Premium O que é? Há curas milagrosas? 7 respostas sobre cancro

Há um novo livro para doentes oncológicos e familiares que responde a várias perguntas fundamentais para ajudar a compreender o que é cancro e como se desenvolve. Chama-se 100 Perguntas sobre o Cancro.

Sabe exatamente o que é o cancro? É o mesmo que um tumor? Quanto tempo demora a formar-se? Como é que se pode prevenir? Apesar de ser uma das doenças mais conhecidas, e temidas, o cancro está envolto numa série de teorias e mitos, que induzem muitas pessoas em erro.

Para ajudar a compreender o que é a doença e a "acabar com mitos e meias-verdades", os espanhóis Daniel Closa, licenciado em Biologia, e Salvador Macip, médico, lançaram o livro 100 Perguntas sobre o Cancro. Investigadores na área das doenças oncológicas e autores de vários livros de divulgação científica, pretendem que a obra seja "uma referência para doentes e familiares que desejem saber mais sobre a doença e conhecer um dos enigmas biológicos mais complexos que existem". Das cem questões expostas no livro, o DN dá-lhe a conhecer sete.

O que é o cancro?

Há palavras que estão associadas a uma série de implicações e, muitas vezes, de mal‑entendidos. Um dos melhores exemplos é a palavra cancro. Só podia ser assim, já que nós, os humanos, temos vindo a lutar contra esta doença desde sempre, o que reforçou muito a sua associação com a morte. Objetivamente, é compreensível, uma vez que, no mundo ocidental, o cancro continua a ser a segunda causa de morte, ultrapassado apenas pelas doenças cardiovasculares, um facto que pode ocultar os enormes progressos feitos nas últimas décadas na luta contra este poderoso inimigo. Na verdade, a importância do cancro enquanto problema de saúde aumentou a partir do início do século XX pela simples razão de que antigamente as doenças infecciosas vitimavam os humanos com muito mais eficácia. À medida que a esperança de vida se foi prolongando, a probabilidade de padecer de cancro foi crescendo.

Se nos lembrarmos de que provimos de um simples óvulo fecundado por um espermatozoide, iremos aperceber‑nos da quantidade de coisas que aconteceram durante o nosso desenvolvimento até nos convertermos num organismo adulto. Começamos por ser um conjunto de células praticamente iguais, sem nada de especial que as distinga, mas, a pouco e pouco, algumas destas células vão adquirindo características que as diferenciam das outras. Por isso dizemos que durante o crescimento de um embrião existe um processo de diferenciação: as células, idênticas no início, vão‑se diferenciando, mediante uma série de tipos específicos.

Uma das características das células diferenciadas é que já não se multiplicam de todo, ou quase nada. É lógico. As células vão‑se multiplicando até formarem, por exemplo, um fígado completo, mas, depois de formado, deixam de fazer falta, bastando que se mantenha um ritmo de substituição mínimo para restituir as células que vão morrendo. Durante o aparecimento do cancro, perde‑se esta característica de repouso que a maioria das células tem. Voltam a multiplicar‑se, sem qualquer tipo de controlo, neste caso, e podem acabar por dar lugar a um tumor, que não é mais do que um grumo de células comprimidas a crescerem umas por cima das outras.

Este processo que leva ao enlouquecimento das células é muito lento. Não damos por ele, mas normalmente demora décadas. Muitas vezes, parece que um cancro surge do nada e começa logo a causar problemas de saúde graves, mas a verdade é que aquele cancro pode demorar 20, 30 ou 40 anos a gerar‑se, lentamente, num recanto do corpo que passa totalmente despercebido. Só quando alcança uma certa dimensão e agressividade é que assoma e se manifesta. Isto também explica que a maioria dos cancros seja detetada a partir dos 50 ou dos 60 anos. Não aparecem antes porque não teriam tido tempo de completar todas as fases do seu desenvolvimento.

