Oxitocina: a hormona que mexe com a confiança e as práticas ambientais

A oxitocina, até há pouco tida como uma hormona que circulava no sangue e favorecia as contrações do útero durante o parto e estimulava as glândulas mamárias aquando da amamentação, afinal também é produzida tanto por mulheres como por homens. E, além de circular no sangue, também se encontra no cérebro, influenciando o comportamento social.

Diana Prata tem um laboratório com o seu nome no Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), o Diana Prata's Lab, na área da neurociência biomédica. Ali, juntamente com uma equipa multidisciplinar, estuda o cérebro e a biologia do comportamento social, isto através do estudo da oxitocina e o papel que esta desempenha na forma como nos relacionamos uns com os outros e em sociedade.

Constatou-se, através de vários estudos, que o sistema de oxitocina tem implicações nos processos cognitivos relacionados com a reciprocidade, o altruísmo, a confiança, a comunicação e com a empatia, que tem duas ramificações: a cognitiva, que é a capacidade de perceber a intenção do outro, e a emocional, que é a habilidade de sentir o que o outro está a sentir. A par disso, há ainda a função cognitiva executiva, mais complexa, e que precisa de ser treinada.

Entrevistar Diana Prata é como as cerejas (ou pipocas); é praticamente impossível ficar por um só tema, tal a abrangência da área de estudo da neurocientista. Partindo do objetivo de tentar perceber qual o papel da oxitocina na propensão para ter empatia com problemas ambientais, derivou-se para o desejo de comer doces, salgados e alimentos com elevado teor calórico, até à importância de haver mais mulheres em cargos de liderança. Mas o melhor é ir por etapas.

Desafiada a falar das questões ambientais, Diana Prata acedeu prontamente, até porque é assumidamente uma ambientalista ativista, e ficámos a saber que está a começar a explorar e a integrar a questão ecológica nos seus estudos.

"As pessoas com menor empatia cognitiva poderão ter menos preocupações ambientais, uma vez que não estão focadas em perceber as consequências dos seus atos."

Nos ensaios clínicos que tem em curso, em que é administrada oxitocina nos grupos de estudo, quer começar a entender, ao mesmo tempo em que as pessoas estão a fazer tarefas de empatia e de cooperação, se os indivíduos que têm maior tendência para competir terão menores preocupações ambientais. Tudo indica que sim. "Algumas pessoas poderão ter menos preocupações ambientais, uma vez que não estão focadas em perceber as consequências dos seus atos para os outros. E é mais difícil usar a empatia cognitiva fora do seu círculo interno, favoritismo intragrupal (in-group)", disse. Ou seja, é difícil ter capacidade dedutiva espacial e temporal a longo prazo. E, tendencialmente, é mais fácil exercer a empatia para o presente e para o próximo. Diana Prata espera obter resultados dentro de dois anos, tudo correndo como o previsto.

Uma terapêutica à base de oxitocina para patologias psiquiátricas

A oxitocina, como já referido, está presente tanto no sangue como no cérebro, funcionando como um neurotransmissor. É importante na maternidade, na escolha do parceiro e nas relações de reciprocidade entre indivíduos. Quanto maior a presença de oxitocina, mais reciprocidade haverá. De referir que esta hormona, que pode ser administrada em doses intranasais, como já acontece com as mães a amamentar, pode ser produzida naturalmente através de comportamentos que impliquem afeto, pelo toque, o olhar nos olhos, dançar a pares, estar com a família ou amigos; ou seja, situações sociais prazerosas.

Investigadores da área têm estudado as relações entre humanos manipulando o sistema de oxitocina com doses intranasais, numa tentativa de perceber a influência desta hormona face a dilemas sociais, como a cooperação ou competição. Os cérebros dos indivíduos durante os ensaios clínicos são monitorizados para tentar avaliar o que acontece. O mesmo está a ser desenvolvido com patologias psiquiátricas, nomeadamente a esquizofrenia e o autismo, para compreender se a administração de oxitocina durante longos períodos irá traduzir-se numa melhoria dos sintomas. Nestes casos, os pacientes têm dificuldade em reconhecer as emoções dos outros. Muitas vezes, há até situações de paranoia, quando se atribuem intenções aos outros que não são as corretas.

