A paz das etnias

Não obstante a prudência da senhora Merkel, que cuidadosamente evitou qualquer confronto com Pequim, incluindo a gravidade do processo em Hong Kong, dando responsável prioridade à pandemia que afeta o globo, o ambiente tende para agravar-se por travar uma liberdade sem liderança conhecida para destruir monumentos que assinalam o passado histórico, sendo comum invocar a luta contra o racismo. Nesta época parece ser inspirada a cólera pela memória da escravatura dos africanos. Depois desse martírio ter sido legalmente revogado, o ódio racial mais violento foi do nazismo contra os judeus, condenados à execução brutal com o objetivo de terminar com a espécie. Em ambos os casos é verificável que as leis libertadoras de tal crueldade podem encontrar-se com comportamentos sociais que não abandonam a discriminação.

A história dos EUA, quer no que respeita aos nativos iroqueses quer no que respeita aos escravos negros, teve esse fenómeno com uma duração de que os vivos possuem lembranças. Este facto, de a realidade frequentemente tender para colocar a discriminação a limitar a dimensão do imperativo legal, levou, no fim do império euromundista, a que o famoso Toynbee lembrasse aos ocidentais que todos os restantes povos do mundo, africanos, asiáticos, muçulmanos, consideram os ocidentais "os grandes agressores dos tempos modernos". São vários os "mitos", considerados diversidades, entre os quais se distinguem - os mitos raciais politicamente relevantes, incluindo o judaico, que o nazismo assumiu como justificando exterminar cruelmente a raça, o mito dos mestiços em regra evidenciando a recordação colonial, o mito da raça ariana invocando uma pretensão aristocratizante da origem, o mito do negro, marca da extensa imposição de interesses económicos de colonizadores que usaram largamente o estatuto da escravatura, a qual implicou manter leis contrárias à chamada Escola Ibérica da Paz, atual publicação da Universidade de Cantábria, reunindo textos das Universidades de Coimbra, Évora, Salamanca, intervenções de 1511-1694, enriquecendo a "consciência crítica da conquista e colonização da América".

Em relação a estas intervenções, que não conseguiram alterar o direito positivo, que chegou a ter justificações de sacerdotes como Thomas Thompson (1772), concluindo que "o comércio de escravos negros... respeita as leis da religião revelada". Para a experiência portuguesa, cuja doutrina da Escola Ibérica encontra o padre Vieira a pregar que pelo menos tal legislação referente aos negros fosse humanizada e sem atingir os frágeis nativos, e também a clareza de Frei Bartolomeu de Las Casas, argumentando com a razão para suprimir a escravidão dos nativos. Para a primeira extinção esperou-se aqui pelo governo do marquês de Pombal, embora limitando-se à metrópole, e recebendo um soneto anónimo, afirmação de dever "voltar ao solar do quinto avô, arcediago", que fizera da negra Marta a sua avó.

São numerosos os portugueses que se ocuparam do que José Ramos Tinhorão, em livro excelente, trata de "os negros em Portugal", marcados pela escravatura, e prestando serviço nas navegações, no mercado de trabalho, também na vida social, nas festas religiosas, na literatura de cordel, na língua portuguesa, no teatro, no fado-canção, no "culto negro em Lisboa" e devoção branca ao Santo Preto no Porto, concluindo pela tese do "branqueamento social dos negros" em Portugal. Todavia, presente o aviso de Toynbee, e casos como o da África do Sul, uma prudência pessimista leva Borke, atento à discriminação racial, e às propostas de Leonard Barnes, na Conferência do National Peace Council de 1935 a afirmar: "Estou persuadido de que na zona tropical de África os europeus não podem satisfazer nenhuma destas condições." Ali, a santidade de Mandela estabeleceu visões diferentes, talvez hoje menos válidas. Por seu lado, já no fim do século XIX, escrevia Franqueville: "A imaginação fica confusa quando se pensa na imensidade deste império [britânico] colonial. Como saber resolver o problema de governar países tão diferentes, conciliar tantos interesses opostos." Depois da guerra mundial de 1939-1945, o fim do império euromundista, sofrendo várias guerras, recebeu o ponto final da Carta da ONU. Todavia, o panorama dos conflitos, que foram diminuindo a viabilidade da utopia promissora da ONU, foram como que colocados em risco porque os conflitos e submissões ficam como os piores acontecimentos do passado histórico.

Se vencida esta guerra com o covid-19, espera-se que não surjam guerras como as que seguiram a peste negra, e se reconheça que são todos, sem distinção de etnias, seres vivos que sobreviveram e partilham uma exigência comum de construir um novo futuro, também recorrendo a um conjunto de valores inspirados pela "justiça natural". A Missa sobre o Mundo, do Papa Francisco, na Sexta-Feira Santa, foi uma dádiva para fortalecer a esperança comum de todo o povo, sem diferença de raças, e tendo sobrevivido a igual misericórdia. Vivos e iguais.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG