João Soares, um verdadeiro artista

A fechar o percurso político que o levou de Lisboa a Bruxelas, com uma breve incursão pelo Ministério da Cultura, o antigo presidente da câmara estreia-se nas artes nas vésperas dos seus 70. Esta é a nova aventura.

Não podia ser diferente. Vibrante e orgulhoso mesmo que conhecendo a sua simplicidade melhor do que qualquer outro, é o cravo que nos convida a pisar pedra antiga e experimentar as formas coloridas dos sonhos e memórias que ganham cor em pinceladas sem pretensões. O autor, João Soares, a trocar a caneta política pelo pincel das artes, di-las Sem Talento (é o nome da exposição), mas pintar a emoção sem se fazer refém de técnicas tardiamente apreendidas e ter a ousadia de exibir o resultado - e acima de tudo divertir-se em cada passo - não é para todos. Ainda menos estrear-se numa famosa galeria lisboeta, a Novo Século, e garantir salas para levar os quadros a Nova Iorque e Timor. Há amigos envolvidos na cedência do espaço, claro, mas é digno de referência.

Não há ponta de vaidade quando mo conta em visita exclusiva nessa manhã de sábado, é o humor que domina - nenhum convencimento. João não pretende fazer-se artista - ou não confessaria que comprou os materiais em iguais proporções na Papelaria Fernandes e na loja do chinês, tão-pouco quanto se divertiu a marcar com bolinhas de papel todos os quadros como se os desse por vendidos ainda antes de alguém os ver. E não fez por menos, nada de azul (reservas), tudo encarnado, como lhe tivessem confirmado a compra. Pôs as bolinhas e riu-se da traquinice...

Foi a aventura que escolheu em vésperas de fechar o capítulo político de um percurso em que sempre se esteve nas tintas para olhares de esguelha e indignações públicas ou privadas sobre as suas escolhas. Assim permanece a dois meses de chegar aos 70.

"Eis que no Bairro das Artes se dá pública mostra de um novel e inesperado talento", anuncia da página de Facebook Elísio Summavielle (presidente do CCB), com o pé de página humorístico que sempre lhes atravessa as conversas. Mas há orgulho no amigo - que o próprio João não retém, atribuindo a incursão na arte a um episódio caricato.

"Isto começou há 30 anos." E conta que estava de saída de uma exposição naquela mesma galeria com um amigo de sempre que discretamente lhe disse: "Merda desta também eu faço!" Passado um ano, esse mesmo amigo expunha ali a sua arte. "Eu disse-lhe o mesmo. E posso ter demorado 30 anos, mas fi-lo!" A gargalhada espalha-se livre como o traço.

Sei muitíssimo menos de pintura do que João Soares, que se pôs a aprendê-la nos últimos meses numa oficina a poucos metros de casa, com a israelita Ariela Widzer, que agarrou como mestre e a quem se atreveu até a retratar, mostrando o resultado a quem o quisesse ver, na galeria cujas portas Nadia Bagiolli lhe abriu com gosto. Na mesma sala onde ela exibiu as obras do marido, Carlos Barroco (ao lado de quem geriu o espaço por três décadas), e tantos outros, a italiana feita portuguesa em vésperas da Revolução elogia o traço do amigo, feito "de instinto". "Não é naïf, porque tem sentido; ele pode não ter a técnica aprimorada, mas a simplicidade é bem difícil de conseguir."

"O João decidiu pintar. Pintou. Expôs", simplifica Pedro Nereu (amigo dos tempos da câmara e do EGEAC) no catálogo da exposição, que conta ainda com as impressões de outros companheiros antigos, como Teresa Dias Coelho, Cristina Arvelos ou José Manuel dos Santos, que apresenta a exposição Sem Talento.

São acrílicos sobre tela ou papel, expostos quase à porta fechada, mas que já ali chamaram umas dezenas de curiosos mais ou menos ilustres, ainda que João Soares tenha optado por uma passagem discreta. Há uma série de abstratos e um muito concreto telefone de disco, há testes com retratos de cadeiras e homenagens que fundem as memórias da Canção de Lisboa e de O Principezinho, há pedaços do Portugal real - o Castelo de São Jorge, o peixe, o manjerico e o carro de junta carregado de palha. E, naturalmente, não podia faltar o toiro negro, imponente, em fundo vermelho-sangue, honra à alma de portugalidade que João nunca deixou de afirmar - e que marcou, aliás um dos seus últimos atos públicos, antes da sua derradeira sessão parlamentar: o jantar no Forcado, a 10 de julho, em homenagem ao histórico cabo dos Amadores de Lisboa, José Luís Gomes.

"Vou continuar a servir, noutras frentes de luta. Com a mesma energia, e bom humor, de sempre", prometeu João Soares no Facebook, quando anunciou a sua despedida do Parlamento, no final de junho. A terminar os seus dias de férias no paraíso do Vau, o antigo autarca, ministro e deputado arrumou as malas da política. Lá para finais de agosto, segue de telas e bagagens para Nova Iorque, onde a galerista Anna Zorina acolherá os seus quadros, no 532, West na Rua 24. Ainda antes de acabar o ano, irá uma temporada para Timor, a gosto de Mari Alkatiri, expor num convento de dominicanas, em Oé-Cusse.

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