Viver de prazer 

Uma lista das coisas que fazem a vida valer a pena, inspirada na de Woody Allen em Manhattan. Que tal o leitor fazer a sua?

Em certo momento do seu filme Manhattan, de 1978, Woody Allen, sozinho em seu quarto, põe-se a pensar sobre para que serve viver. "É uma boa pergunta", ele diz. "Bem, há certas coisas que, para mim, fazem a vida valer a pena. Mas o quê, por exemplo?" E, lentamente, hesitante, como se ponderasse cada citação, passa a enumerá-las. "Para começar, Groucho Marx... Willie Mays... O Segundo Movimento da Sinfonia Júpiter, de Mozart... A gravação de Potato Head Blues, por Louis Armstrong... Filmes suecos, naturalmente... A Educação Sentimental, de Flaubert... Marlon Brando... Frank Sinatra... Os incríveis pêssegos, maçãs e peras de Cézanne... Os caranguejos no Sam Wo... O rosto de Tracy..."

Claro que isso foi no tempo em que todos podíamos gostar livremente de Woody Allen e de seus filmes. Ele ainda não se tornara um monstro criminoso por, em 1992, ter trocado a sua mulher, a atriz Mia Farrow, por uma filha adotiva desta - com quem está casado até hoje -, e pela acusação de ter molestado outra filha adotiva de Mia, Dylan, de 6 anos. Acusação esta de que foi inocentado judicialmente duas vezes, mas que continua a lhe ser feita e praticamente liquidou a sua carreira, inclusive a que ele construiu antes do escândalo. Mas, como esta coluna se passa no tempo em que Woody era visto apenas como um génio do cinema, vamos voltar à sua lista de coisas que, para ele, em 1978, faziam a vida valer a pena.

Groucho Marx era uma escolha óbvia para um comediante do seu estilo. Muitos teriam preferido Chaplin ou Buster Keaton, mas Woody sempre foi um homem da palavra, não da pantomima - daí também o seu apreço, várias vezes confessado, por Bob Hope, outro comediante da palavra. O nome seguinte da lista, Willy Mays, passou em branco para 100% da plateia de seu filme fora dos Estados Unidos. Mays era um jogador de basebol, esporte pelo qual os americanos são loucos, mas que o resto do mundo acha chatérrimo e, com razão, ignora. E, sendo Woody um clarinetista completo, não há surpresa no seu amor pela música de concerto - embora a escolha da Sinfonia n.º 41 em dó maior - Júpiter, de Mozart, em detrimento de outras, pudesse ter alguma motivação pessoal. Já Potato Head Blues, uma das gravações seminais de Louis Armstrong com seu grupo Hot Seven, em 1927, pode ter sido o primeiro grande solo de trompete na história do jazz.

Na lista de Woody, seguem-se "filmes suecos, naturalmente". Não sei de outro diretor sueco que ele tivesse um dia mencionado exceto Ingmar Bergman - e claro que Bergman já seria suficiente, por filmes como Noites de Circo (1954), Sorrisos de Uma Noite de Amor (1955), O Sétimo Selo (1956), Morangos Silvestres (1957) e Persona (1967), além dos outros que ele viria a rodar. Mas Woody poderia ter surpreendido se citasse um dos primeiríssimos clássicos suecos, o extraordinário A Carruagem Fantasma (1921), de Victor Sjöström, mestre de Bergman e, não por acaso, ator deste, aos 82 anos, em Morangos Silvestres.

Incluir um livro de Flaubert e as naturezas-mortas de Cézanne entre as maravilhas da criação humana não é vantagem - quem não incluiria? E faz sentido a admiração de Woody por Marlon Brando, um ator tão intelectualizado quanto ele e com a mesma característica de falar pelas gengivas. Mas o seu amor por Frank Sinatra teria um triste fim. Sinatra também fora casado com Mia Farrow e, embora ela tivesse infernizado a vida do pobre Frank nos dois anos que passaram juntos, ele ficou do lado dela no episódio do rompimento com Woody - até lhe ofereceu mandar quebrar as pernas de Woody se ela quisesse (por sorte, Mia declinou). Quanto aos caranguejos do San Wo, um restaurante popular na Chinatown de Manhattan, um crítico de gastronomia do TheNew York Times tentou comê-los certa vez, mas não conseguiu chegar a eles no pântano de molho, grelos e bambus em que estavam submersos. Quanto a Tracy, a personagem de Mariel Hemingway no filme, a referência ao seu rosto era apenas parte da trama, embora o rosto da jovem atriz fosse de facto marcante.

via GIPHY

Pensei na lista de Woody e me perguntei qual seria a minha, se me dispusesse a fazê-la. Todo o mundo, mesmo inconscientemente, tenta viver em função das coisas que lhe dão prazer. Por que não botá-las no papel? Assim, enquanto o leitor elabora a sua lista de prazeres, aqui vão, sem grandes elucubrações, os meus.

- Passear pelo Rio nos dias de sol. Nos dias nublados também e, se calhar, até nos de chuva. Dobrar uma esquina no Centro da cidade e ter a impressão de que voltei ao Rio do século XVIII ou XIX, e de que talvez tenha sido transportado, magicamente, sem sentir, para uma rua também antiga de Lisboa.

- Reconstituir mentalmente os golos de Zico pelo Flamengo nos anos 70 e 80 no Maracanã, na Europa e em Tóquio. Dormir embalado pelos golos do atual Flamengo de Jorge Jesus, com Gabigol, Bruno Henrique, Everton Ribeiro, Gerson e Arrascaeta.

- Prazeres cariocas de dar água na boca. As empadas de camarão do Caranguejo, em Copacabana. Os pastéis do Degrau, no Leblon. O feijão-manteiga da Adega Flor de Coimbra, na Lapa. A omelete de pastrami do Paladino, na Rua Marechal Floriano. A feijoada de pés, orelhas e rabos suínos da Toca do Baiacu, na Rua do Ouvidor.

- Memórias de Um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida. Memórias da Rua do Ouvidor (1878), de Joaquim Manuel de Macedo. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1882), de Machado de Assis.

- Fred Astaire e Ginger Rogers em O Picolino (1934). As coxas de Silvana Mangano em Arroz Amargo (1949). O duelo a espadas entre Stewart Granger e Mel Ferrer em Scaramouche (1952). A nave espacial ao som do Danúbio Azul em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). Os filmes de Woody Allen, claro.

- Todos os discos de Orlando Silva, Lucio Alves e João Gilberto. Todos os discos de Carmen Miranda. Todos os discos de Bobby Short. E, como não temos mulheres em comum - donde não corro risco -, todos os discos de Frank Sinatra.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros livros, Chega de Saudade- A História e as Histórias da Bossa Nova (Tinta-da-China).

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG