Capoulas Santos não desembarcou de jardineiras em Luanda. É pena

A Europa reuniu-se em Salzburgo e foi menos melodioso do que se esperava da cidade de Mozart. O polaco Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, arrumou com as pretensões de Theresa May continuar a bailar na UE, depois do brexit. "Não vão funcionar", disse ele das propostas britânicas para a futura cooperação económica.

Porém, não foram essas palavras, ditas no debate e também perante jornalistas, que incomodaram Londres. A modernidade tecnológica pode chocar mais do que uma discussão acalorada. Acontece que horas depois da cimeira europeia, Tusk publicou no Instagram uma foto e duas curtas frases. A foto era do citado cavalheiro polaco estendendo uma bandeja de bolinhos à esgalgada inglesa, enlevada com a gentileza.

As duas frases vieram estragar tudo. Dizia a primeira, dele para ela, oferecendo: "Um bolinho, talvez?" E a segunda, sempre dele para ela: "Lamento, mas não há bolo com cerejas [cherries]"... As frases, mais do que o seu sentido literal, remetiam para dois momentos do brexit.

O primeiro, aquele com que a Europa alertava a parceira de que a Grã-Bretanha não podia, com o brexit, ter sol na eira e chuva no nabal. Ou, porque a frase não foi dita por um português mas por um qualquer eurocrata, os britânicos não podiam "comer o bolo e continuar a tê-lo." Isto é, quiseram ir-se embora União Europeia, então, perderam as vantagens da Europa unida... E a segunda frase insistia na mesma tecla: a Grã-Bretanha não podia fazer "cherry-picking", só debicar as coisas boas, sem partilhar as más.

Londres não gostou. Como diria um dos génios dos Monty Python: pode fazer-se humor com tudo, menos quando estamos sem plano B para nos desenrascarmos do brexit... Deputados e embaixadores enxofraram-se e alguém do governo britânico lembrou que Theresa May tem diabetes e é de mau gosto brincar com ela e bolos. Ficou a dúvida: além do brexit, a Grã-Bretanha também quer sair do humor britânico?

A questão é, como eu dizia há pouco, da tecnologia moderna. Agora tudo nos chega logo e desse logo faz-se um eco tremendo. António Costa chegou a Luanda de madrugada. Tinha aumentos de linha de crédito para revelar e, muito mais do que isso, lembrar que Portugal tem memória científica guardada na Estação Agronómica, em Oeiras, sobre a agricultura angolana. E na comitiva ia Capoulas Santos, ministro da Agricultura, uma especialidade rara nestas visitas, mais costumeiras a levar banqueiros.

Quem sabe o que foram as escolas agrícolas do Huambo e da Huíla reconhece a importância da Europa - olha, voltamos à União Europeia - em partilhar com África a necessidade de fazer deste último continente o celeiro que pode ser, em vez de exportar bocas famintas. O interesse dos dois continentes é comum e, naquela visita de Portugal a Angola juntavam-se dois possíveis protagonistas de uma solução maior. África está invadida por um crime económico, social e cultural: o land grabbing. E Angola e Portugal podem combatê-lo.

Land grabbing são centenas de milhões de hectares reservados à monocultura, sobretudo de óleo de palma e biocombustíveis, pertencendo a companhias internacionais. As culturas tradicionais - mandioca, milho... - são proibidas aos camponeses, empurrados para proletários de roças, onde o emprego só o sabem dia a dia se o têm. O land grabbing é um desastre humano histórico em África e uma das causas principais dos barcos de refugiados no Mediterrâneo. Está espalhado por quase todos os países, com exceção dos maioritariamente desérticos, por natureza sem capacidade nem para esse crime. Angola é dos poucos países que escaparam, até agora, ao land grabbing, e tem enormes potencialidades agrícolas. É dizer do interesse que haveria em sabermos desse pormenor - um ministro da Agricultura português em África...

E soubemos: na comitiva de António Costa para a visita a Angola ia também Luís Capoulas Santos, ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural. Isso vinha no programa oficial da visita e foi noticiado pelos jornais. E quase nada mais foi dito pelos jornais. Não os culpem pela preguiça, apesar de o ministro, como aflorei acima, ter levado propostas, as ter discutido com os homólogos angolanos e, quem sabe, terem saído bons projetos. Seja. Mas a culpa da falta de informação foi do ministro. Não conhece a tecnologia moderna de informação.

Tivesse Capoulas Santos desembarcado de jardineiras em Luanda, haveria foto bombástica em Lisboa e indignação nas redes sociais portuguesas. Acontecido isso, ele diria: "Semeei a polémica e colhi a vossa atenção, agora posso falar-vos do que foi fazer o ministro da Agricultura a Angola."

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