Dos Abba ao Nobel. O fascínio que veio do frio sueco

Altos, louros e falantes de uma língua que poucos compreendem, os suecos foram, durante séculos, um mistério para os povos europeus mais a sul. O gelo derreteu, no entanto, e hoje não são poucos os trunfos que a Suécia tem para nos seduzir.

Abba

Na primavera de 1974, tomaram a Eurovisão de assalto com a canção Waterloo, que lhes valeu a vitória incontestada após muitos twelve points do júri internacional. Agnetha Fältskog, Björn Ulvaeus, Benny Andersson e Anni-Frid Lyngstad tornar-se-iam, nos anos seguintes, a primeira banda sueca, e uma das poucas não anglo-americanas, a conquistar os tops e as pistas de dança de vários continentais. Com a separação do grupo em 1982, começava a "segunda vida" dos Abba, que dura até hoje, como o atesta o sucesso fulgurante do musical Mamma Mia!, quer na versão teatral quer na cinematográfica, com dois filmes que puseram Meryl Streep, Colin Firth, Pierce Brosnan e Amanda Seyfried, entre outros, a cantar e a dançar os seus hits como se não houvesse amanhã. Nem mesmo Madonna resistiu a citá-los expressamente com um sample de Gimme! Gimme! Gimme! na canção Hung Up.

Bernadottes

Carlos Gustavo, rei da Suécia desde 1973, é o chefe de uma dinastia europeia relativamente tranquila, sobretudo se a compararmos com a Windsor da Grã-Bretanha, a Grimaldi do Mónaco ou a Bourbon de Espanha. Mas nem sempre foi assim. Como o nome da família insinua, a sua origem é francesa, já que o seu fundador foi um marechal francês, ao serviço de Napoleão, Jean Baptiste Bernadotte. Tudo remonta ao princípio do século XIX, quando, na sequência da perda da Finlândia que constituíra parte do território sueco durante séculos, houve no país um golpe de Estado contra o rei Gustavo Adolfo IV. Com o poder do imperador dos franceses, Napoleão, a expandir-se por toda a Europa, o Parlamento sueco decidiu nomear um rei que este visse com bons olhos. Assim, a 21 de agosto de 1810, Jean Baptiste, nascido na cidade de Pau, no sul da França, tornou-se herdeiro presuntivo do trono sueco. Nessa qualidade, assumiu o nome de Carlos João, assegurando uma união forçada entre a Suécia e a Noruega na campanha contra aquele país em 1814 (os dois países permaneceriam unidos até 1905). Reza a lenda que a nova majestade tinha tatuada no braço a inscrição "Morte aos Reis", feita muitos anos antes, na euforia da Revolução Francesa, o que se tornava um embaraço quando os médicos lhe levantavam a manga para a tradicional sangria.


Ingmar Bergman

O mais famoso dos cineastas suecos, Ingmar Bergman, nasceu em Upsala, em 1918, filho de um austero pastor luterano. Foi diretor do Teatro Municipal de Helsinborg (1944-1945), depois encenador nos teatros de Gotemburgo (1946-1949), de Malmoe (1953-1960) e, finalmente, no Teatro Dramático de Estocolmo, o teatro nacional sueco, do qual acabaria por se tornar diretor, entre 1963 e 1966. Sem nunca abandonar o teatro, filma obras como A Prisão (1948-1949), Monika ou o Desejo (1952), A Noite dos Feirantes (1953), Sorrisos de Uma Noite de Verão (1955), que obtém o Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes em 1956, O Sétimo Selo (1956), O Rosto (1958), Através do Espelho (1961), Os Comungantes (1961-1962), O Silêncio (1962), Persona (1965), Gritos e Murmúrios (1971). Com crescente reconhecimento internacional, roda O Ovo da Serpente (1976), Da Vida das Marionetas (1979-1980), Sonata de Outono (1977) e Fanny e Alexandre (1981-1982), com o qual ganhou quatro Óscares de Hollywood, o que é pouco comum num filme não falado em inglês. Em 1987 publica um ensaio autobiográfico Lanterna Mágica, seguido, em 1990, de uma análise dos seus filmes, um livro a que deu o título Imagens. Morreu em 2007.