Já mencionámos uma série de características essenciais que definem todos os cancros: são células que se multiplicam de forma descontrolada e que precisam de ultrapassar uma série de etapas, algo que normalmente requer alguns anos. Que mais têm em comum? O principal é que um cancro é sempre formado por células que não estão paradas: invadem os tecidos à sua volta e, mais cedo ou mais tarde, deslocam‑se até órgãos distantes, onde podem formar cancros secundários - as chamadas metástases. Se as células não tiverem esta capacidade de se deslocar, dizemos que o tumor é benigno. A partir do momento em que podem fazê‑lo, o tumor passa a ser maligno, e é a isso que chamamos cancro.

Não há dúvida de que o cancro continua a ser um adversário perigoso. Mas é preciso ter muito presente que já não é invencível nem devastador como há poucas décadas. E como todos os dias sabemos mais coisas, não paramos de aprender novas formas de o tratar ou prevenir.

Os casos de cancro estão a aumentar?

É uma frase que se pode ouvir com alguma frequência: "Cada vez há mais casos de cancro." Normalmente, esta frase faz‑se acompanhar por um discurso contra a contaminação, contra o estilo de vida, contra a indústria farmacêutica ou, noutros casos, por uma teoria da conspiração. Mas é efetivamente assim? O cancro é agora mais frequente do que era antes?

Todos temos amigos ou conhecidos que sofreram de algum tipo de cancro. Mas, tendo apenas a experiência pessoal como referência, não é possível comparar com o que acontecia antigamente. À medida que os anos passam, é normal que nos vamos deparando com mais gente que sofre de cancro, mas apenas por uma questão de probabilidades. Também nos vamos deparando com mais gente que se casou, que teve filhos ou que foi despedida. A verdade é que, com o tempo, as experiências, boas ou más, vão‑se acumulando.

Como a perceção individual não serve para tirar conclusões, temos de observar os dados oficiais do sistema de saúde. Quando o fazemos, constatamos que, aparentemente, o cancro é, com efeito, mais frequente hoje em dia do que há algumas décadas. E, claro está, muito mais frequente do que há um século. Há vários motivos que explicam este facto. O primeiro e mais simples é que vivemos agora mais anos do que antigamente. A esperança de vida foi aumentando sem parar, pelo que há uma parte muito maior da população que chega aos 60 ou aos 70 anos, quando a incidência do cancro é mais elevada. É a mesma situação que já se verifica no caso das doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. À medida que a esperança de vida aumenta, as doenças associadas a idades mais avançadas tornam‑se cada vez mais frequentes.

Outro motivo que explica que existam atualmente mais casos de cancro está relacionado com as melhorias no diagnóstico. Na verdade, hoje em dia "descobrem‑se" mais casos de cancro do que antes. Assim que se concluiu que o êxito dos tratamentos dependia muito do prognóstico do cancro na sua etapa inicial, começou a pôr‑se em prática programas de prognóstico precoce. Já não ficamos à espera de que apareçam sintomas para diagnosticá‑lo; hoje em dia, procuramos cancros em pessoas aparentemente saudáveis. Há algumas décadas, começaram a fazer‑se mamografias, colonoscopias, campanhas de prevenção que alertavam a população para certos sinais na pele... O resultado foi um grande aumento dos cancros diagnosticados. Noutros tempos, estes cancros teriam passado despercebidos e não teriam sido contabilizados como tal.

Para além disso, é verdade que alguns tipos de cancro aumentaram devido a hábitos sociais. Por exemplo, a moda de apanhar sol no verão fez disparar o número de melanomas. Ou o cancro do pulmão, que começou a aumentar nas mulheres assim que a população feminina começou a fumar em massa. Alguns estão associados a outras doenças, tais como o sarcoma de Kaposi, uma forma rara de cancro que se espalhou com o avanço da epidemia de sida.

Existe sempre a dúvida sobre se a presença de agentes contaminantes ambientais está relacionada com o aumento do número de casos de cancro. Este é um risco muito real, pelo que é de esperar que as autoridades trabalhem para manter um ambiente livre de agentes cancerígenos. Nalguns países, sobretudo aqueles que ainda estão em vias de desenvolvimento, é claro que a má qualidade do ar e a inexistência de uma política ambiental estão relacionadas com o aparecimento de numerosos casos de cancro. Mas, em geral, podemos dizer que é pouco provável que os fatores ambientais associados à vida moderna sejam a causa principal do aumento de casos desta doença.

