Macron, o europeu, volta a Lisboa

Presidente francês vem hoje a Portugal para um encontro com cidadãos sobre a UE. Foi em Lisboa que fez as últimas férias antes da eleição.

Natal de 2016, a campanha para as presidenciais francesas estava prestes a começar, talvez por isso Emmanuel e Brigitte Macron tenham escolhido Lisboa para uns dias de férias a dois. As fotos publicadas pela revista Paris Match mostram-nos a passear pela Baixa e a apanhar o elétrico 28. Um ano e meio depois, é como presidente que Macron volta esta sexta-feira a Lisboa para um encontro com cidadãos sobre os desafios da União Europeia na Fundação Gulbenkiane para uma cimeira em que a ele e ao primeiro-ministro português António Costa se juntará o espanhol Pedro Sánchez para discutirem as interconexões energéticas.

Ora se houve assunto que tem marcado a presidência Macron tem sido a Europa. Até mesmo na relação com Portugal. Em abril, o presidente francês legendava no Twitter uma fotografia ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa com a frase "Nós fundámos a Europa". O presidente português deslocara-se a França para o centenário de La Lys, a batalha da I Guerra Mundial na qual morreram 400 portugueses numa só manhã. Macron comparou La Lys à batalha de Verdun e garantiu: "Nunca esqueceremos o que estes soldados fizeram por nós."

António Costa também esteve nas cerimónias de La Lys mas o primeiro-ministro português já antes fora recebido por Macron no Eliseu. Em julho de 2017, os dois tiveram um almoço de trabalho para falar do futuro da Europa. Na altura revelaram posições concordantes, seja sobre a necessidade de reforma da União Económica e Monetária ou sobre uma "Europa da Defesa". E Costa convidou Macron a vir a Portugal, lançando um "espero por ti em Lisboa" ao presidente francês.

Neste dia 27 de manhã, Costa e Macron vão estar no grande auditório da Fundação Gulbenkian para um "debate franco e o mais aberto possível" com os cidadãos sobre os desafios que enfrenta a UE, explicou o embaixador de França em Portugal. Jean-Michel Casa lembrou que "este encontro é o resultado da excelente relação desenvolvida entre Costa e Macron em julho do ano passado" e o diplomata sublinhou o desejo do presidente francês de ser confrontado "com perguntas difíceis".

À frente dos destinos de um país onde vivem mais de um milhão de portugueses - uma comunidade tão diversa que inclui da porteira até ao CEO do grupo PSA-Peugeot/Citroën - Macron realiza agora a sua primeira visita a Portugal como chefe do Estado. Um momento que Hermano Sanches Ruivo descreve como "uma nova página após as tímidas evoluções com François Hollande". Em declarações ao DN, o vereador socialista da Câmara de Paris destaca "o bom aumento das colaborações concretas entre França e Portugal. Somos países amigos, membros ativos da UE e com história comum. As trocas aumentaram muito, no comércio e turismo". Mas, lamenta o lusodescendente, "não tanto em termos de ensino do português e do francês, das trocas culturais e do intercâmbio de pessoas".

Quanto à ideia, tantas vezes repetidas pelos media internacionais de "Macron, o europeu", Hermano Sanches Ruivo admite que o presidente francês "ganhou peso e não temos muitos dirigentes europeus com esta envergadura, com vontade de atuar. Devemos apoiar esta dinâmica europeia fortalecendo a união dos mais motivados. Trump, Putin, Erdogan mas também a situação política polaca, húngara e italiana obrigam a mais Europa e a um grupo forte de países no leme, incluindo Portugal".

O mais jovem da V República

Praticamente desconhecido quando François Hollande o convidou para ministro da Economia em agosto de 2014, Emmanuel Jean-Michel Frédéric Macron depressa se afirmou como a estrela em ascensão no governo do socialista. Nascido em Amiens, com dois pais médicos, gosta de lembrar que foi a avó materna, filha de analfabetos, que lhe alimentou a veia de esquerda. Mas seria ao centro que o aluno modelo, pianista talentoso e antigo assistente do filósofo Paul Ricoeur rumaria em termos políticos. Os choques constantes com Hollande levaram o antigo banqueiro de investimento a sair do governo em agosto de 2016, quatro meses após ter fundado o seu próprio movimento, o En Marche!

