Shirley

O mais recente acrescento à vexante categoria "filmes sobre escritores", Shirley (disponível para alugar na Amazon Prime) não perde muito tempo antes de abordar directamente o problema central da vexante categoria "filmes sobre escritores". Passam apenas vinte minutos até ouvirmos pela primeira vez o som inconfundível de uma máquina de escrever a ser martelada. Uma personagem aproxima-se com alguma hesitação e observa, a uma distância respeitosa, a escritora à sua secretária. A máquina é martelada mais um pouco. Uma página é lida e rasgada. Um suspiro é emitido. Um cigarro é incinerado. "Queres saber o que é que faz um escritor? Absolutamente nada."

A resposta - uma de muitas variações sobre um célebre verso de W. H. Auden - não define a natureza do problema, mas anda lá perto. O que um escritor faz é escrever, e "escrever" é (juntamente com "dormir") uma das actividades menos propícias à dramatização visual, razão pela qual qualquer filme sobre escritores está condenado a ser um filme sobre aquilo que os escritores fazem quando não estão a escrever, elementos que muitas vezes constituem a parte mais berrante da sua reputação. A melhor piada sobre isto foi feita (de forma possivelmente involuntária) pelo filme Limitless (2011). Um escritor afligido por um terrível bloqueio consegue acesso ilícito a uns comprimidos experimentais que aumentam exponencialmente a capacidade intelectual. Com o cérebro devidamente recauchutado, despacha em poucos minutos o livro que estava a escrever, e o filme aproveita para o desembaraçar de mais escrita: o resto do enredo torna-o especulador na bolsa e mafioso em part-time, e a cena inicial de alguém sentado com os ombros descaídos em frente a uma folha em branco é substituída por uma sucessão de festas e tiroteios.

Como qualquer filme sobre escritores, Shirley também não é sobre pessoas que escrevem; é sobre pessoas que bebem, fumam, discutem e alucinam. O filme baseia-se no romance com o mesmo nome de Susan Scarf Merrell, que por sua vez era baseado em pouco mais do que uma fantasia sobre alguns pormenores biográficos avulsos de Shirley Jackson. A história - tanto do filme como do livro - partilha outras fantasias comuns: a ideia de "escrita" como expressão não adulterada de a) uma experiência pessoal, ou b) uma "visão" transcendente, mas definida, que é preciso capturar a todo o custo; e uma ligação programática entre criatividade (esse profundo mistério público) e ter alguns parafusos a menos.

No geral, Shirley abdica dos tradicionais protocolos biográficos (os quatro filhos de Shirley Jackson, por exemplo, são implacavelmente apagados) e tenta pertencer a uma subcategoria ligeiramente diferente, inserindo a figura literária em questão no tipo de situação e atmosfera que costumam caracterizar nas suas ficções. (Wim Wenders e Steven Soderbergh fizeram o mesmo, com resultados igualmente desiguais, em Hammet e Kafka.) Nesse aspecto, é um exercício superficialmente bem-sucedido. Uma mão-cheia de sequências dramatiza com alguma competência a claustrofobia de uma rotina definida quase na totalidade por obrigações domésticas (no duplo sentido do termo), e os deslizes esporádicos entre a realidade e a alucinação são empurrados por uma câmara que parece ter bebido tanto álcool como as personagens (foca, desfoca, estremece, e a dada altura parece mesmo tropeçar). Os efeitos de "estranheza" são por vezes demasiado forçados - há uma cena em que uma mulher grávida começa a atirar ovos ao chão da cozinha - mas alguns conseguem alcançar um surrealismo confortável e orgânico, quando não pretendem cumprir qualquer óbvia função simbólica.

Onde a coisa soçobra é no texto, e a homenagem mimética de Shirley não consegue passar essa fronteira. Como muita ficção contemporânea, nos ecrãs grandes e nos pequenos, adopta um estilo de diálogo que funciona como a sua própria explicação redundante. Discussões são rematadas por frases em que os temas da discussão são precisamente enunciados, como numa cábula para estudantes que se preparam para um exame (esta cena é sobre ciúme, aquela é onde a protagonista confessa que se sente sozinha etc.). Se os protagonistas de Shirley aterrassem numa das inigualáveis cenas de festa em que autora se especializou, o mais provável era serem silenciosamente julgados por excesso de verborreia.

Aquilo que Shirley Jackson fazia melhor era sugerir implicações gigantescas nas margens e nos intervalos de diálogos aparentemente banais. O princípio operativo de muitas das suas ficções é a repressão. As personagens quase nunca dizem o que sentem ou pensam: dizem o que é esperado que digam, ou o que a situação lhes exige que digam - e o leitor é forçado a adivinhar o resto numa repetição, ou numa observação tangencial, ou num riso inapropriado, ou num gesto periférico.

A sua vida pessoal não foi livre de repressões de outra ordem. Viveu a década de 1950 em Bennington, no Vermont, uma povoação cuja insularidade ilustrava os mais perversos estereótipos sobre a "cidade pequena": quem não nasceu lá nunca pertence. Como mulher, como "intelectual" e como esposa de um judeu (o crítico académico Stanley Hyman, que leccionava na universidade local), Jackson sentiu na pele - e debaixo dela - a comédia negra da exclusão e um sortido de atavismos colectivos.

As suas histórias podem ser lidas cronologicamente como um relatório clínico hipotético sobre a melhor forma de lixar uma personalidade: mães puritanas e opressoras, maridos ausentes, filhos incompreensíveis e, acima de tudo, comunidades hostis. A raiz do horror nas suas histórias é sempre menos psicológica do que social: o pavor da interacção deficiente, do protocolo quebrado, da agressividade passiva e negligente que contamina certos actos individuais ou colectivos. Um dos seus contos, Like Mother Used to Make, aborda alguns dos mesmos temas de Shirley: a forma como uma relação de poder num cenário doméstico pode ser alterada pela chegada de um elemento estranho, o radar infalível do temperamento sádico para encontrar pontos fracos e a tensão entre o desejo de fuga e o apelo da crueldade familiar. É um conto de extrema violência, em que nunca ninguém ergue a voz, e no qual as frases mais agressivas são "sendo assim vou andando" e "não te esqueças da chave". As oito páginas fazem mais com tudo isto do que as duas horas do filme e, ao contrário do filme, não tentam funcionar como o seu próprio resumo. Shirley talvez funcionasse melhor como história autocontida e não como invasão ao domicílio de uma biografia para a qual nunca encontrou a chave.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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