Pandemia trava bullying nas escolas, mas PSP ainda registou 115 casos

Maria Rita, Joana e Soraia são nomes comuns, mas nomes associados a uma história de bullying nas escolas. Em Portugal, 38% dos jovens entre os 13 e os 15 anos já sofreu bullying. No mundo inteiro, estima-se que 150 milhões de alunos passem pelo mesmo. A pandemia da covid-19 travou este tipo de violência nas escolas, mas não quer dizer que não tenha existido.

Naquela quinta-feira de 2019, Maria Rita chega à escola como sempre: sorridente e bem-disposta. Deveria ser um dia normal, mais um do seu 8.º ano de escolaridade e dos seus 14 anos. Mas não. Assim que entrou percebeu que algo se passava. Ali tinha uma boa parte dos seus amigos, alguns desde a infância, todos moram na mesma zona e andaram sempre nas mesmas escolas públicas, a que frequentam agora fica a poucos minutos de casa.

E foram estes que, a meio da manhã, lhe disseram haver uma conta no Instagram com a designação Anti-Maria Rita. Ela não queria acreditar. Ligou logo aos pais. A relação forte e aberta que existe na família levou-a a esta atitude, embora este não seja o comportamento padrão de vítimas de bullying, que "preferem o silêncio, por medo ou vergonha, até da própria família", refere a psicóloga do Instituto de Apoio à Criança (IAC) Melanie Tavares.

O pai de Maria Rita, que é quem nos conta a história, diz que o diálogo aberto fez sempre parte da educação dos filhos, que se " habituaram a falar connosco sobre tudo, e quando ela nos ligou reagimos logo. Contactámos a diretora de turma, que se disponibilizou a apoiar-nos no que precisássemos, pois estávamos decididos em apresentar queixa à polícia, para que se averiguasse quem teria feito uma coisa daquelas". Mas não foi preciso. A autora da conta acabou por confessar. Era uma das amigas mais próximas de Maria Rita, frequentavam a casa uma da outra, tinham o mesmo grupo de amigos, os pais conheciam-se, e nada fazia prever que uma situação daquelas tivesse partido dela.

A conta Anti-Maria Rita foi criada a uma quarta-feira à tarde, na quinta foi identificada e na sexta à tarde estava a ser apagada. Sobreviveu poucas horas, "os amigos começaram todos a denunciar a conta", diz-nos, mas as suficientes para a família não esquecer o episódio.

Dias depois souberam quem o tinha feito. A amiga começou por ligar aos pais de Maria Rita a pedir desculpa pelo que tinha feito e os problemas que tinha causado. Os pais disseram-lhe que ela tinha de falar com a Maria Rita e explicar-lhe porque o fez, embora ela nunca tenha confessado propriamente o que a levou a fazer aquilo. Maria Rita e os pais suspeitam. Hoje, continuam a falar-se quando se veem, a amiga tenta aproximações, mas "nunca mais foi a mesma a coisa".

A autora confessou. Os pais de Maria Rita não avançaram com queixa na polícia e a escola ignorou a situação.

Maria Rita é das alunas mais populares da escola. "Está socialmente bem enquadrada", refere o pai, "tem o mesmo grupo de amigos há muito tempo, andavam sempre juntos e frequentavam as casas uns dos outros", explica. Deste grupo, faziam parte três rapazes e a tal amiga começou a namorar com um destes jovens, que continuou a ser amigo de Maria Rita e a ir a casa dela. Não se sabe, mas o motivo pode ter sido o ciúme.

Na escola todos souberam quem era autora da conta, o pai de Maria Rita diz hoje, mais de um ano depois do episódio, "se a autora não se tivesse identificado, não a teríamos descoberto, seria impossível imaginar que era ela". Acabaram por não ir à polícia, Maria Rita não saiu da escola, "estava perfeitamente integrada", mas perdeu uma amiga.

A escola não assumiu o caso. "Viemos a saber que depois de a diretora de turma se ter disponibilizado para nos apoiar no que fosse preciso, o conselho diretivo disse-lhe para não se meter, porque dentro da escola nem sequer era permitido o uso de telemóvel, portanto tudo o que aconteceu foi fora daquele espaço. Não queríamos acreditar no que nos estava a ser dito, não seguimos em frente, a situação ficou por aqui, mas também porque a minha filha tem um grande apoio em casa e dos amigos, poderia ter corrido pior", desabafa o pai de Rita.

