Estádios sem adeptos. Vai-se o medo cénico dos grandes palcos, ganha-se atrevimento

Jorge Costa, ex-jogador do FC Porto, e um especialista da Universidade de Coimbra dizem que só a ausência de público não explica a fraca qualidade dos jogos de futebol.

A qualidade do futebol apresentado pelos candidatos ao título da I Liga tem sido alvo de uma análise microscópica por especialistas mais ou menos encartados. FC Porto e Benfica seguem empatados na frente (vantagem no confronto direto para os dragões desfará eventual igualdade pontual no final), levam grande avanço - de 15 pontos - sobre os perseguidores mais próximos que discutem o 3.º lugar (Sporting, Sp. Braga e Famalicão), mas não apresentam qualidade. Ou seja, não há jogo bonito, ou sequer um futebol que empolgue os mais fanáticos. Poderá esta falta de qualidade estar relacionada com o facto de os jogos estarem a ser realizados sem público nas bancadas, uma consequência decorrente da pandemia de covid-19 que levou à interrupção do futebol durante quase três meses, mais concretamente 87 dias?

"Em determinadas situações, faz sentido falar-se da influência da ausência de adeptos nas bancadas", defende ao DN Jorge Costa, ex-capitão do FC Porto, internacional português e treinador à espera de resolver a vida (recentemente terminou o contrato de dois anos com o Mumbai City, da Índia).

"Não acredito que um jogador se empenhe mais ou menos se estiver perante 50 mil, dez mil, mil espectadores ou ninguém. Se se deixa contaminar [pela ausência de público], ao mesmo tempo está a ser visto por milhões de pessoas através da televisão...", enquadra ao DN o vice-reitor da Universidade de Coimbra (UC), com pelouro do desporto e qualidade, e que desde 2001 até ao ano passado foi diretor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da UC (FCDEF). António Figueiredo diz mais: "A menor qualidade tem que ver com os maus resultados do FC Porto e do Benfica, porque o futebol está muito dicotomizado."

Público não deixa relaxar

Professor associado da FCDEF, e com um largo percurso de investigação na área do treino, António Figueiredo relativiza: "Ou seja, é muito o interpretativo, especulativo [associar-se o baixo rendimento desportivo à ausência de adeptos nas bancadas]. Há um decréscimo da qualidade de todos os intervenientes devido à forma atípica de como se está a jogar, com a interrupção de quase três meses e duas pré-épocas (nem é atípico, é inovador)."

Conhecedor do jogo por dentro e por fora, como jogador, treinador e adepto, Jorge Costa está em sintonia num aspeto. "O treino, nem é o jogo, é a coisa que mais nos dá prazer na vida. Não consigo conceber a falta de motivação de um jogador. E não é porque ganham muito ou pouco dinheiro. Há malta que paga para jogar, o dinheiro não pode ser desculpa", diz o agora técnico.

No entanto... "concordo que em determinadas situações faz diferença não haver adeptos nas bancadas. Pode parecer um pouco absurdo e contraditório com o que disse antes, mas faz sentido sobretudo nos jogos dos grandes em casa. Porque há momentos, e agora puxando a cassete atrás para os tempos de jogador, em que o público nos deu força, não nos deixava entrar em ritmo de treino ou relaxar. A força da motivação não é menosprezável. Tantas vezes o jogo estava a correr mal, os adeptos começavam a puxar e nós íamos atrás", recorda sobre o ambiente competitivo nos grandes palcos como "as Antas ou o Dragão".

Mas há mais: "As equipas pequenas sentem quando jogam perante 60 mil pessoas. Tremem, tremem." Os dados desde que a Liga foi retomada, no que à luta pelo título diz respeito, são contraditórios: o FC Porto não ganhou os dois jogos fora (1-2 em Famalicão e 0-0 nas Aves) e venceu em casa (1-0 sobre o Marítimo); o Benfica não ganhou em casa (0-0 frente ao Tondela) e fora ganhou (1-2 em Vila do Conde) e empatou (2-2 em Portimão).

