Portugueses organizam envio de bens de primeira necessidade e milhares de euros para Moçambique

Instituições públicas, nacionais e locais, organizações não governamentais (ONG), empresas e clubes organizam-se para apoiar as vítimas do ciclone Idai, em Moçambique. Primeiro, há que perceber qual é a dimensão da catástrofe.

Três elementos da Assistência Médica Internacional (AMI) partem nesta quinta-feira de Lisboa, às 10.00, para Moçambique: José Luís Nobre, administrador, Pedro Ponteiro, da logística, e Ângela Pedroso, do departamento internacional.

"É uma equipa exploratória, para ver o que é preciso e, assim, planear o apoio. É assim que funcionamos, vamos ao terreno para sabermos como e onde devemos apoiar", explicou ao DN fonte da organização. Levam dez mil euros, o que pensam ser suficiente para comprar produtos e materiais em Moçambique para levar para as zonas afetadas pelo ciclone Idai, onde esperam chegar na sexta-feira.

O presidente moçambicano, Filipe Nyusi, confirmou nesta terça-feira 200 vítimas mortais, mas estima que possam chegar às mil. E 600 mil pessoas foram afetadas pelas inundações após a passagem do Idai, incluindo 260 mil crianças. Preveem-se chuvas até ao fim de semana e, só a partir dessa data, se fará o balanço final.

Apoios seguem para o terreno

A AMI vai fazer o diagnóstico no local para enviar uma segunda equipa, esta com elementos mais especializados e para atuar ao nível das necessidades de alimentação, água potável, abrigos e saúde. Esta é a perspetiva das organizações não governamentais (ONG) que estão a solidarizar-se com a população moçambicana, nomeadamente quem já está nas zonas afetadas, como a Cáritas e a Oikos. E que indicam uma conta bancária para o envio de donativos.

Essa solidariedade foi enaltecida, nesta quarta-feira à noite, por Augusto Santos Silva, em conferência de imprensa: em Portugal, "estamos a coordenar um movimento muito generoso da parte das ONG com o Instituto Camões, várias têm já recursos em Moçambique e é a forma mais eficaz de chegar depressa às zonas atingidas", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros. Realçou o "contributo das várias instituições, misericórdias, autarquias e outros organismos da sociedade civil portuguesa".

Ontem, pelas 22.30, seguiu um C130 com um contingente das Forças Armadas de Direção Rápida e outro está a ser preparado para avançar nas próximas horas. O ministro informou, também, que aboliu o pagamento de emolumentos pelos serviços prestados pela embaixada e consulado portugueses em Moçambique nos próximos 90 dias, uma "vez que os pagamentos são uma das dificuldades".

Augusto Santos Silva disse que o principal objetivo do envio dos dois C130 é a busca e salvamento das vítimas do ciclone Idai, que atingiu na quinta-feira à noite e na sexta o país. Acrescentou que, até ao momento, não foram encontradas vítimas mortais ou feridos de nacionalidade portuguesa nas operações de identificação, que começaram logo no domingo por elementos que partiram de Maputo.

Quanto aos 30 portugueses desaparecidos, o ministro sublinhou que são pessoas que ainda não se conseguiram contactar.

O avião C130 leva a bordo 35 militares das Forças Armadas, uma equipa cinotécnica da GNR, com botes preparados para o resgate, constituindo um grupo coordenado pela Autoridade Nacional de Proteção Civil. São fuzileiros que, nas cheias de 2000, estiveram a dar apoio à população na mesma zona, em operações de busca, identificação e salvamento.

Uma equipa médica segue no mesmo aparelho, com instrumentos e equipamentos de emergência, como camas, tendas, medicamentos e material de enfermagem.

Um oficial de engenharia do Exército vai identificar as necessidades urgentes a nível das comunicações.

Um segundo C130 está a ser preparado para partir nas próximas horas para Moçambique, em que seguirá também uma equipa do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e elementos das Águas de Portugal para ajudar à reposição de água potável.

Apoio humanitário e psicológico

Diana Araújo, coordenadora da equipa de Restabelecimento de Laços Familiares da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), seguiu viagem nesta quarta-feira para reforçar a equipa que está habitualmente em Moçambique. Disponibilizaram cinco mil euros do fundo de emergência, tendo recebido a colaboração do bastonário da Ordem dos Médicos, da TAP, do Continente e da Jerónimo Martins. A companhia aérea acordou o transporte de donativos por 0,40 cêntimos o quilo.

A CVP organiza uma campanha de fundos, necessitando de 8,8 milhões de euros para assistir diretamente 75 mil pessoas, disse o presidente, Francisco George.

A Cáritas está a apoiar através da Cáritas Moçambique e comprometeu-se a doar 25 mil euros. Também os Médicos sem Fronteiras estão no terreno, tendo manifestado grande preocupação pelos sobreviventes que correm riscos de ficar doentes, uma vez que não têm água potável e há dificuldade de acesso aos hospitais e centros de saúde em condições.

A Oikos trabalha na Beira em coordenação com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades moçambicano, com as Nações Unidas e parceiros humanitários. Identificou um centro de apoio e abrigo, onde será feito o armazenamento e distribuição de bens às famílias afetadas no distrito da Beira, para começar a entregar kits de bens de primeira necessidade, materiais para a construção/reparação de abrigos e para água e saneamento.

Cidades geminadas

As câmaras de Sintra e do Porto, municípios geminados da Beira, disponibilizaram 120 mil euros e cem mil euros, respetivamente, para a cidade moçambicana, além de equipamentos de logística, bens e equipas de socorro.

Sintra irá apoiar através da Cruz Vermelha Portuguesa e o Porto, em colaboração com a Health4Moz, ONG com sede na capital do norte, prestará assistência humanitária a Moçambique, nomeadamente a nível da saúde. O objetivo é ajudar a reconstruir o hospital da Beira, bastante danificado.

A Câmara de Lisboa atribuiu uma verba de 120 mil, além de promover uma campanha de recolha de alimentos e produtos, cujas entregues devem ser feitas nas instalações do Regimento de Sapadores Bombeiros. Vai, também, disponibilizar equipas.

O Benfica ofereceu apoio às autoridades moçambicanas na recuperação das zonas afetadas. E o Sporting vai promover uma recolha de alimentos no dérbi com o Benfica para a Taça de Portugal, a 3 de abril.

O secretário de Estado das Comunidades espera chegar nesta quinta-feira à Beira. O objetivo é fazer "um diagnóstico rigoroso da situação" e ver como estão os portugueses. Ao fim do dia desta quarta-feira, já em Maputo, disse que chegaram à embaixada portuguesa 30 pedidos de localização.

Conta com o apoio de cem portugueses, que se mobilizaram através das redes sociais, particularmente o WhatsApp. A informação foi dada após um encontro com a embaixadora de Portugal em Maputo, Maria Amélia Paiva, que coordena a angariação de bens a partir da capital do país.

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