Antes não era denúncia, eram queixinhas

Há muitas gerações, o que aconteceu a Maria Rita não tinha um nome, porque a violência psicológica e até física entre crianças e jovens, na escola ou fora, quase que era aceite como uma parte do crescimento. Se era ultrapassada, era porque se era forte, se não era - se alguém sucumbia à violência infligida por colegas e até amigos - era porque era fraco. O que se passava entre colegas ficava na escola, o mesmo entre amigos.

Agora, há um nome, bullying, e, muitas vezes, está à frente de todos, e são tão culpados os autores como os cúmplices. "É preciso trabalhar esta perspetiva. É preciso que as crianças e os jovens saibam que se conhecem situações destas e não as denunciam estão envolvidos nelas", diz Paulo Costa, investigador da Universidade do Minho, com doutoramento nesta área.

Antes, muitos pais tinham as respostas enraizadas na ponta da língua: "se te batem, bate também", "aprende a defender-te", "não sejas queixinhas, resolve tu". Hoje, já estão mais atentos. "Nos últimos 20 anos, este tipo de violência tem sido mais abordada e a sociedade mudou a sua atitude, está mais atenta, mas não chega, porque ainda há escolas e famílias que não fazem o que devem", alerta a psicóloga Melanie Tavares, também coordenadora do Gabinete de Apoio ao Aluno e às Famílias (GAAF) - existem em 27 agrupamentos de escolas, de Viana do Castelo a Faro, e apoiam um universo de alunos que ultrapassa os 30 mil.

150 milhões vítimas em todo o mundo

À luz da lei portuguesa e de muitos outros países, o bullying não é crime, mas é considera uma ofensa à integridade moral e física da criança ou do jovem que é vítima. De acordo com o último relatório da UNICEF sobre esta matéria, estima-se que em todo o mundo 150 milhões de jovens, entre os 13 e os 15 anos, tenham sido vítimas de bullying.

Em Portugal, e de acordo com o mesmo relatório, que reporta ao ano letivo de 2013-2014, 38% dos alunos entre os 13 e os 15 anos foram vítimas deste tipo de violência e 31% também assumiram praticar bullying na escola, pelo menos uma vez, contra colegas. Nesta semana, o governo da Nova Zelândia lançou uma campanha para sensibilizar a população para o problema. No vídeo disponível, uma criança vítima de bullying bate à porta da sua agressora e conta ao pai desta o que a filha lhe fazia nas redes sociais.

"É um problema universal. Pode atingir qualquer família", refere Melanie Tavares. A psicóloga percebe que, apesar de muitos alertas, nem sempre quem está nas escolas tem tempo para observar todos os alunos, mas é essencial que professores e assistentes operacionais façam esse esforço. "É nos recreios, sobretudo quando se trata das camadas mais novas, que se consegue identificar estas situações, portanto, quando há uma suspeita de que algo pode estar a acontecer, digo sempre aos profissionais que não desvalorizem."

O mesmo pedido faz aos pais: "Alertem os vossos filhos para este tipo de violência. O mais importante é construírem com eles uma relação em que eles se sintam à vontade para falar sobre o assunto. Esta pode ser a chave para o problema ser enfrentado e até o denunciarem, caso esteja a ser vivido por algum colega", refere.

A maioria dos casos chega aos GAAF através dos outros e não das vítimas. "Chegam ao pé de nós, depois de uma ação de formação, e dizem-nos: "Sei de uma colega que está a passar por isso." Às vezes, é quanto basta, porque depois o assunto será tratado por psicólogos e professores."

PSP teve 115 casos em confinamento

Em tempo de pandemia, de 16 de março até final de maio, o diretor dos Agrupamentos Escolares, Filinto Lima, afirmou ao DN não ter tido feedback de qualquer situação por parte dos colegas. Os GAAF também não. "Não recebemos registo de qualquer situação, o que não quer dizer que não tenha existido. O facto de não haver bullying presencial não quer dizer que não tenha existido de outra forma, através das redes sociais, WhatsApp, que agora é muito comum", alerta Melanie Tavares.

O programa Escola Segura da GNR também não registou situações entre março e maio, embora de 1 de janeiro a 16 de março tenha recebido 34 casos. A diferença durante o período do estado de emergência chega através dos dados da PSP, cujo programa Escola Segura recebeu 115 situações de bullying, que vão desde as ameaças e coação até à agressão física, entre 16 de março e 28 de maio.

