Tempos pós-covid-19. Oportunidades para a engenharia e para o país

O DN pediu ao bastonário dos engenheiros um texto que explicasse como a pandemia está a mudar o setor. E Carlos Mineiro Aires prioriza a necessidade de se avançar já com o Plano Nacional de Investimentos 2030.

Poderá parecer uma afirmação dura, até ferida de insensibilidade, mas é uma realidade inquestionável: a solução para a crise económica originada por esta pandemia não passa, desta vez, pela emigração. Na verdade, muitos dos que o fizeram no passado e que tinham conseguido alguma estabilidade profissional e financeira nos países de destino viram-se forçados a regressar, pois o âmbito global desta inesperada situação não poupou países nem mercados.

Ainda temos muito fresco na memória o que se passou em 2009 e que se arrastou até há pouco tempo, quando os portugueses viram a empregabilidade decair, os salários reduzidos, os laços laborais fragilizados e as oportunidades afetadas, gerando uma crise social e um cisma intergeracional que afetou famílias e desestruturou princípios solidários característicos da nossa cultura e tradição.

Sobretudo os jovens, mas não só, tiveram de pegar nas malas e partir, o que é grave num país que hoje debate-se com falta de mão-de-obra e com um grave problema demográfico caracterizado pelo envelhecimento da população.

Neste quadro, os engenheiros foram particularmente afetados, sobretudo na área da construção civil, já que os investimentos decaíram para níveis nunca vistos, por falta de capacidade do Estado para financiar as obras públicas, sobretudo na área das infraestruturas.

Desta vez, em poucos dias, a economia portuguesa foi abalada por um tsunami, sobretudo por estar dependente de um setor tão exposto como é o turismo e atividades conexas.

Tal não é novidade. Os economistas e os próprios decisores políticos estão cientes desta frágil exposição, porquanto os investimentos criadores de bens transacionáveis não têm tido o crescimento desejável e ainda são incapazes de assegurar uma base sólida para a nossa economia.

Contudo, como agora ficou patente, a engenharia e o conhecimento técnico vão muito mais além desta especialidade e o país reinventou-se.
Do pânico de não dispormos de ventiladores, máscaras e viseiras, que teimavam em não chegar, nasceu o engenho e passámos a fabricantes e exportadores. E é na adaptabilidade e na resiliência das empresas e dos portugueses que temos de nos focar e acreditar que da adversidade podem nascer oportunidades.

Portugal, aparentemente um país pobre, é rico em muitos aspetos.
Desde logo na qualidade da educação superior, que forma quadros altamente qualificados, e por isso cobiçados, mas também na excelência de centros de investigação e laboratórios, nas magníficas infraestruturas que dispõe (rodovia, telecomunicações que facilitam a interconectividade, o Serviço Nacional de Saúde, o sol, o vento, recursos naturais importantes e imprescindíveis para as indústrias de desenvolvimento tecnológico e, embora mais limitada, até possui uma significativa indústria agroalimentar, o que, no seu conjunto, nos permite ambicionar sermos autossuficientes em muitas áreas.

Com a intervenção incontornável da engenharia, o pós-covid-19 impõe-nos que sejamos mais ambiciosos e repensemos o futuro.

Já percebemos que o projeto europeu é demasiado frágil para dar respostas federativas, porque na verdade a União Europeia jamais terá esse desígnio, e ainda bem, e ao mínimo solavanco ficam expostas as fraturas norte-sul e este-oeste, com argumentações fraturantes e contrárias aos princípios de coesão e entreajuda que foram sonhados pelos que contribuíram para a sua criação.

Daí que a próxima Presidência Portuguesa da União Europeia, já em 2021, poderá ser particularmente importante para o futuro dos países menos ricos da União e para a efetiva implementação de medidas que permitam salvar as economias dos Estados membros, mantendo empresas e salvaguardando empregos, num esforço conjunto para garantir a estabilidade social da Europa. Neste caso, felizmente ninguém é o culpado da inesperada crise, ao contrário da precedente.

Na esperança de que o bom senso prevaleça e que sejam encontradas formas de entreajuda, teremos uma oportunidade única para reinventar o nosso país, que já é uma referência em muitas áreas.

O Plano Nacional de Investimentos (PNI) 2030 tem de arrancar quanto antes, modernizando a nossa obsoleta e pouco competitiva ferrovia, fator de desunião do território, com um calendário que permita às empresas conhecer atempadamente as oportunidades, para que se preparem.
É, assim, crucial que haja investimento, sobretudo num setor que significa cerca de 17% do produto interno bruto e cuja fileira emprega perto de 600 mil pessoas, sendo certo que o PNI 2030 não se esgota na construção.

A par dos conselhos que Michael Porter nos deu há 26 anos, hoje há outros caminhos a seguir, pois a qualidade do conhecimento das gerações permite-nos ambicionar alcançar soluções estáveis, sólidas e perenes.
Temos de apostar na reindustrialização, um chavão inconsequente mas que tem de ser um desiderato, para recriar e dar solidez à nossa economia.
Uma reconversão industrial baseada no conhecimento e voltada para os desafios do futuro, onde as empresas, em parceria com as universidades, os politécnicos e outros centros de investigação, terão de procurar fazer diferente e melhor nesta fase de transição digital.

A transição digital e o apoio à modernização das empresas terão de ser prioridades, pois a capacidade de inovação e de criação de riqueza surgirão naturalmente, uma vez que os jovens criativos, engenheiros e não só, têm capacidade para o fazer.

Temos energia, pois fomos bafejados pelo sol e pelo vento, faltando apenas resolver a questão do seu armazenamento em escala adequada, juntamente com significativos, embora geograficamente desequilibrados, recursos hídricos e recursos minerais, caso do lítio, que tem tido uma incompreensível oposição à sua extração, e, ainda, o cobalto.

Em simultâneo, o cluster do hidrogénio trará novas soluções para a mobilidade e para outros fins.

A circularidade da economia, com o reaproveitamento de recursos finitos, pondo cobro à sua exploração exaustiva, focada nas eficiências material, hídrica e energética, é o caminho a prosseguir.

A pandemia também veio exigir a adaptação das empresas, através da rápida adoção e adaptação ao teletrabalho e às plataformas de teleconferência, soluções amigas do ambiente e das famílias que reduzem fortemente os movimentos pendulares nas áreas metropolitanas e as deslocações aéreas.

A ciência, a investigação e a engenharia, com a sua capacidade de invenção e resiliência, farão o resto.

Gerir o território, mitigando as suas assimetrias, e definir estratégias para um Portugal novo com uma economia sólida e influente são desafios para a classe política, de quem muito se espera.

Ao mesmo tempo, a retoma da confiança e podermos voltar a viver como antes, que é certamente o desejo de todos.

Bastonário da Ordem dos Engenheiros

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