Há estudos que demonstram que as pessoas a quem foi administrada oxitocina olhavam mais nos olhos das outras, que é uma coisa que os doentes têm mais dificuldade em fazer. Olhar nos olhos, mesmo que intuitivo, ajuda a entender o próximo. Olhamos para saber. Há outras pistas, como a comunicação verbal ou a forma como uma pessoa se move, mas nem sempre essas são tão óbvias para aqueles que sofrem de esquizofrenia ou autismo, ou até mesmo de ansiedade social. Sintomas sociais e associados, como estes mencionados, são bons candidatos para uma terapêutica à base de oxitocina.

"O ser humano ainda não está bem adaptado à realidade, ao ambiente atual. Mentalmente, ainda há resquícios do tempo em que havia mais ameaças e escassez de recursos."

Segundo Diana Prata, há hábitos que hoje temos que não favorecem a produção desta hormona: vive-se menos em comunidade. Ao longo da nossa diferenciação dos outros primatas superiores, há milhões de anos, ocorreram mutações genéticas por seleção natural. Numa altura em que os recursos eram escassos, em que se estava mais sujeito a doenças e ameaças, uma mutação que fosse benéfica para proteger o indivíduo era selecionada e passada para as gerações seguintes. Mas só muito recentemente na história evolutiva é que o homem se começou a sedentarizar. O nomadismo ficou para trás, e começaram a construir-se civilizações, o que ajudou à sobrevivência da espécie. A partir desse momento, as pressões evolutivas começaram a mudar significativamente. Porém, por essa mudança ainda ser muito recente, o ser humano ainda não está bem adaptado à realidade, ao ambiente atual. Mentalmente, ainda há resquícios do tempo em que havia ameaças.

Na verdade, enfatiza a cientista, "continuamos a ter um sistema mais bem preparado para o nomadismo. É por isso que, embora sem necessidade nos tempos atuais, ainda temos o desejo por gulodices, como os salgados, os doces; alimentos com elevado teor calórico. O que fazia sentido quando havia escassez de recursos, porque eram alimentos raros. Nos dias de hoje, tal já não se verifica, mas o desejo por esses alimentos prevalece". Idealmente, uma vez que há menos gasto de energia, as pessoas deviam estar mais propensas a optar por alimentos saudáveis, menos calóricos, realça.

O sentimento de "tribo"

Por outro lado, o sistema de oxitocina está mais adaptado para a convivência com outros - persiste ainda o sentimento de "tribo", e não para a massa de pessoas que não se conhece ou com quem não temos filiação. Há formas de o compensar, através das telecomunicações e redes sociais, mas não é a mesma coisa. O que pode suscitar a tendência para o isolamento. Num cenário em que as pessoas deixassem de ter a oportunidade de olhar um para o outro, comunicando apenas por computador, por exemplo, uma vez que o sistema de oxitocina não está ainda aperfeiçoado para tal, "esta situação poderia pôr em causa o bem-estar da sociedade e, em última instância, até a sobrevivência".

"No leito de morte, é frequente as pessoas dizerem que gostavam de ter passado mais tempo com aqueles que amam."

Para a neurocientista, esse desafio, em termos sociais, está bem presente. Na cultura ocidental, há tendência para querer estar com o outro, mas isso pode ser visto como uma dependência "má"; pessoas autónomas são mais valorizadas. "Não se dá a devida importância à componente social do quotidiano. É fácil de observá-lo nas pessoas que estão no leito de morte. É frequente dizerem que gostavam de ter passado mais tempo com aqueles que amam, ao invés de se terem preocupado tanto com o sucesso e a ambição financeira." Depois, o isolamento é uma grande causa de stress, existe uma grande falha no equilíbrio trabalho-vida, e, por motivos de ambição e competição, os homens são mais propensos a esta situação.

Homens ou mulheres, quem são os mais empáticos?

Homens e mulheres são muito diferentes em vários aspetos, e a presença de oxitocina é um deles. Os homens têm um sistema de oxitocina diferente das mulheres, segundo a cientista, e, talvez por isso, sejam, em média, menos empáticos.

