Jardineiros, seguranças, mecânicos, cozinheiros. O que fazem na vida os Hells Angels portugueses

O retrato social apresentado em tribunal revela que o gangue tem membros integrados na sociedade. Há 15 que já foram condenados por vários crimes, de homicídio a agressões.

Quando desmontam das Harley Davidson e despem os pesados casacos e calças de couro, os Hells Angels têm uma vida em vários pontos comum ao comum dos mortais: mulher, filhos, atividade profissional, familiares doentes e outros desempregados que dizem apoiar. Entre amigos são tratados pelas alcunhas. Há o "Gatinho", o "Martelos", o "Rambo", o "Gordo", o "T-Rex", o "Tony do Algarve" e até o "Caveirinha".

Quando decidiu as medidas de coação, o Tribunal de Instrução Criminal teve em conta a sua condição social e concluiu que todos estavam inseridos social, profissional e familiarmente, apesar de esse facto não os ter impedido de cometer os crimes por que estão indiciados: associação criminosa, tentativa de homicídio, agressões graves, roubo, tráfico de armas e de estupefacientes.

Segundo a pesquisa no registo criminal feita pelas autoridades, entre os 59 detidos (dos quais 39 ficaram em prisão preventiva) há 15 que já foram condenados anteriormente, por crimes que vão desde homicídio qualificado (conforme o DN já noticiou, é o caso de Nuno Monteiro e Tiago Palma, pelo assassínio de Alcindo Monteiro, no Bairro Alto, em 1995) a ofensas à integridade física, extorsão, sequestro, posse ilegal de arma, roubos e furtos.

Na atividade profissional que desempenham, a de segurança privada é a que reúne o maior número dos detidos nesta operação, com cerca de dezena e meia a assumir essa profissão. As ligações a empresas de segurança privada são conhecidas. Uns a tempo inteiro, outros a tempo parcial. Entre estes há dois de uma empresa que domina quase 70% do mercado de diversão noturna de Lisboa e do Algarve, a qual, em carta dirigida ao DN, nega ligações aos Hells Angels (ver caixa). Há um detido que é segurança numa empresa de transportes públicos. O tribunal proibiu-os de exercerem esta atividade e se forem detetados pela PSP, que fiscaliza este setor, podem ser detidos.

Mas há também jardineiros, cozinheiros, eletricistas, mecânicos de automóveis e motos, um carpinteiro e um desenhador, comerciantes, distribuidores de mercadorias, personal trainers (PT), um sargento militar, um motorista de pesados, um apicultor, um barbeiro, um que está num call center, um pedreiro, um exemplar trabalhador da Autoeuropa há 23 anos e até alguém que está a criar um centro de abrigo para cães abandonados.

Quando prestaram declarações sobre a sua situação pessoal, os arguidos pretendem que essas informações possam servir de atenuante nas medidas de coação. Foi o caso de um dos detidos, que, por trabalhar fora da área de residência, foi o único autorizado a deslocar-se para fora do seu concelho, ao contrário de todos os outros sujeitos a termo de identidade e residência (TIR) com obrigação de se apresentarem diariamente à polícia da sua zona.

O estado de saúde é também um fator considerado. Um dos detidos tem prótese completa na anca e problemas na próstata, outro tem problemas cardíacos e renais graves, outro um tumor maxilofacial.

Outro dado que é tido em conta pelos tribunais é a dependência que o agregado familiar tem, quer dos rendimentos quer do apoio afetivo dos arguidos. É o caso de alguns cujas mulheres/companheiras estão desempregadas, ou que têm familiares doentes a viver consigo. Um filho asmático, uma sogra numa cadeira de rodas, uma mãe doente do coração ou um padrasto com uma doença em fase terminal foram algumas das situações relatadas.

Os que foram apanhados com droga em casa (haxixe e cocaína), em quantidade suficiente para configurar crime de tráfico, garantiram que era para consumo próprio, um deles para aliviar as dores que costuma sentir.

Um dos indiciados pelo crime de posse ilegal de armas alegou que as tinha trazido, como recordação, de uma missão no Afeganistão. Outro garantiu que as cinco mil munições que lhe foram apreendidas em casa são bolas de plástico de arma airsoft, desporto que pratica. O taco de basebol apreendido na residência de um dos arguidos era, segundo garantiu à polícia, para brincar com os cães a atirar bolas e a soqueira era um mero abre-latas.

Segundo a investigação judicial, estes arguidos planearam ao detalhe o violento ataque aos rivais, no restaurante do Prior Velho em março deste ano. Deslocaram-se de várias partes do país, onde residem e frequentam os chapters locais dos Hells Angels. Entre os detidos há também estrangeiros recrutados especialmente para a ação. Vigiaram os alvos com antecedência, com maior atenção para Mário Machado, que estava a preparar a criação em Portugal de um núcleo do gangue motard Los Bandidos, inimigos históricos dos Hells Angels. As autoridades não duvidam de que Machado era o principal objetivo e que se não se tivesse refugiado, com outros amigos, na arrecadação do restaurante, dificilmente teria escapado com vida.

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