O maior desafio para a literatura portuguesa começa hoje no México

O quase desconhecimento das letras portuguesas na América que fala castelhano vai ser contrariado com uma presença maciça na Feira do Livro de Guadalajara. E os portugueses esforçam-se, pelo menos a falar portunhol.

Portugal como país convidado da Feira Internacional do Livro (FIL) não é polémico em Guadalajara, pelo menos como aconteceu com a edição em que Israel foi o protagonista. Há curiosidade em conhecer os escritores e outros artistas portugueses que vão estar a partir de hoje e até dia 2 de dezembro no grande recinto do evento, onde quem entra não pode fugir à presença física maciça da "embaixada portuguesa" logo ao início.

Só escritores serão mais de quatro dezenas, com nomes destacados como António Lobo Antunes ou Lídia Jorge, bem como mais alguns prémios Camões como Germano de Almeida e Mia Couto, ou novas gerações como Afonso Cruz e Gonçalo M. Tavares, entre uma lista bem comprida. Há quem se surpreenda com tantos autores em viagem e questione se Portugal tem atualmente 40 escritores.

As portas da FIL Guadalajara só abrem hoje pelas 11.00, mas a comitiva portuguesa já chegou à cidade mexicana. Liderada pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, e pela comissária da presença nacional, Manuela Júdice, ambas têm andado a abrir outras portas, como a das pré-inaugurações de exposições paralelas para divulgar a cultura portuguesa. Quinta e sexta foram de andança pelos quatro cantos de Guadalajara para visitar com intelectuais e autoridades locais estes espaços paralelos.

Nada que impeça a vida normal da cidade, mesmo que a Feira do Livro seja um dos eventos mais importantes e dos mais queridos para os moradores. E está tudo a trabalhar em função da FIL. Aliás, não terá sido por acaso que logo num primeiro táxi o motorista revela satisfeito que foi contratado para transportar a escolta do primeiro-ministro António Costa na visita que fará nos últimos dias da feira.

Costa virá à tomada de posse do novo presidente da República do México, o senhor Obrador, que, tal como a FIL, também não é esquecido pelos habitantes que aguardam pela abertura da feira, só que pelo lado mau. Nesta quinta-feira, a poucos metros de onde estava a decorrer a visita da imprensa local à exposição dos bordados portugueses - Variações sobre Uma Tradição: Dos Lenços de Amor a Bordados com Poesia -, o governador eleito decidiu marcar posição e fazer um discurso contra algumas medidas que o novo presidente da República já anunciou querer quer pôr em prática.

A praça estava cheia de atuais ilustres governantes do Estado de Jalisco, como a frase no monumento que está no centro da praça indica ao dizer que aquele é o lugar para Jalisco homenagear os "seus filhos esclarecidos". O discurso do governador Enrique Alfaro foi longo, muito maior do que o feito pelo curador da exposição de bordados portugueses, António Ponte, que sem demoras explicou o enlace do amor representado pela tradição destes bordados que as mulheres do norte faziam para os seus enxovais na pré-inauguração da exposição.

A arte dos "pañuelos portugueses" não está ali apenas para mostrar o carácter antropológico do amor, mas fá-lo também através de poemas de Pedro Tamen e de Herberto Helder. Há ainda outra evocação que fica no ar, a dos "bordados pela paz" que as mulheres vítimas e viúvas do narcotráfico também bordam e em muito ao jeito dos portugueses. Uma arte que tem que ver com o que o novo governador do Estado dissera minutos antes, ao discordar de Obrador quando este anunciou desejar amnistiar os narcotraficantes.

O muralista Almada

Na quinta-feira, ainda foi pré-inaugurada mais uma exposição, desta vez com os murais de Almada Negreiros, num paralelo com o grande muralista mexicano, Orozco. O espaço do Palácio Cabanas é nobre e a multidão de convidados percorreu a exposição depois dos discursos oficiais. A diretora da FIL, Marisol Schulz, diz que Almada Negreiros é pouco conhecido fora de Portugal; a curadora da exposição, Mariana Pinto dos Santos, defendeu Almada e explicou que, não se podendo trazer os murais do português, vieram os seus esboços e as tapeçarias feitas em Portalegre; a ministra Graça Fonseca destaca a importância do aspeto político da obra de Almada.

A nova ministra da Cultura não deixa de fazer um aviso aos escritores que se preparam para desembarcar no México: "Cada vez mais a arte tem uma importância política muito grande e espero que os nossos artistas não percam de vista essa intervenção." Cita-se ainda Almada Negreiros: "Ele dizia que quando nasceu já tinham sido feitas todas as palavras para salvar a humanidade. Só faltava salvar a humanidade!"

E bastante razão tem a ministra para estar preocupada com o valor da "embaixada portuguesa" ao México. Basta visitar uma das mais importantes livrarias da cidade para se perceber que os escritores portugueses estão desaparecidos das suas estantes. Só existe à venda uma coletânea do teatro de José Saramago, e no catálogo informatizado surge apenas um livro de José Luís Peixoto - de momento esgotado. De resto, face à meia dúzia de nomes consultados no terminal do computador da livraria, nem mais um único nome de escritor português se descobre.

Parece ser contra este apagamento da literatura portuguesa que a embaixada viaja até ao outro lado do Atlântico e em força. Entre esses escritores, sabe-se que alguns irão reforçar a edição nacional nas livrarias do México com uma centena de traduções que a participação na FIL originou.

Antes da abertura das portas da FIL, a ministra e a comissária, entre outros membros da comitiva, ainda pré-inauguraram na sexta mais uma exposição, a que evoca Ana Hatherly.

A diretora da FIL, Marisol Schulz, está satisfeita com a participação portuguesa. Questionada sobre se foi fácil trabalhar com Portugal, responde que sim: "Houve muitas propostas e o programa português mostra que o país tomou muito a sério a sua presença em Guadalajara."

Faltam umas horas para verificar se é verdade o que Schulz afirma e depois uns dias para ver se a realidade da literatura portuguesa na América Latina começa a alterar-se com esta "embaixada portuguesa". Até porque 99% dos seus membros esforçam-se bastante em se fazerem entender e não há ninguém que não ponha todo o empenho na utilização do seu portunhol mais digno em todas as conversas.

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