O tempo da formação no Estado da Nação

Faltam pessoas no mercado do trabalho em Portugal. E entre as que ainda aqui persistem, muitas têm qualificações desfasadas das necessidades de hoje ou estão em funções que vão deixar de ser desempenhadas por mão humana ou simplesmente desaparecer nos próximos tempos. A reconversão e a requalificação de competências é um dos maiores desafios que o país enfrenta numa altura em que as fronteiras nacionais são mais ténues do que nunca no que ao emprego diz respeito, depois de a pandemia ter acelerado brutalmente os processos digitais e materializado as infindáveis possibilidades do trabalho remoto.

O risco já vai bem além do êxodo de jovens, da fuga dos mais qualificados, à procura de uma vida melhor lá fora. Hoje, continuar a morar em Portugal - desfrutando da qualidade de vida e dos custos locais -, enquanto se trabalha para empresas que estão noutro país e pagam aos valores médios dessa outra localização, é uma realidade ao alcance de cada vez mais portugueses.

O desafio foi há muito identificado, ainda que não se vislumbre visão ou estratégia política para travar o sangramento de talento. E certamente não serão medidas como o IRS Jovem ou o programa Regressar que irão ajudar a ficar ou fazer voltar quem tanta falta nos faz; tão pouco meras centenas de euros a mais que levarão novas famílias a fixar-se num interior despido de atividade económica, serviços de Saúde, Educação, oferta cultural... A verdade é que bom número de profissionais portugueses nem chega a sair de casa, pode simplesmente criar valor para outros a partir de Portugal.

É urgente criar fatores de atração, dar ferramentas capazes de gerar vantagem real para que os jovens não desistam de Portugal, para que quem vê ultrapassadas as suas competências possa reconverter-se e voltar a ser útil, para que quem está desocupado, insatisfeito com as suas funções ou se veja sem perspetivas possa ter formação que lhe permita dar um salto qualitativo na carreira e quantitativo no salário.

É esse o papel que vários grupos estão a assumir, substituindo-se ao que devia ser desígnio público. Foi o que fizeram fundações como a José Neves e a Santander, através das bolsas e programas de requalificação lançados, foi o que fez a PRO_MOV, com o envolvimento dos empresários e gestores que criaram a Business Roundtable para pensar o futuro de Portugal, com a missão de "valorizar e qualificar os portugueses".

Hoje discute-se o Estado da Nação, faz-se o retrato do que é e do que precisa o país, antes de fazer as malas e ir de férias. Quantos minutos serão dedicados a debater o potencial dos nossos e as formas de aqui fixar as mais-valias que o talento nacional é capaz de criar?

Subdiretora do Diário de Notícias

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