não deixou o Flamengo. Deixou um país hoje destrutivo, irresponsável e em decomposição, governado por celerados. No que, como sabemos nós, que vivemos nele, fez muito bem.

Jornalista e escritor brasileiro

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