A segurança europeia


O general De Gaulle nunca considerou uma política desejável ter o Reino Unido no espaço europeu, e até consta que alguma vez Churchill terá desabafado que um dos seus maiores embaraços durante a guerra teria sido a Cruz de Lorena.

Acontece que a saída do Reino Unido da União Europeia não se limita a multiplicar as questões económicas e humanas, também, como retoma da visão da Cruz de Lorena, marca uma nova forma da desejável segurança europeia. Foi rapidamente anunciada a necessidade de um exército europeu, no mesmo período em que os EUA exigem revisão e cumprimento das participações financeiras na NATO. A ocasião em que a ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, tendo presente, nessa altura, as correntes alemãs sobre a evolução da União, tornou pública a sua convicção de sugerir criar um exército europeu. O próprio último presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, assumiu igual atitude, na qual usou alguns comentários públicos que pareceram acompanhar a convicção da ministra de que "os seus netos conhecerão os Estados Unidos da Europa", um facto que recebeu uma crítica, segura profissionalmente, do general Pinto Ramalho.

Acontece, porém, que uma série de comentadores, em geral coordenados por Bertrand Badie e Dominique Vidal, dedicaram o último número de La Découvert (2020) ao tema interrogativo sobre se vivemos - "O fim da liderança americana". Saber o processo dessa liderança não é fácil, porque o populismo nacionalmente apoiado no simples, mas animador, princípio de America first é com frequência imprevisível. Mas, sem deixar de ter presente essa inovadora metodologia, é certo que o presidente da França, Emmanuel Macron, na Escola de Guerra, discursou seriamente sobre a estratégia de defesa francesa, em termos de poderem surpreender os parceiros europeus as palavras proferidas, porque não mencionou expressamente os EUA nem a saída de um parceiro europeu, o Reino Unido, mas tornando clara a "fidelidade às obrigações na OTAN", o que mais sublinhou foi a necessidade de reforçar a defesa da Europa, definida como "um pilar europeu no seio da OTAN".

O importante, por isso, foi a oportunidade e forma do comentário demorado e profundo que fez sobre a "force de frapp française", em relação à qual manifestou a oportunidade, em vista do facto do regime que, nos últimos anos, foi dominante dos chamados acordos soviético-americanos: apoia que a Europa seja ativa na pretensão dos Estados europeus centrais e do norte. Parece que pela primeira vez considerou oportuno "um diálogo estratégico" com os parceiros da França, único titular atómico da União Europeia.

Não parece que esteja absolutamente tranquilo quanto à importância do poder nuclear, mas não é possível evitar acrescentar que o número de potências nucleares ameaça que qualquer "imprudência" leviana do uso ou simples posse dessas armas transforme o globo numa arena mais destruidora do que todas as ameaças que avultam os riscos da Terra. O pensamento presidencial também por isso exibe prudência, sem, segundo afirmou, reforçar apenas a segurança da Europa pela existência do armamento com uma dimensão e fundamentos franceses mas autenticamente europeus.

É claro que não toca na questão de saber se a solidariedade para com os aliados europeus, aos quais admite a participação nos exercícios nucleares sem que discuta, publicamente, a comparticipação, não adiantando para já sobre qualquer risco na relação da segurança europeia com a função e história da OTAN, ou com a eventual necessidade de a União ter lugar próprio no diálogo e nas práticas entre grandes potências e emergentes.

Alguma relação parece haver entre as públicas inquietações da ministra Ursula von der Leyen e os comentários do antigo presidente Jean-Claude Juncker, não apenas para os seus dias mas também para os dias dos netos. O silêncio volta a ser um "diálogo" exigente, e a ordem da ONU um texto a exigir renovada leitura. E sobretudo que o espírito da União seja um dever ético-político sem processamento constante de revisão, definição do voto da eventual ação mas não da dúvida dos valores estratégicos, e sobretudo que a ONU não enfrente o seu risco de enfrentar um desafio histórico de desistência. A intervenção do secretário-geral tem sido suficientemente clara nas advertências, mas também parece que, pelo menos alguns órgãos, que não se ocupam apenas de finanças, processaram uma leitura clara, com a coragem de redefinir as cooperações indispensáveis e a certeza assumida de que nenhum Estado tem capacidade de enfrentar isolado os riscos que foram implantados pelo globalismo.

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