De regresso aos imponderáveis

O grande desafio, nas nossas sociedades, é o de fazer desabrochar lideranças que sejam realistas, transformadoras e convincentes. Esse desafio é hoje premente. Com as férias de verão a aproximarem-se do seu termo, olha-se para os quatro meses que faltam para completar o ano e não se pode achar estranho que muitos fiquem apreensivos. Veem uma maré cheia de problemas e vaza de liderança internacional. Nenhum dirigente atual consegue ultrapassar os limites da sua paróquia e propor uma perspetiva animadora e credível, face ao que temos pela frente.

A cena mundial continuará marcada pela pandemia da covid-19 e, em boa parte, pela política interna norte-americana. Para não falar de outras complicações que se vivem na nossa vizinhança geopolítica, como a tensão crescente entre a Europa e a Turquia, agora na parte oriental do mar Mediterrâneo, mais os conflitos e as dificuldades sem fim no Médio Oriente e no Sahel, a começar pelo Mali. Uma lista de preocupações que não cessa de crescer e que passou a incluir a Bielorrússia, graças ao ditador Alexander Lukashenko, uma reminiscência dos tempos soviéticos e do que a cultura do partido único produziu como desequilibrados políticos. Sem esquecer, claro, as fraturas no interior do nosso espaço europeu, muito fragilizado no seu todo e com várias crises nacionais já visíveis ou em gestação, como será o caso da Bulgária e, por outras razões, da Itália, onde existe um mal-estar social muito agudo. A pandemia é um incêndio global a que se junta uma série de fogos locais. A sabedoria consistirá em entender o que tudo isto acarreta como consequências e saber propor uma ordem internacional diferente. Pensar assim parece uma miragem. Mas este é um momento excecional, que nos interpela e exige uma visão diferente do futuro.

No que respeita às eleições presidenciais nos Estados Unidos, uma pessoa amiga dizia-me nesta semana que há que ter paciência e esperar por novembro. Acrescentava que não tinha dúvidas sobre a derrota de Donald Trump e que, depois, tudo voltaria à normalidade, incluindo na área das relações internacionais. Não dou por adquirida a derrota de Trump. Os Democratas não devem considerar a vitória como favas contadas. Faltam, é verdade, pouco mais do que 70 dias para a eleição e as previsões não são favoráveis ao presidente. Mas este é um período em que o imponderável pode acontecer. Os analistas mais objetivos e atentos lembram-nos que o país está mergulhado numa crise multidimensional. Não é apenas o caos na gestão da pandemia, o impacto desta sobre a economia ou a inépcia generalizada e flagrante do presidente. A mistura Trump-covid está a provocar um abanão social profundo, estrutural, com dimensões raciais, pobreza e desespero. Põe em causa, acima de tudo, o sistema e a democracia, com a radicalização de setores populacionais, sobretudo os que creem que a derrota de Trump significaria um apertar do cerco que pensam existir contra os seus interesses.

Donald Trump não se vê como perdedor. Irá tentar tudo e mais alguma coisa para recuperar o terreno perdido, ou, em desespero, mandar o tabuleiro ao chão. Enfrentamos tempos imprevisíveis. Ele e os seus precisam de continuar a captura da administração federal por mais quatro anos. Certos analistas pensam que isso pode levar o presidente a entrar em jogos muito perigosos para a estabilidade do seu país e do mundo. E ficam ainda mais preocupados quando notam o alinhamento cego dos dirigentes do Partido Republicano, que nada ousam fazer para contrariar o presidente.

Sou dos que pensam que esses receios são exagerados. As instituições americanas são suficientemente sólidas para travar qualquer tentação do abismo. E o resto do mundo é suficientemente paciente para não se deixar cair em provocações. Incluindo a China. Mas a verdade é que o ano tem sido um mar de surpresas inimagináveis. Por isso, para os meses que faltam, é melhor pensar no impensável. Esse seria o repto que eu lançaria a um par de centros europeus de reflexão estratégica. Entretanto, à cautela, convirá que continuemos, aqui deste lado, a trabalhar para o melhor, sem descurar a preparação para que possamos responder a novas confusões.

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-representante especial da ONU

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