Açores em seca? Sim, e já há planos para poupar água

O clima está a mudar também nos Açores. Alertam os especialistas que períodos de seca são para durar, e as temperaturas vão subir - o que poderá causar alterações na paisagem. E é preciso tomar medidas para que estas não deixem de ser as ilhas verdes.

Açores em seca? Sim, por incrível que pareça, é verdade. O arquipélago viveu neste verão uma "seca meteorológica" que provocou elevados prejuízos. O que pode ser bom para o turismo crescente, mas foi péssimo para o setor agrícola. Ao contrário da habitual "bipolaridade" meteorológica, registou-se uma diminuição muito elevada da precipitação nas ilhas, sobretudo na Terceira, que esteve em seca extrema, e em São Miguel, que esteve em seca severa."

"Esta situação não é normal", diz Diamantino Henriques, delegado regional do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA). "Nós sabemos que estas anormalidades acontecem, apenas não sabemos quando é que vão ocorrer. Analisando os registos de 40 anos verificamos que metade destas secas ocorreu nos últimos dez anos. Isto significa um aumento da frequência destes episódios de seca. Poderá começar a haver uma tendência consistente num cenário de alteração climática."

E o que é que isso quer dizer? Que haverá um aumento de temperatura nos Açores, ao longo dos próximos anos, mantendo elevados índices de humidade. "Vamos ter temperaturas mais elevadas que, pontualmente, vão ultrapassar os 30º C. Esta situação atualmente é rara", prevê o meteorologista, acrescentando que vai continuar a haver uma "variabilidade" no clima açoriano. "Não podemos pensar que vamos ter os Açores com menos nuvens. Vamos continuar a ter aguaceiros de um lado e menos aguaceiros de outro lado. Podemos é ter períodos de menos precipitação e ficarmos com estes problemas de água."

Lagoas, mas agora artificiais

É preciso, então, pensar em formas de armazenar a água, mesmo nos Açores. Porque no futuro a falta de água vai ser um problema. "Precisamos de nos adaptar a este novo clima, que será mais seco no verão. Vamos ter menos precipitação e vamos ter de saber lidar com isto. A água potável é um recurso escasso e as pessoas precisam de saber que é um bem valioso, que precisa de ser bem gerido. Não se pode desperdiçar a água, em plena seca severa na ilha de São Miguel, para coisas supérfluas como escorregas de água para brincar. Este tipo de atividades lúdicas pode ser muito engraçado quando existe água em fartura. É preciso bom senso na utilização da água."

Neste sentido, a Secretaria Regional da Agricultura está a desenvolver projeto para criar bacias de retenção de águas em diversas ilhas, com o objetivo de melhorar o aproveitamento da água durante o inverno. O objetivo será desviar a água para estas lagoas artificiais, durante os períodos de maior precipitação, e garantir o seu desvio das nascentes, evitando que seja desperdiçada nas ribeiras. Este modelo permite garantir água para as explorações agrícolas durante os meses de verão, minimizando os efeitos da seca.

O secretário regional da Agricultura, João Ponte, garante que "já se está a trabalhar no aumento do complexo de lagoas em São Miguel, Terceira, Faial e Pico". "Queremos depositar a água em lagoas para durante o período de verão abastecer a agricultura. Já estamos a desenvolver um trabalho com associações agrícolas, municípios e especialistas em recursos hídricos." E os produtores "já estão sensibilizados" para a necessidade de promover um melhor aproveitamento da água. "Os agricultores já sabem que é difícil ter acesso à água. Já sabem que não pode haver desperdício de água. Este ano contribuiu para sensibilizar o bom uso da água na agricultura", diz o responsável.

Os maiores problemas estão centrados em Santa Maria, Graciosa e Pico. A ilha de São Miguel é afetada na produção de milho forrageiro.

Alertas esquecidos

O presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, que representa os agricultores, que por aqui são sobretudo criadores de gado ou quem produz alimentação para ele, diz que fez diversos alertas ao longo dos últimos anos. "É preciso haver preocupações transversais a todos os setores, aos produtores agrícolas e à população. Em São Miguel faz-se pouca armazenagem de água e, nestes momentos difíceis, isso nota-se de forma significativa."

O dirigente recomenda que o próximo quadro comunitário de apoio disponibilize verbas para a construção das tais lagoas e dos reservatórios de águas. "Em todas as ilhas e com maior dimensão para o armazenamento das águas. Cada agricultor também deve apostar no armazenamento de água, com benefícios comunitários, permitindo aliviar a pressão sobre as nascentes."

Algo que se julgava nunca ouvir nos Açores, os agricultores estão preocupados com a água, e consideram que "o aproveitamento da água precisa de ser uma necessidade de quem governa a região", pedindo mesmo que se faça "reforço do abastecimento de água através dos bombeiros em algumas zonas". Aliás, depois das recentes tempestades e do início das chuvadas no inverno, é bom que não se esqueça o problema, pede Jorge Rita. "Se para o ano tivermos um ano bom vamos esquecer que este foi um ano dramático. É preciso prevenir situações que podem ser, cada vez mais, piores", frisa.

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