Bolsonaro, curiosidade ou fúria

Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.

Porque aconteceu? Quando aconteceu? O estudo profundo desta fase da vida do Brasil estará em livros de história, aqui fica apenas uma impressão sem pretensões.

Comecemos pelo fim: desses 33% da pesquisa BTG/FSB, só uns dois terços devem corresponder a bolsonaristas convictos. O outro terço resultará de convertidos pela facada de Juiz de Fora e de pragmáticos de direita que, ao verem Geraldo Alckmin (PSDB) encolher nas sondagens e o liberal João Amoêdo (Novo) não sair do seu nicho eleitoral, preferem o voto radical à perspetiva de rever o PT, que desperta ódios profundos, no poder.

Excluído o terço antipetista, os restantes veem em Bolsonaro, salvo a imoralidade de se beneficiar de um auxílio de moradia de que não precisa e de dar emprego fantasma a uma funcionária, um dos raros deputados à margem dos esquemas de corrupção que afetaram todos os partidos na Operação Lava-Jato - do PT ao seu suposto reverso, o PSDB, passando pelas forças putrefactas que integram o "blocão", que cai para onde lhe der jeito. Para eles, Bolsonaro é, pois, à luz de tudo o que a Lava-Jato investigou, o mais honesto.

Além disso, tem como prioridade a segurança, num país onde, apesar da violência diminuir dado a dado, número a número ao longo das últimas duas décadas, a perceção dela aumenta - primeiro, porque as redes sociais a ampliam e, depois, porque a TV Globo, que a noticiava com sobriedade, ao descobrir o seu potencial de audiência passou a incluí-la mais e mais nos seus jornais. Acresce que, em paralelo às redes sociais e à líder televisiva, também o cinema, através da estética dos westerns favela, trouxe a violência à tona: os dois filmes Tropa de Elite, que glamorizam a personagem capitão Nascimento na luta contra o crime, estão entre os mais vistos de sempre no país. Para os seus eleitores, Bolsonaro, que também é capitão (há 533 militares a votos, aliás), representa, pois, à luz de tudo o que se publica, o papel de justiceiro.

Por falar em cinema, só há registo oficial de dois filmes mais vistos do que o Tropa de Elite 2: ambos evangélicos. O crescimento desse segmento do cristianismo, como contraponto a um avanço da agenda liberal nos costumes nos governos PT, sustenta-se em correntes importadas do neopentecostalismo tosco americano, como "a teoria da prosperidade", que culpa o pobre, e só ele, pela sua pobreza, e o "triunfalismo", que deseja impor o cristianismo a todos os outros credos, nomeadamente, no caso brasileiro, a religiões africanas. Teses que estimulam a ascensão de um defensor "dos cidadãos de bem" e "da defesa da família", bordões que se convertem facilmente nos assustadores slogans "direitos humanos para humanos direitos" e "bandido bom é bandido morto". Para quem o defende, Bolsonaro é, pois, à luz dos novos paradigmas religiosos (há 568 pastores e afins a votos, aliás), o presidenciável com mais moral.

E um candidato supostamente honesto, justiceiro e moralista é tudo aquilo por que suspira uma respeitável parcela do eleitorado, instigada ainda pela crise económica (o dólar altíssimo nem permite viajar à Disney World, a meca de uma certa classe média) e por doses generosas de ignorância (considerar Hitler de esquerda, por exemplo, é um clássico dos bolsonaristas).

Para ela, os direitos das minorias são vistos não como conquistas do mundo civilizado, mas como pieguices. Para ela, os programas sociais que retiraram milhões da miséria não são a compensação por dívidas históricas de séculos, mas expedientes para ganhar o voto de vagabundos. Para ela, a tortura praticada durante o regime militar não era uma perversidade medieval, mas a forma correta de lidar com quem ousava lutar em vez de ficar, como os escravos de antigamente, quietinho e caladinho.

O Brasil que Bolsonaro representa existe - sempre existiu. Agora, por força das circunstâncias descritas, tem um representante competitivo. Quem não gosta desse Brasil deve olhá-lo com curiosidade e não com fúria. É melhor deixar esse sentimento destrutivo só do lado de lá.

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