A maioria na forma de ofensa à integridade física voluntária (86). Um dado que poderia causar alguma confusão, já que as escolas estavam encerradas, mas, segundo explicaram ao DN, tais situações correspondem a casos que envolveram alunos menores, mas fora do contexto da escola, podendo mesmo ocorrer nas suas zonas residenciais. Do número total há ainda a destacar cinco situações de ofensa à integridade física voluntária grave, 23 por ameaça e coação e uma por difamação, calúnia e injúria.

De setembro a janeiro deste ano a PSP já tinha contabilizado 293 situações, 238 envolveram agressão física.

O ano letivo de 2019-2020 será diferente de todos os outros, mas de setembro a janeiro deste ano a PSP já tinha contabilizado 293 situações, 238 envolveram agressão física. No ano letivo de 2017-2018, tinham sido registadas 1898 situações. Mesmo assim, e como sublinha Melanie Tavares, "as campanhas de sensibilização têm ajudado muito, e os números têm vindo a diminuir, mas ainda há escolas que não fazem o que devem. Muitas vezes, chegamos a uma escola para uma ação de sensibilização e dizem-nos logo que ali não há bullying, mas ao falar com alunos percebemos que há. E quando lhes perguntamos se não alertaram os professores ou os conselhos diretivos, dizem-nos que desvalorizaram a questão. Isto é o que não pode continuar a acontecer. Todos temos de estar atentos, escola e família".

A pandemia e o estado de emergência vieram travar o bullying dentro das escolas, presencial, mas mais uma vez, dizem-nos, "não significa que não tenha existido".

Na maioria das vezes, o bullying é silencioso, causa grande sofrimento, deixa marcas, e tem de ser detetado e trabalhado, a bem das vítimas e dos agressores, porque estes "nem sempre são as pessoas fortes que tentam transparecer, também têm muitas fragilidades", diz a psicóloga.

A pandemia e o estado de emergência vieram travar o bullying dentro das escolas, presencial, mas mais uma vez, dizem-nos, "não significa que não tenha existido". É um facto que com o ensino à distância os alunos podem ter sido mais vigiados pelos pais, os agressores podem não se ter sentido tão à vontade para agir, mas "garanto que houve situações, se calhar até aumentaram. Os agressores não tinham público, mas podem ter optado por outras formas de bullying, como o cyberbullying, que não é tão evidente, mas há cada vez mais".

Isolamento, tristeza e insónias são sinais

A psicóloga explica ainda, e para justificar o facto de não haver situações reportadas durante os dois meses de estado de emergência aos GAAF, que "a maioria dos casos são identificados por professores, assistentes operacionais e por colegas, e com o ensino à distância não havia quem fizesse este trabalho. E alerta os pais para que estejam atentos aos sinais mais evidentes do bullying, como isolamento, tristeza, apatia, insónias, falta de apetite.

"Uma criança que já fosse vítima de bullying pode continuar a sê-lo, mesmo sem relação interpares. Pode ser através do telemóvel, do e-mail, das redes sociais. Muitas vezes pensamos que as vítimas de bullying físico, psicológico e verbal até estão mais protegidas com as novas tecnologias, mas não".

As equipas dos GAAF têm questionado as escolas e os alunos que estavam a ser acompanhados por estas situações e a resposta tem sido a mesma: "Não se detetaram situações." "O ensino à distância até pode ter trazido a uma vítima liberdade para viver, porque viver em contexto de bullying é muito angustiante, traz muito sofrimento. Há crianças que se recusam mesmo a ir à escola, inventam mil e uma desculpas e com o modelo encontrado por causa da pandemia as vítimas podem sentir que a situação atenuou, que assim estão seguras, mas o não regressar à escola também não é solução. Pelo contrário, seria uma dupla penalização para as vítimas e uma vitória para os agressores", defende.

Ensino à distância não é solução

O diretor dos Agrupamentos Escolares, Filinto Lima, concorda: "O regresso à escola é essencial. O ensino à distância não pode ser uma solução para o bullying, queremos que os nossos alunos regressem à escola, queremos o contacto presencial e depois cá estaremos para lidar com o bullying, para o prevenir e para o trabalhar com alunos, professores e pais."

Filinto Lima espera mesmo que o período de confinamento "tenha sido proveitoso ou benéfico para os alunos pensarem no que estão fazer na escola, no seu comportamento com todos os que aqui os rodeiam. A perceção que tenho é de que os alunos estão a valorizar a escola, como todos nós".