Assim sendo, não é por o meio ser mais tóxico que há cada vez mais cancros, mas sobretudo porque, ao vivermos mais tempo, também temos mais tempo para os desenvolver. Se chegássemos aos 150 anos, é provável que todos acabássemos por ser afetados por algum tipo de cancro. No entanto, devemos ter presente uma questão importante: embora as estatísticas atuais digam que uma em cada três pessoas irá padecer de cancro ao longo da sua vida, isso não quer dizer que a mortalidade tenha aumentado. Antes pelo contrário: embora vejamos mais casos, cada vez há mais curas e maior é o número de sobreviventes.

Quanto tempo demora um cancro a formar‑se?

O momento em que o médico confirma o diagnóstico de cancro marca um "antes" e um "depois" na vida de qualquer paciente, embora, do ponto de vista da doença, todo o processo que levou até ela tenha começado muitíssimo antes.

Quando falamos do avanço do cancro, é importante destacar, mais uma vez, que não aparece de um momento para o outro. Antes pelo contrário: o processo é muito lento, sobretudo no início. Desde a mutação inicial no ADN de uma célula até ao aparecimento de sintomas no paciente, podem passar décadas. Isto significa que um cancro numa pessoa com 50 ou 60 anos pode ter começado a desenvolver‑se aos 20 ou 30. Ou seja, em princípio, deveríamos dispor de muito tempo para poder detetá‑lo e tratá‑lo. Infelizmente, durante quase todos estes anos, o cancro está nos primeiros estádios de desenvolvimento, sendo ainda bastante invisível. Por isso, um dos objetivos principais na luta contra o cancro é precisamente poder desmascará‑lo durante este período de incubação tão longo, já que, se pudéssemos detetá‑lo durante as etapas iniciais, seria muito mais fácil erradicá‑lo.

Devemos recordar que, durante o processo de maturação do cancro, os mecanismos internos de defesa do organismo não deixam de funcionar. Tal como referimos anteriormente, em geral, estes tumores incipientes acabam por ser eliminados antes de serem detetados ou, pelo menos, mantêm‑se controlados durante o tempo que for possível, para não darem problemas. Pensa‑se, portanto, que ao longo da vida de uma pessoa aparecerão e desaparecerão muitas células malignas sem darmos por isso, que chegarão até a formar microcancros, talvez só de algumas dezenas de células, que o sistema imunitário e os outros sistemas de vigilância de que falaremos mais à frente conseguirão eliminar totalmente. Nunca chegaremos a saber quantas vezes as nossas defesas nos terão salvado a vida, mas podemos ter a certeza de que o fizeram em muitas ocasiões.

Tal como dissemos, também é possível que não vivamos tempo suficiente para permitir que o tumor se desenvolva por completo. Por exemplo, a partir de autópsias, verificou‑se que mais de 80% dos homens com mais de 85 anos tinham cancro da próstata. O que acontece é que, na maior parte dos casos, o cancro ainda estava na fase inicial, era indetetável e não revelava quaisquer sintomas. Por isso, a maioria desses homens tinham morrido por outra causa qualquer, sem nunca chegarem a saber que tinham um tumor a crescer na sua próstata. Mesmo que tivessem vivido até aos 100 anos, é possível que aquele cancro não tivesse chegado ao estádio em que se torna perigoso para a saúde. Não teria tido tempo suficiente para passar de benigno a maligno.

Os primeiros estudos de cancros da próstata em autópsias foram efetuados por Arnold Rich, em 1935. Desde então, outros trabalhos parecidos revelaram que 9% dos homens de 20 anos, 27% dos de 30 e 34% dos de 40 tinham cancro da próstata na sua fase mais inicial. À semelhança destes dados, também se pôde verificar, graças às autópsias, que 39% das mulheres de 40 anos tinham cancros da mama que não tinham sido detetados. O mesmo acontece com o cancro da tiroide, que se pode detetar, nas fases iniciais, em até 20% das autópsias.