Estado social

No princípio do século XX, os suecos eram uma população paupérrima, que contribuía abundantemente para os contingentes de europeus que emigravam para América, em busca de alguma prosperidade. Um século depois, o panorama mudara radicalmente, e para o queimar de tantas etapas muito contribuiu o Estado social nórdico, constituído nos anos do pós-Segunda Guerra Mundial. Os seus princípios são a universalização do direito ao bem-estar, assente em pilares como a saúde, a educação ou a habitação, proporcionados pelo Estado a todos os cidadãos.


Futebol

Em 1982, os benfiquistas olharam com ceticismo a contratação de um treinador sueco, Sven-Goran Eriksson, então com 34 anos. Até aí, os portugueses encaravam o futebol daquele país nórdico como coisa "tosca". Mas não tardaram a ter uma surpresa: Eriksson, que, na verdade, já conquistara uma Taça UEFA para o Gotemburgo, conquistou a dobradinha (campeonato e Taça de Portugal) logo na primeira época e, mais importante, levou o Benfica pela primeira vez a uma Taça Europeia desde os anos 60: a UEFA, que perdeu para os belgas do Anderlecht. Com Eriksson, foi aberto o caminho para a chegada a Portugal de futebolistas seus compatriotas, o primeiro dos quais foi Glenn Stromberg, seguido de Magnusson, Thern e Schwarz. A nível internacional, a Suécia conquistaria dois terceiros lugares (no Campeonato da Europa de 1992 e, dois anos depois, no Campeonato do Mundo).


Louras do cinema

Muito antes que Anita Ekberg (n. 1931) se eternizasse ao lado de Marcello Mastroianni na romana Fontana de Trevi, já a sua compatriota Greta Garbo (1905-1990) conquistara os corações de milhões dos cinéfilos. De beleza esfíngica, brilhou ainda no cinema mudo, mas, ao contrário de tantos outros atores (como o seu namorado, John Gilbert), o sonoro só lhe veio aumentar a popularidade, quando a MGM, numa certeira jogada de marketing, anunciou no cartaz de Ninotchka: "Garbo fala!" Retirou-se em 1941, cedendo o "cetro" a outra loura sueca, Ingrid Bergman (1915-1982). Ganhou três Óscares da Academia e, graças a filmes como Casablanca, Stromboli ou Viagem a Itália, tornou-se uma das "imortais" do cinema mundial.


Ikea

Quem nunca foi à loja sueca mais conhecida em todo o mundo que martele um dedo. A Ikea, com a sua política de vender a preços baixos mobiliário com design moderno e atrativo, conquistou o mundo e está hoje presente em dezenas de países (em Portugal desde 2004). Tudo começou em 1943, quando o muito jovem Ingvar Kamprad (1926-2018) começou a vender por catálogo pequenas utilidades domésticas. Cinco anos depois, quando a Segunda Guerra Mundial já terminara, passou à comercialização de móveis, um setor de mercado que revolucionaria, em 1956, ao introduzir o sistema em que os clientes compram os produtos desmontados. O sucesso não poupa a Ikea a polémicas que vão muito para além das nossas pragas quando não compreendemos as instruções. Já idoso, o fundador foi confrontado com as acusações de que, na adolescência, colaborara com os nazis. Não o negou e escreveu uma carta a pedir desculpa aos seus funcionários por aquilo que qualificou ser "um erro da juventude". Mais recentemente, várias organizações ambientais acusaram a empresa de comprar madeira (é o maior consumidor do mundo) ilegalmente, nomeadamente a russos, ucranianos e chineses.


