O corpo de Cristo 

Quando a minha sobrinha mais velha tinha 3 anos, entrou certo dia no quarto da minha mãe e, reparando num crucifixo pousado na mesinha-de-cabeceira, pegou-lhe, mirou-o longamente de alto a baixo e, erguendo por fim os olhos, comentou: "Avó, esta cruz não tem homem."

Apesar de não provirmos de uma família especialmente religiosa, tanto a minha sobrinha como eu fizemos a primeira comunhão; e, tal como todos os que passaram por essa experiência, respondemos "Ámen" quando o padre nos pôs a hóstia na língua ao mesmo tempo que, em tom solene, repetia: "O corpo de Cristo." Não tenho ideia de, aos 7 anos, me ter perguntado se tinha mesmo Jesus a derreter-se na boca, mas lembro-me de que trincar a hóstia estava fora de questão. Ainda hoje, porém, ao entrar numa igreja, o que procuro instantaneamente é o corpo de Cristo, uma "cruz com homem" (santos e Virgens nunca me interessaram), imagem que, de resto, já vi comover bastantes não-crentes. O filho de Deus - retratado artisticamente, do nascimento à morte, em variadíssimas épocas e estilos - é uma figura tão empática que cumpre até o milagre de atrair para a arte pessoas que nem sabem exactamente o que isso é. A minha irmã contava que, numa excursão que fez a Roma de autocarro há muitos anos, uma mãe tentava convencer a filha adolescente, que se preparava para saltar a programada visita à Basílica de São Pedro, a ir pelo menos ver "a Petra" do Miguel Ângelo, que era "um Jesus muito lindo ao colo da mãe".

Publiquei recentemente um romance de Mário Cláudio, Tríptico da Salvação, que (abreviando muito) trata da encomenda de uma pintura representando a Crucificação, a Deposição e a Ressurreição de Cristo e das peripécias que rodeiam a sua execução. Sendo esse tríptico invenção do escritor, pareceu-nos adequado usar na capa do livro um quadro verdadeiro do tempo do fictício; e decidimo-nos por um pormenor da Crucificação do Retábulo de Isenheim, de Matthias Grünewald: um dos mais belos (e terríveis) torsos de Cristo da história da arte. Como sempre faço, anunciei no meu blogue a saída do romance e partilhei a capa. Passadas duas horas, porém, recebi a informação de que o meu post fora parcialmente retirado da plataforma por incluir "conteúdo malicioso". Apressei-me a ir ver o que teria eu escrito que justificasse tal castigo. Mas não era das minhas palavras que vinha o pecado da malícia; era - até parece mentira - do corpo de Cristo. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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