Mas antes da interrupção devido à pandemia de covid-19, o campeão só ganhara um jogo em cinco, e fora (0-1 sobre o Gil Vicente), tendo iniciado uma crise desportiva com a derrota no Dragão (2-3, 8 de fevereiro) de um total de oito partidas só com esse triunfo (juntando-lhe a eliminação pelo Shakhtar na Liga Europa, com um empate e uma derrota). E cometeu a proeza de empatar cinco jogos seguidos: começou com os ucranianos e só terminou em Portimão porque venceu o Rio Ave na quarta-feira.

O FC Porto estava melhor, mas nem por isso nas nuvens. Nessa mesma série de 11 jogos (oito para o campeonato, um para a Taça e dois perdidos com o Bayer Leverkusen, que ditou o afastamento da Liga Europa), venceu seis (cinco na Liga e um na Taça), perdeu três (um na Liga e os dois europeus) e empatou dois (ambos na Liga). Neste período, jogou seis vezes no Dragão (só uma à porta fechada) e foi quase implacável: desde que bateu o rival há quatro meses e meio, cá dentro só o Rio Ave (1-1) não saiu derrotado. E houve a derrota com o Bayer. Fora, a conversa é outra: duas vitórias (em Guimarães e nos Açores, para o campeonato), duas derrotas (Bayer e Famalicão) e dois empates (receção ao Rio Ave e visita ao Aves, ambos para a I Liga).

"Dos três jogos que o FC Porto fez após o interregno, o que ganhou foi aquele em que esteve pior, frente ao Marítimo. Jogou melhor em Famalicão e nas Aves. Mas falhou na eficácia, que já tem falhado noutros momentos da época. Está a ser ineficaz", analisa Jorge Costa.

E esclarece: "A falta de adeptos explica uma parte, mas nem de perto serve de justificação. É preciso recordar que as duas equipas estão sob muita pressão e têm falhado constantemente, e não é de agora. O Benfica estava mal antes da paragem e depois da derrota no Dragão quebrou muito."

Ou como diz António Figueiredo: "Houve um decréscimo da prontidão imediata [resposta às dificuldades] das equipas, sendo certo que as que estão no topo, proporcionalmente, baixaram mais."

Falta "resposta clara" que explique por que razão não se abre os estádios

Os adeptos garantem que não querem uma abertura forçada dos estádios, com mais ou menos limitações, mas estão intrigados com a ausência de uma resposta com evidência técnica e científica que justifique que se desconfine outros setores da sociedade e não o acesso de alguns adeptos aos jogos da I Liga. "Nós até defendemos que nem se deveria ter retomada a competição. Mas recomeçou, o cenário foi evoluindo, houve um espetáculo num recinto fechado para cerca de duas mil pessoas, Itália e Espanha começam a falar na hipótese de abrir as bancadas. Mas nós não temos cenários de qualquer abertura, nem há uma resposta clara das autoridades que explique por que não se podem abrir", explica Martha Gens, presidente da Associação Portuguesa de Defesa dos Adeptos (APDA).

Os protestos apontam questões de falta de equidade, sobretudo depois de Deixem o Pimba em Paz, de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, ter levado a 1 de junho duas mil pessoas ao Campo Pequeno (capacidade máxima de nove mil lugares - ou seja, 22,2% da lotação; representa cerca de 11 100 adeptos no Dragão ou perto de 14 600 na Luz). "Começam a desconfinar setores e, apesar de termos uma boa relação com a Liga Portugal, em abril fizemos valer esta nossa opinião, mas valores maiores se levantaram. Os clubes colocaram-se numa posição em que não conseguem sobreviver. Andaram a viver acima das possibilidades e precisam do dinheiro dos direitos televisivos", critica Martha Gens.

A advogada diz que as atuais "conversas com a Liga não abrangem abertura parcial ou quaisquer regras restritivas". "Desde o primeiro dia desta pandemia que tentámos ser das pessoas mais conscientes, pondo a segurança em primeiro lugar", recupera a presidente da APDA. E explica o ponto de vista dos adeptos (extensível a dezenas de associações que defendem os direitos dos consumidores de futebol ao vivo por toda a Europa). "Não queremos prejudicar os direitos dos outros, queremos que os nossos também sejam respeitados", conclui.

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