Moro ameaçou sair do governo mas fica após recuo de Bolsonaro

Presidente da República concordou em manter, por agora, Maurício Valeixo, diretor geral da polícia federal e homem de confiança do ministro, que quis demitir ao longo desta quinta-feira. E assegurou, até ver, permanência do ex-juiz

Sergio Moro chegou a pedir a demissão do governo de Jair Bolsonaro ao longo desta quinta-feira depois de ser informado que o presidente da República tinha intenção de mudar o diretor-geral da polícia federal Maurício Valeixo, homem da sua estrita confiança. Como Bolsonaro recuou, o ministro da justiça acabou por se manter no cargo.

Pelo menos, por agora, noticiaram o jornal Valor Económico e a TV Globo. Já a revista Veja avança que Bolsonaro já tem nome para o caso de Moro sair do governo: é Jorge Oliveira, amigo de longa data do presidente, e actual ministro-chefe da secretaria-geral da presidência da República.

Ainda segundo a imprensa brasileira, conselheiros do Palácio do Planalto, no caso a ala militar, tentam-no demover a ele da intenção de trocar o comando da polícia para não melindrar Moro.

Valeixo, que teria um cargo diplomático em Portugal à sua espera, já vem sendo questionado por Bolsonaro desde meados do ano passado. O presidente não tem gostado da ação do diretor da polícia em casos judiciais que lhe dizem respeito, nomeadamente na investigação ao seu filho, senador Flávio Bolsonaro, acusado de associação criminosa e lavagem de dinheiro num esquema conhecido na gíria da política brasileira por "rachadinha".

Noutro caso de polícia em que Bolsonaro não é investigado mas vem sendo citado, o da execução da vereadora Marielle Franco, a ação de Valeixo também é mal vista pelo Palácio do Planalto.

Valeixo, 59 anos, é amigo próximo de Moro. Foi escolhido em 2018 pelo próprio ministro para ocupar o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, no lugar de Rogério Galloro.

Ex-diretor de Inteligência da Polícia Federal, Valeixo foi responsável por uma área fundamental na gestão de Moro, a de Combate ao Crime Organizado.

Além disso, na Lava-Jato atuou como superintendente da Polícia Federal no Paraná e coordenou a prisão do antigo presidente Lula da Silva. Foi também na sua gestão que foi fechada a delação de Antonio Palocci, antigo ministro da economia de Lula e da casa civil de Dilma Rousseff, em Curitiba.

Por outro lado, nos últimos dias o presidente vem tentando reaproximar-se do chamado "centrão" do Congresso Nacional - e nesse "centrão", o conjunto de partidos sem ideologia definida que se move assumidamente por cargos e não por projetos, o ministro da justiça e da segurança é mal visto desde que a Operação Lava-Jato, que ele liderou, condenou deputados e senadores dessa área política.

Alberto Fraga, ex-deputado ligado a Bolsonaro, já preparara terreno ao criticar Moro em fevereiro deste ano, assegurando que desempenharia melhor o cargo de ministro da segurança do que o ex-juiz, a quem caberia apenas nesse caso o ministério da justiça.

Moro é considerado "super ministro" por juntar justiça e segurança numa só pasta e pela popularidade que obteve enquanto juiz do escãndalo do Petrolão. Entre os políticos que Moro condenou, Lula da Silva, que liderava as sondagens para a eleição presidencial em que Bolsonaro acabaria por se eleger, é o mais relevante.

Na semana passada, Bolsonaro demitiu outro ministro popular, Luiz Henrique Mandetta, o titular da saúde, que estava em destaque no combate ao coronavírus.

Ao longo do dia, bolsonaristas e ex-bolsonaristas manifestaram-se nas redes sociais.

"Quero gritar aos quatro ventos em 2022: Moro presidente! E me redimir pelo erro que cometi em 2018 ao acreditar num projeto de país que se transformou em estelionato eleitoral. "Cadê" o combate à corrupção? "Cadê" a economia liberal? "Cadê" a democracia plena? Bolsonaro enterrou tudo", escreveu a deputada Joice Hasselmann, que um dia chegou a ser chamada de "Bolsonaro de saias", no Twitter.

"O governo prometido por Bolsonaro acabou. O plano liberal do [ministro da economia Paulo] Guedes e o plano de combate à corrupção de Moro foram derrotados pela pandemia, 'rachadinhas' e pelo casamento com o 'centrão'. Resta a ignorância boçal do [ministro da educação Abraham Weintraub] e do Ernesto [Araújo, ministro das relações exteriores]. E alguns generais tentando evitar o desastre", opinou por sua vez o senador Alessandro Vieira.

A ainda bolsonarista deputada Carla Zambelli, por sua vez, chamou as notícias da demissão de "falácia".

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