Premium Uma língua que nem eu consigo falar direito

Os jornais brasileiros neste fim de ano, ao fazer seus balanços sobre quem se destacou em 2018, têm criado categorias que escapam até ao meu entendimento - logo eu, que, em outras eras geológicas, andava em más companhias e era dos primeiros a ouvir e disseminar os novos calões, gírias, escárnios e maldizeres. Claro que, com o passar dos anos, tendemos a nos voltar para os extratos médios da língua, onde ficamos a salvo de não sermos compreendidos. O problema é que, enquanto voltamos a falar um português médio e convencional, o mundo ao redor continua reinventando a língua, e aí é a nossa vez de não perceber o que estão dizendo.

Outro dia, por exemplo, O Globo, do Rio, me apresentou listas de "quem lacrou" e "quem causou" no ano que está a findar. E, como não reconheci as pessoas de quem se dizia que "lacraram" ou "causaram", fiquei sem saber do que se tratava. Mas não me conformei. Consultei alguns jovens - menores de 40 anos - e eles me explicaram tudo. "Lacrar" é fazer algo perfeito, sensacional, ou soltar alguma frase extraordinária e definitiva. Assim, ao ouvir esta frase de alguém ou saber de alguma façanha dele, basta dizer: "Lacrou!" É um elogio. E "causar", pelo visto, é provocar um grande rebuliço ou agitação, como, digamos, escrever um romance que seja proibido pelo Vaticano ou ser acusado de assédio sexual pela avó do presidente Trump. E, então, se diz: "Causou!"

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.