Em novembro seguinte confirmava o que há muito se desconfiava: que era candidato às presidenciais. Casado com Brigitte Trogneux, 24 anos mais velha do que ele e que conheceu no liceu onde ela foi sua professora de Francês, Macron apresentou-se na campanha como capaz de escolher "o melhor da direita, o melhor da esquerda e até o melhor do centro". Uma mensagem que o levou ao Eliseu, numa França que deixou os candidatos dos partidos tradicionais de fora logo na primeira volta das presidenciais, mas que na segunda preferiu o moderado Macron a Marine le Pen, a rival da extrema-direita.

Passado mais de um ano, o mais jovem presidente da V República francesa - fez 40 anos a 21 de dezembro - conseguiu afirmar-se como líder forte da UE, num momento em que Merkel se debatia com problemas internos na Alemanha. E, apesar dos beijos e abraços durante a visita de Estado a Washington, Macron faz questão de se demarcar das políticas do americano Donald Trump - desde o ambiente ao comércio.

Muitos media internacionais têm-se desfeito em elogios em relação ao presidente francês - em outubro Emmanuel Carrère escrevia no britânico The Guardian "todos concordam: Macron conseguiria seduzir até uma cadeira". Mas, em casa, as opiniões não são tão favoráveis. Basta olhar para as sondagens. A última, do instituto Orange para a RTL e La Tribune, mostra que só 39% dos inquiridos têm opinião positiva sobre a atuação do presidente (menos dois pontos do que na sondagem anterior). E nem a euforia da vitória de seleção de França no Mundial de Futebol na Rússia, a 15 de julho, um dia depois das celebrações do Dia da Bastilha, parece ter alterado esta tendência de queda. Apesar de Macron ter, a par da presidente croata Kolinda Grabar-Kitarovic, sido a estrela da final entre os respetivos países em Moscovo. Deu a volta ao mundo - e às redes sociais - a foto de Macron a celebrar na bancada, em mangas de camisa e braço no ar, sob o olhar de Kolinda, mas também do presidente da FIFA, Gianni Infantino, e do anfitrião, o chefe do Estado russo, Vladimir Putin.

"Já não existe uma ligação entre vitórias francesas e reforço da imagem", garante Hermano Sanches Ruivo. O vereador de Paris admite que "com este Mundial ficou reforçada a imagem de um presidente jovem, com garra, que sabe comunicar e que tem sorte. As pessoas gostam disto mas querem ação e resultados".

Ora nos últimos meses, Macron tem sido confrontado com forte contestação social nas ruas. Dos caminhos-de-ferro aos hospitais, dos estudantes aos reformados foram muitos os setores a pôr em causa as suas reformas. No primeiro trimestre, o desemprego subiu muito ligeiramente em França, atingindo 8,9% da população. Mas as últimas previsões da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apontam para um crescimento em torno dos 2% em 2018 e 2019 daquela que é a terceira maior economia da UE.

Nada de positivo

A viver em Portugal há mais de 20 anos, Laurent Goater vê com bons olhos a visita do presidente francês a Lisboa. O conselheiro consular, eleito pelos franceses de Portugal, diz ao DN esperar que "Macron possa construir com Portugal e outros países da Europa um caminho de reforma verdadeiro". Eleito pelo partido Os Republicanos, a antiga UMP, o empresário acrescenta: "A Europa só pode sobreviver e voltar a atrair os cidadãos resolvendo seus muitos problemas e evidentemente a desconfiança de muitos sobre a gestão da imigração."

Quanto à imagem de Macron, Goater explica: "Temos um presidente jovem e entusiasta e os franceses gostam desta forma de estar. Mas desconfiam que a sua imagem seja falsa. Macron não é a pessoa simpática que era naturalmente Chirac... ou que são Costa e Marcelo. Ele é, primeiramente, um banqueiro da elite". E não esconde ser um crítico do chefe do Estado: "Como muitos franceses quero que o meu país resolva seus problemas, especialmente o desemprego e a insegurança, e esperava que Macron tivesse ideias e pessoas novas para tentar outras soluções. De positivo, um ano depois, não há nada."

Para participar no Encontro com Cidadãos na Fundação Gulbenkian, inscreva-se aqui.

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