Em ensaios clínicos, quando é pedido a um grupo para adivinhar as emoções/intenções de outros, as mulheres tendem a obter resultados mais elevados. O sistema de oxitocina talvez seja mais hiper-funcional do que nos homens, e isto sem considerar as fases da vida em que as mulheres produzem mais desta hormona, como a gravidez e amamentação. Para Diana Prata, "é um facto adquirido que as mulheres são mais empáticas". O que, na sua opinião, deveria ser um fator preponderante na escolha para cargos políticos, de gestão ou liderança. Em todas as funções que impliquem a gestão de pessoas, a empatia é muito importante. No caso da política, sobretudo, implica uma gestão macro, de outras pessoas que não as pertencentes à equipa. "Talvez fosse de considerar", enfatiza Diana Prata, "submeter os candidatos a cargos de direção a testes psicotécnicos para avaliar a empatia. Sendo que a empatia deveria ser um critério importante de seleção, válido para ambos os sexos. Neste caso, falo tanto da empatia emocional como da cognitiva".

"Muitos dos atos ao longo da vida são difíceis, porque os indivíduos estão a contrapor os seus benefícios pessoais com a empatia emocional que têm pelos outros."

Isto porque, um psicopata, por exemplo, pode ter uma excelente empatia cognitiva e uma má empatia emocional. Pode ser muito bom a prever a intenção do outro, mas não sentir o que o outro sente, agindo apenas para o seu benefício pessoal, numa perspetiva egoísta.

Normalmente, o ser humano tem tendência para o benefício pessoal, mas consegue equilibrá-la com a empatia emocional, sendo que esta última, "que até pode ser vista como uma vulnerabilidade, é o que nos permite viver em sociedade". Por isso, prossegue, é que muitas das decisões que são tomadas ao longo da vida são exigentes, porque os indivíduos estão a contrapor os seus benefícios pessoais com a empatia emocional que têm pelos outros. "Um gestor, um político, tem de ser capaz de dosear estas facetas muito bem."

Não estamos preparados para o stress prolongado

Vivemos num contexto em que o contacto com os outros, nomeadamente com aqueles que nos são próximos, é deficitário; principalmente nas grandes cidades, e quando se está afastado da rede familiar e de amigos. Na sociedade ocidental urbana talvez haja insuficiência de oxitocina em relação ao nosso ótimo, o nível para o qual o nosso corpo e cérebro estão moldados para ter. Face a isso, qualquer comportamento que favoreça a produção de oxitocina é de louvar. Mas com as novas profissões, o ritmo de vida frenético, os indivíduos estão propensos a situações de stress prolongado, crónico, o que faz que o sistema nervoso simpático esteja sempre em estado de alerta. O que é prejudicial, porque este está apenas preparado para reagir rapidamente e em momentos isolados.

Noutro sentido, estão a decorrer estudos relacionados com a definição de grupos, de "tribos". Num cenário de escassez de recursos, de ataque iminente, de necessidade de proteção, em que é preciso ter o sistema de competição ativado, a oxitocina ajuda a criar laços dentro da comunidade, e também a perceber que é necessário haver separação dos outros grupos. "Para proteger a minha tribo posso precisar de agredir a outra, em situação de escassez de recursos. Foram colocadas pessoas, em contexto de jogo, em grupos diferentes, e verificou-se que aqueles a quem tinha sido administrada oxitocina tinham mais tendência para prejudicar o outro grupo, se daí adviesse benefício para a sua tribo. Em contexto de concorrência (ou competição), os indivíduos não se tornaram benevolentes para todos de forma igual; tendencialmente favoreciam o seu grupo", prosseguiu.

"É muito importante para uma tribo perceber quem é que está do nosso lado, e quem é o inimigo."

Reagir face a ameaças

Estes estudos ajudam a definir como é que determinado grupo reagiria face a uma ameaça iminente. É muito importante para uma "tribo" perceber quem é que está do nosso lado, e quem é o "inimigo". Num cenário desses, há competição por recursos, e é preciso escolher quem é que terá acesso a eles. E os escolhidos serão tendencialmente os que fazem parte do in-group, os que partilham a mesma informação genética em maior grau, ou relações de cooperação. O mesmo se aplica aos amigos, aqueles que tiveram manifestações de reciprocidade em ocasiões anteriores. "Mas, em termos evolutivos, não somos bons a 100%, também temos tendência para a retaliação, e isso é altamente benéfico, porque ao optar por colaborar com aqueles com quem nos identificamos mais, mais facilmente conseguiremos sobreviver." Esta é uma estratégia evolutivamente estável, mais conhecida como "olho por olho, dente por dente" (tit-for-tat).