Significará isto que padecer de um cancro é simplesmente uma questão de anos; em alguns casos, talvez 20 ou 30, e, noutros, 100 ou até mesmo 200? Esta é apenas uma pergunta teórica, mas pode converter‑se num problema importante de saúde consoante a média de idade da população for avançando. Se alguma vez conseguirmos aumentar a esperança média de vida até aos 100 ou 120 anos, será provável que, nesse caso, até mesmo as células malignas mais lentas tenham tempo para completar o processo de formação de um tumor suficientemente avançado para afetar a saúde. Por outro lado, é preciso ter esperança de que, quando os avanços da medicina permitirem prolongar tanto a vida, também tenham encontrado a forma de detetar o cancro nas fases mais iniciais e tratá‑lo com uma eficácia muito maior.

Quais são os principais fatores de risco que possibilitam o desenvolvimento de um cancro?

O risco de sofrer um cancro nunca é nulo. Mesmo seguindo o estilo de vida mais saudável que se possa imaginar, pode aparecer um cancro em qualquer parte do corpo. Recordemos que, sempre que alguma das células se multiplica, há uma certa probabilidade de introduzir um erro na sequência de ADN que se deve duplicar. As nossas células funcionam muito bem, mas é pouco provável copiar os mais de três mil milhões de moléculas que formam o genoma sem cometer um único erro. E isso acontece sempre que se multiplica cada uma das células do corpo humano, que são mais de 30 biliões.

Se admitirmos que existe um determinado risco basal, há muitas coisas que o podem fazer aumentar. São os chamados fatores de risco, que vale a pena ter presentes, para tentarmos evitá‑los na medida do possível. Isso nem sempre é viável. Por exemplo, a idade é um fator de risco. Quanto mais vivemos, mais vezes se terão multiplicado as nossas células e mais ocasiões terá havido para incorporar mutações. Há ainda hormonas, como os estrogénios, que podem aumentar o risco de cancro, mas que também não podemos controlar com os hábitos diários.

Pelo contrário, há outros fatores mais fáceis de evitar. O tabaco é, talvez, o mais conhecido dos agentes cancerígenos de uso social comum, mas não é o único. O álcool também se considera um fator de risco para o cancro, um facto que costuma passar despercebido. Umas vezes associamo‑lo ao alcoolismo, e outras vezes dizem‑nos que faz bem à saúde porque é antioxidante ou estimulante, mas também temos de ter presente que é um poderoso carcinogéneo.

Os processos inflamatórios crónicos também são fatores de risco. A inflamação é um sistema de defesa que serve para regenerar tecidos e matar micro‑organismos gerando produtos tóxicos, oxidantes e similares. Mas se a inflamação se tornar crónica, estes mesmos produtos poderão danificar o ADN das nossas células e gerar um meio favorável para o crescimento das células cancerígenas. Um exemplo seria a hepatite, uma inflamação do fígado que pode redundar em cancro.

As radiações são agentes cancerígenos bem conhecidos. Algumas são fáceis de identificar, como, por exemplo, as radiações solares que deterioram o ADN da pele. Mas há outras mais subtis. Dependendo da zona onde moramos, podemos encontrar terrenos que emitem rádon, um gás radioativo que tende a acumular‑se no rés-do-chão dos edifícios. Morar em zonas onde a geologia faz que se gere rádon pode aumentar em vários pontos o número de casos de cancro.

A dieta também é importante. Uma dieta saudável não cura o cancro, mas há dietas que podem aumentar o risco. É bem conhecida a relação entre uma alimentação baixa em fibra e um aumento de casos de cancro do cólon. Também se sabe que, consoante a maneira de cozinhar alguns alimentos, podem gerar‑se produtos potencialmente cancerígenos. Em geral, queimar demasiado a comida não parece ser boa ideia, mas aqui entramos na questão do grau de incidência necessário para que os efeitos se façam notar.