Neutralidade

Sem se envolver em qualquer conflito internacional desde as guerras napoleónicas no princípio do século XIX, a Suécia mantém hoje a neutralidade mais antiga do mundo. Um feito digno de nota sobretudo na Segunda Guerra Mundial, quando os seus vizinhos se viram arrastados para o conflito, e mais tarde em plena Guerra Fria, quando resistiu, com êxito, a integrar qualquer dos grandes blocos militares, a NATO e o Pacto de Varsóvia.


Prémio Nobel

Frequentemente polémicos, no entanto aguardados ano após ano com grande expectativa. O Prémio Nobel foi fundado por Alfred Nobel, químico, engenheiro e industrial sueco (1833-1896) que doou a sua fortuna à fundação que tem o seu nome, definindo como objetivo de distinguir personalidades importantes em diversas áreas, independentemente de critérios como a nacionalidade, a raça, a religião e a ideologia. Os prémio são atribuídos àqueles que durante o ano anterior tenham prestado um valioso contributo à humanidade nos setores da Física, da Química, da Fisiologia e Medicina, da Literatura, da Paz e da Economia.

Policial

Os anglo-saxónicos chamam-lhe scandi noir, assim definindo tanto a literatura policial que se escreve nos países escandinavos como as séries de televisão e os filmes do género, várias deles, aliás, adaptados desses livros. Nesse género, avultam facilmente os autores suecos, como Stieg Larsson, Henning Mankell, Lars Kepler (pseudónimo da dupla Alexander e Alexandra Ahndoril) e Camilla Lackberg. Todos estão traduzidos em português.


August Strindberg

Nascido em Estocolmo, August Strindberg (1849-1912) protagonizou, segundo Tennessee Williams, Edward Albee ou Eugene O'Neill, a maior revolução operada no teatro moderno antes de Bertold Brecht. Autor prolífico, escreveu mais de 60 peças, 30 obras de ficção, história, análise cultural, autobiografia e política. Entre elas, clássicos milhares de vezes levados à cena como A Menina Júlia, O Pelicano ou A Sonata dos Espectros.


Vikings

Popularizados pelos elmos de chifres, os vikings que, na Alta Idade Média, ocuparam os territórios de Suécia, Dinamarca e Noruega têm sido objeto de diversas sagas literárias e televisivas. Com uma mitologia rica, que inspiraria criadores por muitos séculos (como o compositor Richard Wagner, no século XIX), foram comerciantes e guerreiros determinados. Expandiram-se para sul e assentaram colónias importantes na Escócia, na Alemanha, no norte da Inglaterra e até chegaram à América do Norte. Guilherme, o Conquistador, coroado primeiro rei de Inglaterra no dia de Natal de 1066, era um seu descendente.


Volvo

Mesmo que a marca já não seja sueca (maioritariamente chinesa desde 2010), quando pensamos num automóvel daquele país é um Volvo que nos ocorre. Um símbolo de estabilidade e segurança. A marca começou a trabalhar em 1927, em Gotemburgo, fundada por Assar Gabrielsson e Gustaf Larson, com o objetivo de criar um automóvel adequado às condições particulares do clima e do pavimento do seu país. Ao longo das décadas, a Volvo, que também produz camiões, foi a responsável pela introdução de inovações importantes como o cinto de segurança de três pontos, em 1959.


Raoul Wallenberg

"Justo entre as nações", considerou-o o Governo de Israel, uma das muitas honras póstumas recebidas pelo arquiteto, empresário e diplomata sueco Raoul Wallenberg (nascido em 1912 e falecido, presumivelmente, em 1947). Ao longo da Segunda Guerra Mundial. aproveitando o ensejo de ter negócios com a Hungria, Wallenberg salvou milhares de judeus daquele país da morte certa num campo de extermínio (calcula-se em cem mil). Tal heroísmo não o impediu de ser detido em janeiro de 1945 pelo Exército Vermelho, durante o cerco soviético a Budapeste. A partir daí, perdeu-se-lhe o rasto e as razões da sua prisão e presumível execução continua a ser um dos grandes mistérios da Segunda Guerra Mundial e do clima de guerra fria que lhe sucedeu.

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