Cemitério Inglês. Três séculos de história escondidos no meio de Lisboa

Há 300 anos, sob o olhar do Santo Ofício, D. João IV cedeu à comunidade inglesa um terreno para sepultar os seus mortos, protestantes. Espaço verde com mais de dois hectares, o cemitério vai agora ter como vizinho um condomínio privado.

Quem passa na rua de São Jorge, com o Jardim da Estrela ali ao lado, quase não dá pelo jardim frondoso do outro lado da estrada, escondido pelo muro que só deixa ver as copas das árvores. São ciprestes, olaias, palmeiras, jacarandás, tílias, um vetusto e imponente dragoeiro, testemunhas silenciosas dos 300 anos de história daquele espaço, e das muitas histórias dos que ali repousam. Ali está o Cemitério Inglês, mais de dois hectares de quietude no meio da cidade.

Passado o portão, o visitante tem à sua frente um cenário de vegetação luxuriante, que enquadra as cerca de 2500 sepulturas - a mais antiga de 1724 - na grande maioria sóbrias placas cinzentas, aqui e além um monumento funerário mais imponente. Ao fundo, impercetível de fora, fica a Igreja de Saint George (santo padroeiro de Inglaterra), edifício de estilo vitoriano com capacidade para receber cerca de 250 pessoas, e que se mantém como um ativo espaço de culto.

À data na propriedade do Estado britânico (atualmente é administrado pela Igreja Anglicana), o cemitério foi o único espaço do chamado quarteirão inglês que não mudou de mãos quando, em 2017, a embaixada vendeu a um privado os edifícios contíguos - o antigo hospital, o Parnassage (antiga universidade) e o Estrela Hall, que durante décadas serviu de sede aos The Lisbon Players. São estes edifícios que, como noticiou o DN na semana passada, estão agora a entrar em obras e que vão dar lugar a um condomínio privado. O licenciamento suscitou então um "protesto veemente" da associação cívica Cidadania LX. E há quem junte a voz a esse desagrado.

Francisco George, antigo diretor-geral da Saúde e presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, é descendente de uma família britânica chegada a Lisboa no século XIX. É ele que guia o DN pelo espaço que conhece desde criança, no cemitério onde estão sepultados os seus bisavós e boa parte das gerações que lhes sucederam. Razão para temer pelo que aí vem e lamentar que o projeto para os edifícios contíguos tenha sido decidido sem discussão pública.

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A história do Cemitério Inglês remonta a 1654, quando o governo de Oliver Cromwell e um emissário de D. João IV acertaram um tratado que previa a criação de um espaço para a sepultura de não católicos, pondo fim ao problema dos enterros dos ingleses, protestantes - na altura e até à construção do cemitério, os mais abastados eram embalsamados e embarcados para Inglaterra, os que não tinham dinheiro para tanto eram enterrados de forma clandestina na margem do rio, hereges à luz da Santa Inquisição. Andrew Swinnerton, administrador do Cemitério Inglês (e que foi durante cerca de 30 anos o primeiro oboé da Orquestra Gulbenkian) conta que o próprio cemitério não escapou ao crivo do Santo Ofício, que proibiu a construção de qualquer espaço de culto (a primeira igreja, que entretanto ardeu, viria a ser construída mais tarde) e ali mandou plantar ciprestes para tapar as sepulturas aos olhares dos católicos. Mais tarde, uma pequeníssima parcela do espaço viria a receber o cemitério judaico, hoje um enclave entre dois dos edifícios que vão ser intervencionados, sem ligação física com o Cemitério Inglês.

O cônsul, o escritor e o príncipe

O cemitério começou por receber britânicos e holandeses, também protestantes - em espaços separados -, mas acabaria por ficar totalmente sob administração inglesa. Mas a história mais enigmática dos que ali repousam tem outra nacionalidade. Colocada no muro, à esquerda de quem entra, reza a lápide de Thomas Barclay que foi o "primeiro cônsul dos Estados Unidos", morto "num duelo" e ali enterrado a "21 de Janeiro de 1793". Acrescenta a placa: "Tinha nascido em Strabane, Irlanda, em 1720. George Washington tornou-o cônsul em Marrocos em 1791 a pedido do primeiro secretário de Estado Thomas Jefferson".

