Portugal é coiso? Ou Portugal não é coiso?

Vamos lá saber: Portugal é racista ou Portugal não é racista? Então, já agora: Portugal é gatuno ou Portugal não é gatuno? Enfim, para dizer tudo e por atacado: Portugal é ou não é? Eis do que não vou falar nesta crónica. Não vou alimentar o exercício de jornais e redes sociais que preferem a certeza imprecisa do sim ou sopas. Própria do carimbo definitivo, só para açular a conversa. Quando a verdade é mais copulativa: sobre quase tudo, Portugal é e não é. Própria da vontade de encontrar soluções.

Quando o tema é o racismo, problema tão real, tão absurdo e tão doloroso, é um desperdício não querermos ver, sobre o tema, os raros homens e factos que nos entram casa adentro. Por estes dias, de um estádio veio uma lição. Um homem correu para uma multidão para nos ensinar a todos. Poucos repararam que ele usou o dedo que não sem razão se chama indicador e o levou ao braço, apontando para a pele, a parte de si que, por ser negra, lhe marcou a vida.

Com o gesto, Marega, publicitário genial, disse tudo com tão pouco. Minutos depois ele era um Twitter trend como hoje se diz ao que antigamente se chamava homem mais famoso do país. Houve desconcertos. Rapaz até rápido nas malandrices, André Ventura precisou de 24 horas para emendar a demonstração que a quente fizera de não entender a lição de Marega. Também comentadores mais burros se confirmaram. E, explicitamente, quase ninguém e raras legendas de fotos se deram conta do dedo a apontar a pele. Mas a exposição a sublinhar o que era o mais íntimo e mais fundo teve tal força que chegou a todo o país. Por uma vez, a leve ideia foi submersa pelo substantivo.

Permitam-me uma excursão pessoal. Um dia, com 6 anos, talvez, chamei preto a um pedagogo. Éramos de uma cidade colonial, Luanda, ele usava sandálias feitas de pneu de camião e estávamos no meu quintal. Ele pegou num canivete, picou a mão e mostrou-me o pingo de sangue: "A cor é igual ao teu." E acrescentou: "Preto é carvão, branco é papel."

No primeiro domingo de abril de 1961, tinha o dobro da idade daquela lição a canivete, o meu bairro foi varrido pelo medo, de perseguidores e de vítimas. Houve berros e corridas, "agarra o terrorista!", e canivetes que não eram lição - vi corpos no chão, quietos. Nunca mais brinquei a fazer de morto de braços abertos, em cruz - aprendi que os mortos por vezes escolhem posições mais tortas do que os santinhos.

Ao fim dessa tarde, fui na carrinha com o meu pai buscar o Silvestre, criado na minha casa, um pouco mais velho do que eu e companheiro de futebol. Ao fim de semana ele ia ter com os seus, na estrada da Cuca. Um mulato de olhos azuis (na memória guardamos pormenores esquisitos, ou talvez não, porque esta história é a cores), disse-nos que brancos em táxis e motos vieram caçar terroristas. O Silvestre foi passado e repassado pela sanha de uma moto. Eu tinha um boné de pala, baixei-a e fiquei assim, no regresso a casa, sem chorar para os outros.

Dobrei outra vez a idade e os meus pais levaram-me à Quissama, o parque de elefantes a sul de Luanda. Eu estava na idade de ser chamado para a tropa, a minha mãe tratava-me com olhares inquietos e o meu pai punha-me a mão nos ombros mais do que o costume. Parámos longamente na Muxima, onde a curva do rio Cuanza nos enfeitiça e agarra - mas devo estar a exagerar nas intenções dos seus pais em não me perder.

Em todo o caso enganaram-se. Foi nessa viagem, olhando o rio, que me decidi. No parque da Quissama, um criado, um pouco mais velho do que me lembrava do Silvestre, tinha um olhar servil. Isso, só isso, e decidi que não iria desertar, o que parece contradizer os documentos militares que tenho. Mas foi assim, mesmo: não desertei de mim.

E ainda hoje, tanta vez dobrada a minha idade, soube ouvir a limpidez dos racistas: "Chimpanzé!", "Macaco!" e gritos simiescos, "ô... ô... ô..." Não foi "tigre!" nem o voar de uma libélula, foi linguagem substantiva, dita e mimada, ululante: tu és inferior. Macaco parecido com os homens, quase isso, mas inferior. E o gesto de Marega, o dedo apontando a pele: eu não sou só eu, sou os meus filhos na escola, uma negra no autocarro, um negro a alugar um quarto, uma ausência total na direção da Federação Portuguesa de Futebol...

Racismo, pois. Portugal e Portugal. Um é melhor e maior do que o outro, não tenho dúvidas.

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