Livro de instruções para uma geringonça 

Todos os governos ficam para a história. No sentido em que esta faz sempre o registo dos factos, das políticas e dos acontecimentos. Há, é certo, aqueles que alcançam mais notoriedade pelo mérito das suas políticas e os que ficam conhecidos pelo seu inverso. Mas sabe-se de algum que ficasse associado a um processo linguístico? O atual governo é certamente um candidato pioneiro a tal. Refiro-me (sem aspirar a linguista e de forma simples) ao processo em que a uma palavra se acrescenta coletivamente um sentido - no caso uma conotação positiva - ao seu significado inicial. É o caso, claro, da palavra "geringonça". De estrutura "frágil", "complexa" e de "funcionamento precário", "geringonça" passou a significar também uma solução governativa capaz de superar a fraqueza apontada na sua origem.

Quem teve receio da geringonça? Eu assumo que tive uma natural preocupação inicial. O cenário de um Portugal depauperado pela austeridade convidava à segurança de uma certeza. Que moldes assumiria, na prática governativa e na prática parlamentar, a confluência das matrizes identitárias dos partidos que a integravam? Qual o risco de neutralização da ideologia? A resposta foi construída no dia-a-dia da governação, através do diálogo e da busca do melhor dos consensos possíveis - aquele que possibilitou a necessária recuperação económica e social. A geringonça inscreveu-se na cultura democrática portuguesa como forma governativa inovadora e, além-fronteiras, projetou-se como metáfora do diálogo.

Mas talvez este governo não tenha sido tão pioneiro assim. Refiro-me à questão de associar a governação a uma palavra - a direita, no governo anterior, inovou definitivamente nessa matéria ao associar-se à "austeridade"... A nível dos pressupostos orientadores deste governo, destaca-se o que assentou na recusa dessa austeridade como rumo, apostando, ao invés, como indutoras de crescimento, em políticas orientadas para as pessoas. A um balanço dos últimos quatro anos e a uma prestação de contas justa e equilibrada não poderá nunca ser alheia a constatação de tudo o que se conquistou nas áreas da igualdade, do crescimento, dos serviços públicos, do emprego e da defesa do ambiente. Hoje, falamos no aumento das pensões e das prestações sociais, na criação da prestação social para a inclusão, em 350 mil novos postos de trabalho, na valorização do interior, nas cem novas USF, na distribuição gratuita dos manuais escolares, na redução do preço dos passes e na descarbonização (sem esgotar). Tudo isto sabendo que em nada prejudicámos (pelo contrário) a saúde das contas públicas, de que o Partido Socialista nunca abdicou. E falamos porquê? Porque podemos. A "geringonça", mais do que uma palavra, foi o processo que permitiu operacionalizar a confiança.

Deputada do PS

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