Hoje, um dia para sermos abertos, atentos e curiosos

Ao cimo das escadarias do Instituto Superior Técnico, na Alameda, há um pequeno museu, daqueles dedicados a uma causa. A deste é a Ciência, daí o nome, Faraday, o físico e químico inglês (1791-1867). De Michael Faraday diz-se que catalisou (para usar um termo da sua área) tudo - inteligência, sentido de trabalho e ética - que o levou a universalmente admirado.

O museu tem um jornal online, o Faraday. O tradicional nepotismo português, pois sou amigo de professores que animam aquele museu, levou a que eu fosse convidado a escrever um artigo. Com raposice, também tão portuguesa, contornei o tema manifestamente inadequado para mim, olha eu, falar de ciência... Então, escrevi sobre Fritz Haber. Uma obsessão minha.

Amanhã, o meu barbeiro irá saudar-me: "Está bom?" E eu: "Conhece o Fritz Haber?" Por estes dias, quando ouço Ferro Rodrigues a trazer confusão ideológica para uma coisa simples, a beleza do 25 de Abril, apetece-me sempre escrever uma crónica sobre Fritz Haber. E quando ouço aqueles debatedores de bola com o cérebro enrolado em camisolas, abano a cabeça: "Lembrem-se do Fritz Haber..." Não, não jogou no Borussia Dortmund.

Então, no Faraday, o jornal do museu do Técnico que tem a poesia de expor uma campânula de grafonola ao lado de um dínamo de Gramme, sugeri que se dedicasse uma das suas sete salas para mostrar algum hipotético defeito de Michael Faraday. E como eu não sabia de nenhum, escrevi sobre, vocês já adivinharam, Fritz Haber. O maior exemplo de como o mundo é complexo e os homens são contraditórios.

Como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, uma vez médico, outra vez monstro, separados por uma poção que se repete em alterná-los no mesmo corpo. Olhar o outro como trincheira irredutível da Guerra 14-18 leva a certezas que são uma terra de ninguém. Ninguém mais do que Fritz Haber, químico (1868-1934), santo e monstro, carregou destinos tão opostos.

Judeu alemão, Haber praticou a sua ciência num momento crucial para os homens. Depois do virar para o séc. XX, a demografia mundial anunciou um pesadelo: em breve o planeta não podia alimentar toda a gente. O Chile, o maior produtor mundial, tinha nitrato de sódio para fazer fertilizantes, mas numa capacidade ínfima para resolver o maior pesadelo da Humanidade até então. Em 1909, no seu laboratório, Fritz Haber descobriu a fórmula de capturar nitrogénio e hidrogénio da atmosfera para os transformar em amoníaco. O fertilizante sintético tornava o pão inesgotável.

Por alguma razão entre as vítimas da guerra estão sempre os prémios Nobel de Química. A química é sulfurosa e não incita a parabéns em tempos de horror. E, de facto, em 1916, em 17 e 19 não se atribuiu o Nobel de Química. No entanto, o de 1918 foi para Fritz Haber, o mais merecido de sempre.

Estava o bom do doutor Haber a receber o prémio em Estocolmo e as autoridades militares americanas andavam atrás dele por crimes de guerra. É que se o amoníaco, pelos fertilizantes, alimenta os homens, também os rebenta melhor. Sem o amoníaco artificial, a Alemanha não teria tido indústria de armas para entrar na Grande Guerra.

Nos laboratórios militares alemães, Haber inventou os cilindros de gás clorídrico e aperfeiçoou o gás mostarda, ainda mais letal. Era Fritz Haber, na sua personalidade maléfica de Mr. Hyde. Na segunda batalha de Ypres, 1915, campeão da guerra química, ele organizou a matança de 67 mil soldados adversários.

Fritz Haber ainda em vida foi condenado pelo destino. A pacifista Clara Immerwahr, sua mulher e também química, suicidou-se depois das notícias de Ypres. E a morte dele em 1934 livrou-o de saber que uma sua invenção, o Zyklon A, teve um filhote, o Zyklon B. Fritz Haber, judeu alemão, ajudou a que judeus, entre eles seus familiares, fossem mortos nos campos de concentração nazis.

Como já disse, o meu artigo no jornal do museu do Instituto Superior Técnico foi só porque tenho amigos lá. Mas do que eu gostava mesmo era que um professor da tele-escola me convidasse a uma aula. É tão emocionante e tão útil a sua função... "Posso dizer uma coisa? Quero falar-nos de Fritz Haber...", diria eu aos miúdos que eu não via. Baralhava-me, forçava-me a não dizer nem dialética, mas era um orgulho se eles ficassem com vontade de não ficarem com certezas definitivas.

Digo hoje, porque não há dia tão apropriado como o de hoje para o dizer.

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