A ganda de Modafar

Em língua guzarate chamavam-lhe "ganda" e, ao ver a bicha bizarra, Afonso quis logo enviá-la ao seu rei.

Tinha o rei de Cambaia uma mulher, e mais quinhentas. Modafar, assim se chamava tão ditoso monarca, era também senhor de Diu, onde Afonso de Albuquerque pretendia construir uma fortaleza, e para isso se entabularam conversações. Enviou-lhe o Albuquerque uma embaixada, chefiada por Diogo Fernandes (de Beja), e com ela muitos presentes valiosos: uma adaga com rubis no cabo, um colar dourado e esmaltado, duas peças de brocado da China, outra de brocado da Pérsia, nove côvados de veludo preto. Em troca, Modafar deu-lhes uma cadeira lindíssima, ornada de madrepérola, paramentos para o vice-rei e uma "bicha monstruosa", que Gaspar Correia descreveria assim: "Era alimária mansa, baixa, de corpo um pouco comprido; os coiros, pés e mãos d"alifante; a cabeça como de porco, comprida; os olhos junto do focinho; e sobre as ventas tinha um corno, grosso e curto, delgado na ponta. Comia erva, palha e arroz cozido."

Uma corrente, amarrada a um pé, servia para a terem presa e a conduzirem. Em língua guzarate chamavam-lhe "ganda" e, ao ver a bicha bizarra, Afonso quis logo enviá-la ao seu rei. Meteram-na a bordo da Nossa Senhora da Ajuda, na companhia do seu guarda indiano, de nome Oçem. A nau saiu de Cochim aos inícios de 1515, passou por dentro de Madagáscar, fez paragem em Moçambique, dobrou a Boa Esperança. No Atlântico, mais duas escalas, uma em Santa Helena, outra na ilha Terceira, e, ao fim de cento e vinte dias de arriscada viagem, a ganda lá desaguou no Tejo em 20 de Maio de 1515. Foi um assombro.

As gentes de Lisboa nunca tinham visto nada assim. A ganda de Modafar, aliás, era o primeiro rinoceronte indiano a pisar solo europeu em muitos e muitos séculos. O último registo que havia de tal bicho era da autoria de Plínio, o Antigo, e datava, imagine-se, do ano 60 antes de Cristo. D. Manuel tê-lo-á alojado em lugar nobre, numa dependência do Paço da Ribeira ou da vizinha Casa da Índia, mais ou menos onde hoje dormem também outras alimárias, os hóspedes da Pousada de Lisboa - Small Luxury Hotel (Grupo Pestana). Por certo inspirado pelas crónicas dos imperadores romanos, com quem queria ombrear, o rei, ou alguém por ele, lembrou-se de promover um combate (uma "junta") entre o rinoceronte e um dos seus elefantes, à maneira dos circos cruéis da Antiguidade. O local escolhido para a refrega foi precisamente o grande pátio que existia entre o Paço da Ribeira e a Casa da Índia.

Assim, no dia 3 de Junho de 1515, Domingo de Santíssima Trindade, reuniu-se ali toda a família real, a corte e os seus convidados. O rinoceronte já lá estava, na companhia do guarda indiano, amarrado pelo pé com uma corrente, aguardando o inimigo. Veio o elefante da estrebaria do paço dos Estaus, ao Rossio, onde era costume ficarem hospedados convidados ilustres e embaixadores estrangeiros (estaus = estalagem), e onde mais tarde funcionaria o lúgubre Tribunal do Santo Ofício. Quando chegou à arena, estava o rinoceronte escondido atrás de uns panos que havia no passadiço entre o Paço da Ribeira e a Casa da Índia. El-rei mandou então que se levantassem esses panos e, mal a ganda viu o elefante, investiu contra ele com grande fúria, a ponto de Oçem ter de lhe dar corrente. O elefante, o mais novinho da manada de D. Manuel, ergueu a tromba, berrou de medo, pôs-se a fugir espavorido: atirou ao chão com o seu cornaca, correu em direcção a uma janela gradeada que ali havia, torceu-lhe os varões de ferro, meteu-se pela grade adentro e escapou-se a toda a brida em direcção ao Rossio, por entre turistas franceses e caixeiras da H&M. E assim terminou o recontro. Ganhou a ganda, por KO técnico.

A assistir ao espectáculo estava Valentim Fernandes, também conhecido por Valentim Fernandes da Morávia ou Valentim Fernandes Alemão, pois era natural da Germânia. Tinha-se fixado em Lisboa há cerca de 20 anos, em 1495, e por cá exercia ofício como tradutor, editor e impressor, a ele se devendo, entre outras obras de vulto, a primeira tiragem das Ordenações Manuelinas. Valentim escreveu a um amigo de Nuremberga, relatando a chegada a Lisboa da ganda de Modafar e o seu breve confronto com o desgraçado olifante. Uma outra carta, com um desenho do rinoceronte, foi também enviada para Nuremberga e, não se sabe como, acabou por parar nas mãos abençoadas de Albrecht Dürer, que a copiou e a partir dela executou novo desenho, muito aperfeiçoado em relação ao anterior. Do desenho fizeram-se xilogravuras que correram a Europa inteira e ainda hoje o rinoceronte de Dürer nos maravilha e encanta, com a sua carapaça que parece uma armadura de combate, de metal reluzente, o olhar inexpressivo e plácido, um animal fantástico que não sabemos ao certo se é mamífero ou réptil, e que mais parece vindo de tempos jurássicos.