Ainda há mais. A obesidade, alguns vírus, determinados produtos químicos... Por vezes, comete‑se o erro de pensar que os produtos sintéticos provocam cancro e os naturais não, embora também não seja bem assim. Há agentes cancerígenos em ambos. Por exemplo, o fumo resultante da lenha que cheira tão bem quando fazemos torradas na lareira também tem propriedades cancerígenas.

Com os fatores de risco é preciso ter cuidado, mas com bom senso e moderação. Apanhar sol com moderação e durante as horas em que não é tão forte pode ser bom. Ficar horas e horas a torrar na praia sem protetor solar suficiente não faz sentido nenhum. Como muitas outras coisas na vida, é preciso ser prudente sem cair na paranoia. O mais inteligente é reduzir os fatores de risco, com a consciência de que, por muito que se tente, é impossível tê‑los a todos sob controlo.

O cancro é hereditário?

Apesar de, na sua maioria, os casos de cancro serem influenciados por fatores que podem ser controlados, como, por exemplo, o tabaco, o sol, a obesidade ou a falta de exercício, cerca de 10% têm uma origem claramente hereditária. Também pode haver casos em que o que se herda é uma maior suscetibilidade para padecer de cancro. A maior parte das vezes, ignoramos qual é a causa desta suscetibilidade, mas estatisticamente é possível detetar certas diferenças. Por exemplo, independentemente da região do mundo onde vivam, as mulheres afro‑americanas padecem de formas mais agressivas de cancro da mama e os homens afro‑americanos têm o dobro do risco de desenvolver um cancro da próstata. O cancro da mama ocorre com maior frequência entre havaianas e japonesas do que em outras etnias.

Ainda não descobrimos quais os genes que podem explicar estas diferenças. Só sabemos que existe uma relação estatística entre o grupo genético a que se pertence e a predisposição para certos tumores. Estas diferenças poderiam estar relacionadas com a qualidade das defesas celulares. É possível que o cancro apareça sobretudo em pessoas cujas defesas são menos eficazes por causa dos genes que herdaram. Por exemplo, sabemos que há diversas variantes normais do supressor tumoral p53 e que a variante menos ativa se encontra frequentemente em alguns grupos étnicos. Isso poderia explicar porque é que uma determinada população apresenta uma maior incidência de cancro.

Possivelmente, a predisposição genética é mais importante em alguns cancros do que noutros. Por exemplo, calcula‑se que o facto de um parente de primeiro grau ter tido um cancro da mama duplica o risco de padecer da doença, e que, se o tiverem tido dois parentes próximos, o risco multiplica‑se praticamente por quatro. É por isso que, para avaliar a probabilidade de sofrer de certos tipos de cancro, os médicos perguntam o historial familiar de doenças.

Para além disso há uma série de síndromes genéticas pouco frequentes que têm uma relação direta com o cancro. Nestes casos, a certeza de vir a ter um tumor é muitas vezes absoluta, se não se fizer nada para o evitar. Essas síndromes caracterizam‑se por uma mutação num gene concreto, geralmente um dos supressores tumorais, que é transmitida dos progenitores para a descendência e que é fácil de detetar mediante análises genéticas.

Os sistemas de proteção das células destas pessoas estão bastante comprometidos, porque um dos supressores tumorais não funciona corretamente desde antes de nascerem. Por isso, é mais fácil que acumulem todas as mutações que conduzem à formação do cancro num espaço de tempo muito menor do que noutra pessoa. Apesar de o risco de morrer por causa de um cancro ser muito elevado nestas famílias, o facto de estarem alerta e de provavelmente conhecerem os conselhos dos especialistas permite ativar uma série de mecanismos preventivos que podem funcionar bem. Os tipos de cancro que aparecem nestes casos costumam depender dos tecidos onde estes genes são mais ativos. Alguns exemplos são as mutações nos genes BRCA (cancros da mama e dos ovários), APC (cólon), XP (pele), TP53 (mama, cérebro, algumas leucemias e sarcomas), Rb (retinoblastoma, no olho), etc.