Longe da vista, longe do coração

Voltando à ecologia, a sociedade parece estar a competir, mas sem necessidade. "Vivemos tempos confortáveis, sem escassez de recursos, e, neste contexto, pelo menos nas sociedades ocidentais, faz pouco sentido o sentimento de in-group ou out-group, mas continua a haver essa tendência. Ou seja, o sistema de oxitocina, tão crucial em tempos, continua a ser posto a uso de forma antiga, para propósitos antigos, tal como o nosso paladar por doces." Aliás, segundo Diana Prata, "a falta de preocupação ambiental parece advir da dificuldade em aumentar a abrangência do in-group". Simultaneamente, prejudicamos os outros, no nosso tempo e nas gerações vindouras, por falta de empatia para com quem não se consegue ver nem perspetivar no futuro.

No contexto de comunidade, a consciência dos maus comportamentos ambientais só parece vir ao de cima quando se pensa nos filhos, no seu futuro; porque estão mais próximos. "O ideal seria alargar este conceito de grupo, numa escala espaço-tempo. Hoje em dia, conhecemos todas as tribos, não há que recear os outros." O ser humano é tendencialmente grupista, e isto vem ainda de tempos ancestrais, mas já não há grande necessidade de o colocar em prática. Este sistema de grupismo só deveria ser ativado em situações de conflito ou de uma fatal escassez de recursos. "Neste momento, faria mais sentido tratarmos os outros como dentro do mesmo grupo, desde que cooperantes, e ver o planeta como o nosso grupo. Se entendermos que não há escassez de recursos, tampouco perigos fatais, o conceito de in-group aumenta, e a tendência de grupismo, largamente relacionada com a oxitocina, passaria a ser usada de uma forma muito mais abrangente. O in-group passaria, em último grau, a ser todo o planeta."

"O grande entrave é que se continua a considerar os outros, fora do nosso círculo espacial e temporal, com reduzida empatia."

Na perspetiva da neurocientista, o maior entrave relacionado com a falta de preocupação ambiental é que se continua a considerar os outros, fora do nosso círculo espacial e temporal, com reduzida empatia. "Infelizmente, ainda não estamos bem "cerebralmente" preparados para sentir e pensar "fora" desse círculo. "Vivemos, como há mais de dez mil anos, ainda a pensar, por vezes quase exclusivamente, no presente e nos próximos." Isto porque estas capacidades cognitivas requerem mais esforço, mais gasto de energia. Deitar um papel para o chão, comer o que nos apetece, por impulso, ou insultar quem está ao nosso lado é fácil, não implica cognição executiva", assevera.

Felizmente, o cérebro tem vindo a ganhar capacidades cognitivas executivas, divididas em três funções: controlo inibitório (não reagir por impulso), memória de trabalho (manter uma regra na cabeça) e flexibilidade cognitiva (encontrar novas soluções para problemas e a capacidade de multitarefa). Para ter comportamentos mais ecológicos é preciso exercer estas três componentes. "O que já ficou provado é que aqueles que as exercem mais facilmente têm vidas mais saudáveis, mais bem-estar geral, e mais sucesso na vida. Isto revelou-se em testes com crianças, que foram sendo avaliadas até à vida adulta." As pessoas mais dotadas nas funções cognitivas executivas serão aquelas que melhor conseguirão lidar com os problemas ambientais, ou seja, que melhor conseguirão pensar numa realidade que ainda não é a imediata e aparente. "O degelo não está à nossa frente, tampouco o mar de plástico está nas nossas casas, e por isso não sentimos necessidade de agir no imediato", adianta.

A solução para uma maior consciência ecológica

Todavia, trata-se de uma capacidade mais sofisticada, que requer mais desgaste, e que precisa de ser treinada, isto para que passe para a área do cérebro mais remota, mais antiga, que é aquela que nos leva a agir por impulso. "A solução para uma maior consciência ecológica passa pela cultura. O ideal é que as boas práticas passem a ser automáticas, sem que se tenha de pensar nas regras. É necessário começar pela escola, pelas crianças, para que a consciência ecológica, que é adquirida (e não genética), passe a estar "impressa" no cérebro, ou seja, mais fácil de usar", afirma. Evolutivamente, já estamos equipados, com muita plasticidade cerebral, para o fazer, mas é preciso haver pressão cultural para desenvolver estas capacidades, conclui Diana Prata.

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