Melanie Tavares reforça: "É importantíssimo para as crianças regressarem, até para a sua relação social com os outros no momento do recreio, da partilha do tempo e das coisas. Aprendemos muito mais durante a fase do envolvimento com os outros, que vai desde que entram para a escola até à faculdade, do que depois. Portanto, não podemos pensar no afastamento destas crianças da escola como opção."

"As escolas deveriam fazer um inquérito anónimo para averiguarem se mesmo no período do estado de emergência houve ou não situações de bullying".

O professor de Educação Física, fundador da Associação AntiBullying contra Crianças e Jovens, Paulo Costa, defende o mesmo, mas vai mais além: "As escolas deveriam fazer um inquérito anónimo para averiguarem se mesmo no período do estado de emergência houve ou não situações de bullying e de que forma. Se houve, é preciso identificar as situações e como estas afetaram os alunos."

Para Paulo Costa, também investigador na Universidade do Minho, e cuja tese de doutoramento é sobre o tema, explica: "Mesmo com ensino à distância é muito fácil para quem quer agredir outro fazê-lo. Ao ligar-se uma câmara está a abrir-se a porta de casa, e quem quer fazer mal pega nas pequenas diferenças, quer seja na forma de vestir do outro quer seja no que há atrás dele."

Por isso, não considera que as vítimas estejam "mais seguras, porque a segurança é exatamente a mesma do que na escola. Os alunos relacionam-se, e a partir deste momento podem assumir comportamentos negativos. Podem estar menos expostos, mas para tal nós professore, também temos de ter todo o cuidado na forma como damos as aulas através de uma câmara".

Professor de Educação Física numa escola de Braga, Paulo Costa conta ao DN que o seu núcleo optou por dar aulas no sistema em que os alunos apenas veem o professor. "Não se veem uns aos outros. Não veem o que os colegas estão a fazer, porque isso poderia ser uma das formas que levassem ao bullying. O agressor poderia fazer comentários sobre a forma como outro colega está a fazer o exercício."

A diferença de centímetros numa perna

O investigador da Universidade do Minho dedica-se há mais de uma década ao estudo deste tema. Um caso que viveu enquanto professor foi o que o levou a criar a associação a que agora preside, mas ao DN conta ter outro que não esquece, até porque se trata de uma jovem que conheceu em pequena e que acabou por ser sua aluna.

Joana, vamos chamar-lhe assim, era vítima de bullying há anos, de forma repetida através da humilhação verbal, pela exclusão e pela ameaça. "Repetiam-lhe que se algum dia contasse alguma coisa seria pior." Uma questão física, uma pequena diferença, quase impercetível, entre os membros inferiores, foi o suficiente para se tornar no alvo de alguns colegas.

"Foi um caso que me marcou muito. Eu conheci-a em pequenina, era sobrinha de um amigo, passados uns dez anos, quando andava no 8.º ano, e deveria ter uns 14 de idade, foi minha aluna. Um dia, depois de falar no assunto numa das minhas aulas, uma colega veio dizer-me que ela era vítima de bullying por parte dos colegas há muito tempo. Eu nunca tinha dado por nada e a família também não. Fui falar com ela e percebi que há muito tempo vivia em sofrimento. Dizia-me: "Eu sou boa pessoa. Tenho uma ótima relação nos escuteiros, no grupo coral, mas na minha turma continuam a maltratar-me"."

A jovem tinha uma pequena diferença nos membros inferiores, mas "foi o que bastou para os agressores a atingirem. Depois entendi porque é que ela se inibia nas aulas de Educação Física, porque imediatamente havia troca de olhares entre colegas. Muitas vezes as agressões são muitas dissimuladas e não é fácil aos adultos aperceberem-se delas".

Esta situação de bullying foi grave. Paulo Costa deu conta dela ao conselho diretivo da escola, os alunos foram identificados junto da psicóloga da escola e houve todo um trabalho com eles e com os próprios pais. A aluna abandonou aquela escola. "Teve o desfecho que não considero ser o ideal. A aluna quis sair da escola, o espaço não lhe era agradável e só lhe trazia memórias muito negativas. O ideal é que se mantenha." Uma queixa foi formalizada às autoridades, Paulo Costa aconselha que o façam, porque "assim as escolas têm de assumir as situações. Neste caso, vim a saber depois que a diretora de turma estava ao corrente do que se passava, mas tinha-o desvalorizado, por achar que era próprio da relação entre eles".

