Premium Os vilões, justiceiros de todos nós

A história de Pablo Escobar voltou ao cinema (mas também alimenta roteiros turísticos em Medellín), A Casa de Papel e Narcos regressam em 2019 com novas temporadas. Não nos cansamos dos vilões - os reais e os da ficção. Que fascínio é este?

Mata, corrompe, é traficante de droga à escala global, não olha a meios para atingir os fins. O mundo já sabia a história de Pablo Escobar mas as três temporadas da série Narcos foram um sucesso. A Netflix não revela dados de audiências mas confirma que a série está entre as mais vistas em Portugal através daquela plataforma de streaming. Para o ano, há mais. E, neste verão, o vilão colombiano chegou aos cinemas em Amar Pablo, Odiar Escobar.

Para Margarida Vieitez, a popularidade destas séries ou filmes justifica-se pelo facto de muitos desses vilões surgirem "como justiceiros desempenhando um papel de reposição da justiça". A mediadora familiar e de conflitos explica ainda que estas personagens geram identificação "porque nos são dadas a conhecer características da sua personalidade, como as suas fragilidades e vulnerabilidades, gerando-se uma espécie de simpatia coletiva no sentido de que eles, apesar de fazerem coisas erradas, também têm um lado bom".

O psicólogo forense Rui Abrunhosa Gonçalves diz que "no imaginário popular a capacidade que um indivíduo demonstra para ludibriar o poder exerceu sempre fascínio", mas "desde que tal não nos afete diretamente". O professor da Universidade do Minho lembra um caso recente que se passou em Portugal: "Um homicida conjugal (Manuel 'Palito') que andou fugido vários dias à GNR foi aplaudido, quando foi presente a tribunal, pela multidão que aguardava cá fora."

O mais recente filme sobre o barão da droga colombiano, Amar Pablo, Odiar Escobar (em exibição), volta à história, baseada em factos reais, desta vez contada na ótica da jornalista Virgínia Vallejo (Penelope Cruz), que se tornou sua amante.

Margarida Vieitez, que ainda não viu o filme, lembra que "algumas mulheres apresentam um padrão relacional no sentido de escolherem para companheiros vilões ou bad boys, sem perceberem porque o fazem". Também na série A Casa de Papel, outro sucesso da Netflix, a inspetora da polícia encarregada de negociar a rendição dos reféns acaba por se apaixonar pelo Professor, o cérebro do assalto à Casa da Moeda.

Margarida Vieitez não encontra dificuldade em estabelecer analogias destes comportamentos com homens e mulheres na vida real. "Alguns deles atuam como vilões com elas, fazendo-as acreditar que as amam incondicionalmente, que lhes resolvem todos os problemas (uma espécie de justiceiros e redentores) e que a chave da sua felicidade se encontra nas suas mãos. Ao mesmo tempo têm comportamentos inaceitáveis, sofrem dos mais variados transtornos mentais, tem várias adições, usam de violência verbal, psicológica e física... Também aqui o perigo começa quando essas mulheres começam a identificar-se com estes comportamentos, a considerá-los normais e a aceitá-los", alerta a especialista.

Rui Abrunhosa Gonçalves salienta o carácter destes indivíduos: "Muitos deles têm personalidades carismáticas, em muito relacionadas com as suas características psicopáticas de charme e sedução, e isso contribui para uma certa aura de 'herói romântico'."

Falsos Robins dos Bosques

Escobar construiu casas para os pobres, os assaltantes de A Casa de Papel fabricaram o dinheiro que iam roubar, numa clara mensagem política. Mas serão tão puras as suas intenções?

"É verdade, muitos destes 'vilões' gostam de exibir uma aura de Robin dos Bosques. Só é pena que para isso matem e pilhem indiscriminadamente e depois utilizem como distorção cognitiva essa explicação filantrópica. Porém, a resposta é muito mais simples: quando se utiliza essa estratégia estamos sim a conquistar aliados para nos avisarem se a polícia está a chegar para fazer uma rusga. São no fundo estratégias inteligentes e calculistas que servem para proteger os criminosos e que estes utilizam de maneira calculista, ludibriando assim a polícia. São equiparáveis a corromper polícias para dar informações sobre atividades policiais utilizando o conhecimento de alguma fragilidade que estes possuam", defende Rui Abrunhosa Gonçalves.

Já Margarida Vieitez diz que "em certa medida existe identificação também por essa via. Essas figuras justiceiras fazem aquilo que muitos gostariam de fazer e não fazem. O lado humanitário de algumas dessas personagens cativa e exerce forte influência no que a generalidade das pessoas pensa, e de certa forma desculpabiliza as suas ações erradas".

Turismo sim, mas com informação

Mas este é um fascínio que vai mais longe do que consumir livros, filmes ou séries. Em Medellín, na Colômbia, fazem-se visitas guiadas aos sítios de Pablo Escobar, como a casa, o cemitério, ou La Catedral, a prisão que construiu para si próprio, no já chamado narcoturismo.

A mediadora familiar considera que é "natural as pessoas terem curiosidade por estas misteriosas histórias de vida".

Já Rui Abrunhosa Gonçalves diz que "são sítios que exercem sempre um fascínio histórico. São comparáveis, se bem que noutras dimensões, a locais como a prisão de Alcatraz ou os campos de concentração nazis".

O psicólogo forense alerta: «Acho que o importante é que as visitas a estes locais não sirvam para distorcer a história e sejam acompanhadas de explicações que enquadrem o que ali se passou como atentados à justiça e aos direitos humanos."

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