Entretanto, D. Manuel decidira enviar a ganda ao Papa. Para o efeito, organizou uma rica embaixada, com muitos presentes de prata, e o rinoceronte ataviado com uma cadeia de ferro dourada e um colar de veludo verde com rosas e cravos dourados. Capitaneada por João de Pina, a nau com o bicho largou do Tejo e chegou a Marselha em Janeiro de 1516. O rei de França, Francisco I, que por lá estava em missão de guerra, foi contemplar a fera, como é óbvio. A nau de João de Pina rumou depois a Roma, mas naufragou ao largo de Génova, perto de La Spezia, não muito longe das muito famosas e turísticas Cinque Terre. Há quem diga que foi o movimentar do animal a bordo que precipitou a tragédia, outros asseveram que o rinoceronte poderia ter-se salvo a nado, mas acabou por se afogar pois estava preso ao mastro do navio, que foi ao fundo. Em todo o caso, recuperaram a carcaça, tiraram-lhe os ossos, curtiram-lhe a pele e mandaram-no empalhado ao Papa Leão XIII. Com o saque de Roma de 1527 perdeu-se o paradeiro da peça mórbida, de que chegou a dizer-se estar armazenada num museu de Florença, mas que entretanto terá levado sumiço.

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Em Portugal, poucos vestígios ficaram da ganda de Modafar. À parte uma menção ou outra dos nossos cronistas, com destaque para Damião de Góis, há a conhecida estatuazinha na Torre de Belém, outra menos conhecida no Mosteiro de Alcobaça, apontamentos pictóricos fugazes em atlas e manuscritos iluminados, pouco mais. Em contraste, no resto da Europa o rinoceronte de Lisboa teve ampla difusão artística e cultural. Além da xilogravura de Dürer, o bicho foi representado por Hans Burgkmair (o original está hoje em Viena, na Galeria Albertina), por Albrecht Altdorfer (no livro de orações do imperador Maximiliano I, actualmente na biblioteca municipal de Besançon), num desenho de autor anónimo (que agora repousa na biblioteca pública de Parma), por outro desenho de autor anónimo, descoberto há pouco entre as folhas de um manuscrito da Biblioteca Vaticana. Não tinham passado dois meses sobre a chegada da ganda a Lisboa e já era publicado em Roma um panfleto com versos sobre o acontecimento, da autoria de um poeta florentino, Giovanni Penni, de que hoje só resta um exemplar na Biblioteca Colombina, em Sevilha. O rinoceronte aparece ainda num quadro bíblico de Francesco Granacci, em exposição dos Ufizzi, em Florença, e num famosíssimo fresco de Rafael, A Criação dos Animais, pintado no segundo andar do Palácio Apostólico do Vaticano.

Quer dizer, a ganda foi oferecida por Modafar ao vice-rei Albuquerque, que a despachou para Lisboa, por cá estanciou breves meses, sendo logo enviada para Roma. Trouxeram-na os portugueses da Índia, em tormentosa e dispendiosa viagem, mas foram outros que dela tiraram o maior proveito e a projectaram no mundo. Sem a gravura de Dürer, a história do rinoceronte de Lisboa seria hoje conhecida apenas por alguns eruditos e não mereceria mais do que uma nota de rodapé nos manuais de história. Pura e simplesmente, em Portugal não existia atmosfera cultural - artistas como Dürer ou Burgkmair, pintores como Granacci ou Rafael, poetas como Giovanni Penni - capaz de acolher a ganda de Modafar e dar-lhe o tratamento e a difusão que merecia.

É difícil encontrar exemplo mais expressivo da dicotomia que António Sérgio estabeleceu entre "política de transporte" e "política de fixação" da riqueza: mesmo nos tempos áureos das Descobertas, limitávamo-nos a transportar bens e mercadorias, inclusive rinocerontes, sendo incapazes de os fixar cá, de fazer que por aqui frutificassem e criassem raízes; raízes económicas e materiais, decerto, mas também, ou sobretudo, raízes intelectuais e culturais. Diz-se muitas vezes que o "atraso português" se deve à nossa condição periférica, à tragédia geográfica de sermos uma finis terrae afastada dos grandes centros de decisão, produção e comércio situados no coração da Europa. Talvez. Mas o certo é que, mesmo quando estivemos mais perto desses centros - ou, melhor, quando fomos o centro e a porta de entrada do Oriente e da América na Europa -, não conseguimos vencer o nosso destino histórico, o triste e lusitano fado. Talvez isso prove que a nossa periferia, mais do que geográfica, é cultural ou, como também se diz, "mental". É sintomático que as grandes representações do rinoceronte de Lisboa tenham sido feitas no estrangeiro e por estrangeiros, e que hoje se encontrem em museus, palácios ou bibliotecas de Itália, Espanha, França, Alemanha, até da Áustria e, claro, do Vaticano. Por cá pouco ficou, quase nada. A ganda de Modafar, metáfora de Portugal.

Nota: até 15 de Julho, estará patente no Instituto Cultural Romeno, em Lisboa, a exposição A Viagem do Rinoceronte. Bucareste-Lisboa, via Nuremberga, mostra de arte contemporânea inspirada na ganda de Modafar, com curadoria de Sofia Fränkl, artista gravadora no Museu Albrecht Dürer, em Nuremberga.

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