Uma foto nos ecrãs da escola

O caso de Joana é diferente do de Maria Rita e até do de Soraia, que um dia também entrou na escola e uma imagem sua meio despida estava no ecrã de todos os computadores, sem que ninguém a conseguisse apagar.

O elo comum a estes casos é que todos aconteceram no 8.º ano e "toda a literatura sobre o tema aponta para um pico neste ano e na fase da vida dos alunos entre os 13 e os 15 anos", explica Melanie Tavares.

Os bullies atuam quase sempre em grupo, mas também há os casos, como o de Soraia, em que o ex-namorado atuou sozinho ao piratear o sistema informático da escola. "Hoje todos são peritos em tecnologia e muitos deles conseguem fazer o que não se imagina", argumenta.

Este foi um dos casos que a psicóloga diz não esquecer, até porque envolve uma jovem de 14 anos. "As adolescentes, por vezes, expõem-se muito, sobretudo quando se apaixonam e acham que é para a vida, depois quando o namoro acaba podem tornar-se vítimas de bullying dos ex-namorados e de uma forma muito violenta, com ameaças, humilhação, e até agressão física, que aguentam porque depois têm medo de contar aos pais e até aos colegas", diz.

Neste caso, "a jovem acabou o namoro, o rapaz não aceitou e fez-lhe uma perseguição terrível ao ponto de colocar uma foto dela meio despida em todos os computadores da escola. A jovem deixou de ir à escola. A equipa do GAAF trabalhou muito com ela, com a família, com a turma e com outros alunos da escola, para que o regresso da jovem fosse tranquilo. Levou algum tempo, mas assim que "tivemos a garantia de que seria bem acolhida, ela voltou, O aluno foi expulso e sinalizado à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens em Risco, mas parece que nunca mais se conseguiu desbloquear aquela foto".

O bullying tanto atinge rapazes como raparigas, a maioria silencia o sofrimento, mas é mais fácil identificar agressores masculinos do que femininos. "As raparigas são muito mais difíceis, são muito mais dissimuladas, optam pela exclusão, pelas alcunhas, pelos boatos, pelo diz-que-disse em surdina.

Os rapazes são mais físicos, partem mais para a agressão e aí conseguimos perceber mais rapidamente", refere Melanie Tavares, que, acrescenta, "o bullying pode ser percetível nos recreios, à porta da escola, mas também dentro da sala de aula. Por isso, digo sempre aos professores com quem temos ações de formação que a criação de grupos de trabalho é uma forma de se perceber que pode haver bullying, pois há sempre dois ou três que são sempre excluídos".

A psicóloga aconselha mesmo que sejam os professores a fazer os grupos como forma de inserção de todos os alunos. Melanie Tavares garante que nas escolas onde "existe GAAF as situações de bullying não evoluem muito. Temos no terreno técnicos e quando existe um indicador de que alguma coisa não está bem atuam logo".

O ano letivo ainda não terminou, mas o regresso à escola é algo que vai mexer com uma vítima de bullying, pois "vai ter de se confrontar com a agressão diária. É natural que quando este período se aproximar uma criança ou jovem que sofra por este tipo de violência desenvolva algumas perturbações psicossomáticas e comece a ter dores de barriga antes de ir para as aulas, vómitos, febre, falta de apetite, pesadelos, terrores noturnos, o que se calhar já acontecia quando terminavam as férias ou o fim de semana".

Melanie Tavares defende que no regresso a chave para travar tais situações pode estar no trabalho da família, ao identificar os sintomas e falar com a criança, e na escola passando a estar mais atenta à mudança de comportamento dos alunos. "Muita coisa pode ter mudado com a pandemia. Os alunos crescem e os bullies podem ter tido um volte-face", diz.

O presidente da Confederação das Associações de Pais, Jorge Ascenção, defendeu ao DN que, no regresso à escola, vai ser necessário mais acompanhamento aos alunos. "É natural que no início até haja uma certa descompressão do período que passarem em confinamento e afastados uns dos outros, o que pode levar a uma mudança de comportamentos e até a novas situações de bullying."

O bullying é violento, na sua forma verbal ou física, quem o vive, "vive em choque", e, de acordo com o relatório da UNICEF, só 7,3% das escolas portuguesas é que reportam situações deste tipo.

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