Costa Rica. Uma letra no guardanapo

Mala de viagem (47). Um retrato muito pessoal da Costa Rica.

Na Costa Rica, a "Panamericana" tem mais de seis centenas de quilómetros, de norte a sul, na principal estrada de um país com expressivas cadeias de montanhas vulcânicas. Porém, tal como em outros países, apenas percorri um troço, quando lá estive. A "Panamericana" atinge a cordilheira central da Costa Rica a uma altitude de mais de 3000 metros, com vistas de tirar o fôlego. Afinal, não é só a costa que é rica, o miolo do território também. Este é um país conhecido por praias de sonho e pela beleza e pela diversidade das reservas, ou seja, um pedacinho do paraíso para quem gostaria de fazer uma pausa antes de se aventurar na América do Sul. Perto da longa estrada, atravessando os parques naturais, existem extensos manguezais que, por vezes, formam uma rede tão estreita que parece difícil progredir. Este ecossistema costeiro de transição entre os biomas terrestre e marinho existe em zonas húmidas características de regiões tropicais e subtropicais, associadas às margens de baías, enseadas, barras, desembocaduras de rios, lagoas e reentrâncias costeiras, onde há encontro de águas de rios com a do mar, ou diretamente expostos à linha da costa, sujeitas ao regime das marés e dominadas por espécies vegetais típicas, às quais se relacionam outros componentes vegetais e animais. Se a natureza é rica, o produto do homem também. O que mais me impressionou nesta passagem pela Costa Rica foi termos parado em pequenas aldeias, onde a música e a dança estavam presentes, através de diferentes géneros (soca, salsa, merengue, entre outros). A costa caribenha mostra uma forte influência africana nos ritmos de percussão complexos. Por exemplo, nas últimas décadas, desenvolveu-se um género latino popular, chiqui-chiqui, uma mistura de merengue, cumbia e outros ritmos latinos com influências afro-pop. Dançavam, enquanto se viam passar trabalhadores agrícolas de café e açúcar. Entrámos num pequeno estabelecimento poucos quilómetros depois de San José, onde um grupo de quatro tocadores ensaiava. Aquela música trazia-me palavras que até podiam complementar a cena, se cantadas na métrica da melodia. Depois de alguns minutos, deixei escrita uma estrofe num guardanapo e entreguei a um dos tocadores - "A ver si te gusta, amigo, y canta", disse-lhe eu. - "Este país es hermoso / Pues con un rico café / Nace el canto armonioso / Que encanta a un portugués". Depois de um café costarriquenho - há quem diga que é o melhor do mundo -, deixei os meus companheiros de cantiga e voltámos à "Carretera Interamericana", tal como é conhecida no território hispânico. A cantiga, essa, talvez tenha sido continuada pelo punho de um deles, revelando o seu último segredo.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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