Premium Espanhóis pró-armas querem destituir polícia encarregado "do cumprimento da lei"

Associação Nacional de Armas de Espanha tem alimentado pressão junto de deputados e eurodeputados portugueses para evitar alterações à atual lei das armas. Temem que Espanha copie legislação portuguesa.

A Associação Nacional de Armas de Espanha (Anarma) admitiu nesta sexta-feira que espera que os utilizadores portugueses de armas legais consigam a destituição do superintendente da PSP, Pedro Moura, "encarregado do cumprimento da lei em matéria de armas", em resposta a questões colocadas pelo DN. Esta associação pró-armas tem alimentado a pressão junto de deputados e eurodeputados portugueses para evitar alterações à atual lei das armas, como avançou o DN.

O presidente da Anarma, Javier Arnaiz Larson, acusa o departamento de armas e munições da PSP, dirigido por aquele superintendente, de estar a "redigir" a "transposição mais liberticida contra os interesses dos utilizadores legais de arma da Europa", uma vez que "o poder político carece de conhecimento sobre esta matéria complexa", instigando por isso os cidadãos portugueses a pedirem a demissão ou exoneração de Pedro Moura.

"Não atacamos o Sr. Pedro Moura, não há nenhum ataque ad hominem", defende-se Javier Arnaiz. "Encorajamos os utilizadores portugueses de armas legais a solicitarem a destituição do superintendente da PSP encarregado do cumprimento da lei em matéria de armas, que é o Sr. Pedro Moura", escreve o presidente da Anarma na resposta escrita ao DN. Contactada por este jornal, a PSP não respondeu às questões colocadas a tempo da publicação deste texto.

Também nessas respostas, a Anarma acusa a Guardia Civil espanhola de estar "presumivelmente a aconselhar" a PSP sobre a transposição da diretiva europeia, sem "que ninguém se queixe dessa intromissão institucional", remetendo o DN para o programa de um seminário internacional organizado pela PSP e pelo Clube Português de Monteiros - Associação Nacional de Caça Maior (CPM), realizado em 19 de maio passado, sobre "As armas, a caça e o tiro: a lei portuguesa e as diretivas comunitárias".

Nesse seminário, participou como convidado o tenente-coronel Eugenio Trillo, da Guardia Civil, para falar sobre "a situação em Espanha", no âmbito de um painel dedicado à "Europa e as Armas de Fogo", onde interveio também o eurodeputado do CDS, Nuno Melo. E Javier Arnaiz Larson questiona o que faz a Guardia Civil em Portugal, omitindo o facto de nesse seminário internacional ter participado também Fabio Marini, da Direção-Geral da Migração e Assuntos Internos da Comissão Europeia.

A participação do responsável da força de Intervenção Central de Armas e Explosivos espanhola preocupa os militantes pró-armas. "Os dois países têm sempre uma grande afinidade cultural, para além de outros laços, sendo habitual que um seja referência para o outro em diferentes assuntos, pelo que é mais do que previsível que as autoridades espanholas coloquem o modelo português, que seja implementado por fim, como transposição a imitar em Espanha", aponta o presidente da Anarma ao DN.

Questionado sobre se a associação tem algum interesse em manter a lei como está, Arnaiz Larson defende ao DN que "o único interesse" que a Anarma tem "é que se preservem os direitos dos utilizadores legais de armas em todo o mundo", mantendo por isso "reuniões com associações de outros países" para a "luta contra um movimento antiarmas que também é global". "A Anarma é um movimento cidadão de base, grassroot puro, que numa Europa sem fronteiras é normal que interatue com outros cidadãos que partilham inquietudes e preocupações pelos seus direitos e liberdades."

Os espanhóis esperam que a semente seja lançada: "Talvez este abuso sobre os cidadãos portugueses impulsione a criação de uma organização própria, o que será sem dúvida alguma uma boa notícia", anseia o presidente da Anarma, que a dado passo renova o aplauso ao eurodeputado do CDS que votou desalinhado.

Nuno Melo esclareceu ao DN que interveio contra a proposta inicial da Comissão Europeia, que no seu entender era muito proibicionista. Na votação final do texto do Parlamento Europeu, com muitas alterações que o próprio Melo apresentou, votou a favor. "No fundo, estou a votar a favor das minhas propostas", apontou.

Mais e-mails para deputados portugueses

Às caixas de correio dos deputados portugueses continuam a chegar e-mails a pressionar os representantes a votarem contra alterações à lei das armas, que o governo ainda está a preparar e que fará chegar previsivelmente em setembro à Assembleia da República.

Depois da primeira notícia, os deputados receberam mais dois, igualmente acompanhados de imagens de grafismo e conteúdo duvidoso. Num deles, o remetente nega que haja um "ataque ad hominem" a Pedro Moura e insiste-se na comparação do superintendente da PSP ao antigo chefe da polícia nazi, ressalvando-se que Himmler foi eleito para o Parlamento e Pedro Moura nunca o foi.

A ideologia é clara, nestes textos que misturam inglês e um mau português traduzido pela ferramenta de tradução do Google, e que pedem acesso às armas para todos: "Não é apenas o português que está legitimado a lutar contra outro prego no caixão da civilização europeia, a liberdade, a cidadania, um prego dirigido por pessoas que têm escoltas armadas e/ou pistola no cinto."

com Ana Bela Ferreira

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