Barclay foi o primeiro diplomata a morrer num país estrangeiro ao serviço dos EUA. A razão da morte é que está longe de estar esclarecida: a biografia do cônsul sustenta que foi enviado a Argel para negociar a libertação de cidadãos americanos e que se terá deslocado a Lisboa para recolher fundos. Terá adoecido com uma infeção nos pulmões e morrido pouco depois. Não bate certo com a inscrição que aponta para um duelo, uma referência apócrifa que não está esclarecida. O mistério, aliás, estende-se à própria placa: Andrew Swinnerton suspeita que será bastante posterior à data da morte, mas os registos não permitem esclarecer o enigma.

Francisco George tem um pormenor a acrescentar: na sua família sempre ouviu contar que Barclay, irlandês feito americano nos primórdios do novo país, morreu num "duelo por amor". Também neste caso não há registos que permitam confirmar, mas adaptando livremente a frase de um célebre filme de John Ford, "publique-se a lenda".

Mas o nome mais famoso, com direito a sinalética logo à entrada, é inglês: Henry Fielding, autor do século XVIII que escreveu Tom Jones, e que Walter Scott definiu como o pai do romance inglês. Fielding veio a Lisboa à procura do clima ameno por causa da asma e da gota que o afetavam, mas a capital portuguesa não lhe deixou boa impressão - numa obra publicada postumamente define Lisboa como a cidade "mais desagradável do mundo". Morreu em outubro de 1754, dois meses depois de ter chegado. Outro nome célebre é Christian August, príncipe de Waldek, general austríaco que veio para Portugal em 1797 com a missão, nunca concretizada, de comandar o exército.

A família George

A família George chegou a Portugal em meados do século XIX, trazida pela crise que se instalou na construção naval em Inglaterra e por um contrato de cooperação com o Governo português. Especialista em energia a vapor, Charles George (bisavô do ex-diretor-geral da Saúde) foi mestre dos boilermakers (caldeireiros) no Arsenal da Marinha, uma ligação ao setor público que manteve toda a vida e que perdurou como uma herança na família. Francisco George recorda que era ali, ao Cemitério Inglês, que o pai o trazia em adolescente, para as "conversas sérias" sobre os valores trazidos das gerações passadas e que queria passar à próxima. Ficou a lição, a juntar à profunda ligação afetiva àquele espaço.

Entre famílias de origem inglesa instaladas em Portugal, visitantes mais ou menos ocasionais, ingleses caídos nas invasões francesas, militares que combateram na I e na II Grande Guerra, o cemitério também conta alguns portugueses sem filiação do outro lado do canal da Mancha. Como o de Adelina Pires, que cuidou do espaço e ali viveu - numa habitação dentro dos muros do cemitério - até à data da morte, em 2010, aos 100 anos. É o filho, que ali cresceu, que aponta com orgulho a inscrição que agraciou a guardiã de décadas do cemitério: MBE, Membro da Ordem do Império Britânico.

E Duarte Pacheco entra na história...

É difícil encontrar em Lisboa um canto que não tenha, por alguma via, a mão de Duarte Pacheco pelo meio e o Cemitério Inglês não é exceção. Até aos anos 50 chegava quase às portas do Jardim da Estrela, mas acabou por perder espaço para aquela que é agora a rua de São Jorge, que entretanto ganhara relevância como ligação entre as avenidas Álvares Cabral e Infante Santo. O processo vem do tempo em que Duarte Pacheco esteve à frente da câmara da cidade, no final da década de 30, mas concretizou-se mais de dez anos depois, obrigando à deslocação de cerca de 50 sepulturas e levando o cemitério para os seus limites atuais.

Fechado em tempos de pandemia, é possível visitar o cemitério tocando à campainha, embora fique dependente da disponibilidade das poucas pessoas que ali trabalham. Nos dois últimos fins de semana de maio, o espaço estará aberto ao público no âmbito da iniciativa Jardins Abertos.

susete.francisco@dn.pt

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