Nestes casos, temos duas opções. A primeira é estar sob vigilância muito atenta e, no caso de se detetar um cancro, atacá‑lo com todos os métodos disponíveis, que hoje em dia são muito eficazes. A outra é a prevenção radical: eliminar, se possível, os órgãos que podem causar problemas antes de terem oportunidade de o fazer. Embora esta segunda opção pareça mais lógica e cada pessoa tenha uma opinião diferente, no momento da verdade não é uma decisão nada fácil de tomar.

As curas milagrosas existem?

"Os médicos não têm explicação!" é uma frase que costuma usar-se muitas vezes para falar de curas "milagrosas" ou relacionadas com tratamentos alternativos, que, no fundo, são mais ou menos a mesma coisa. A ideia é que uma pessoa com um diagnóstico de cancro muito avançado, e que se considera já estar para além das capacidades de cura que a medicina oferece, começa a notar uma melhoria, até que acaba por ficar totalmente curada. A causa declarada pode ter sido uma prece a um santo, umas ervas especiais, terapias mais ou menos esotéricas ou qualquer coisa que lhes passe pela cabeça. Seja como for, aquela cura contraria totalmente o que a medicina previa e, portanto, "os médicos não têm explicação". Uma afirmação que, além do mais, proporciona um certo prazer, uma vez que, para fazer o gosto ao dedo, não há nada como dizer a um especialista que estava enganado.

É claro que a realidade não é bem assim. Provavelmente, os médicos não têm explicação para um desenlace inesperado, mas o que sabem bem é que não sabem tudo, e que estas curas inexplicáveis acontecem. Infelizmente, é muito raro isso acontecer. Embora seja difícil de calcular, estima‑se que num em cada cem mil casos a doença experimente aquilo a que se chama uma regressão espontânea, o que quer dizer que, por algum motivo que desconhecemos, o cancro começa a reduzir de tamanho e o doente acaba por ficar curado. Como há muitos tipos diferentes de cancro, a probabilidade de remissão espontânea também é muito variada: menos provável no caso dos carcinomas, mais elevada em leucemias ou sarcomas. De qualquer forma, devemos recordar que se trata sempre de casos excecionais.

Quando esses casos foram reconhecidos, a regressão espontânea foi descrita como "o desaparecimento parcial ou completo de um tumor maligno na ausência de qualquer tipo de tratamento ou na presença de alguma terapia que se considere inadequada para ter qualquer influência significativa sobre a doença". Por outras palavras, o tumor desaparece quando não se está a fazer nada ou quando se está a fazer alguma coisa que sabemos que não funciona.

Quais podem ser as causas deste resultado inesperado? Em primeiro lugar, é preciso excluir os erros de diagnóstico, que também ocorrem, porque os médicos não são infalíveis. Quanto ao resto, só podemos especular, e já existem várias hipóteses de trabalho. A ideia principal parte do princípio de que o organismo tem recursos para tentar curar‑se. Afinal de contas, recuperamo‑nos de muitas doenças, e o facto de algumas serem mortais não quer dizer que não existam exceções. A relação mais provável é com o sistema imunitário. Talvez as defesas das pessoas que se curam tenham alguma particularidade que faz que se ativem e decidam lutar eficazmente contra o cancro. Talvez tenham apanhado uma infeção que tenha preferido afetar as células tumorais.

Com efeito, parece que muitos casos de remissão espontânea têm lugar depois de o doente passar por alguma infeção ou, pelo menos, por algum episódio de febre que sugere infeção. Há doenças autoimunes desencadeadas por micróbios, pelo que conhecemos casos em que um vírus ou uma bactéria tornou as defesas hiperativas ao ponto de atacarem as próprias células. No caso do cancro, poderia acontecer algo parecido.

Apesar de serem casos muito pouco frequentes, têm muita repercussão, pois realmente são excecionais e há mesmo quem pense em autênticos milagres. Apesar de oferecerem uma última esperança, os números são estes, portanto, não podemos confiar nessa possibilidade se adoecermos. Isso também tem uma segunda consequência: como estes casos são tão pouco frequentes, dificilmente temos ocasião de investigar o suficiente para saber o que é que acontece. Se os pudéssemos estudar ao pormenor, talvez encontrássemos novas estratégias para combater a doença. Porém, o mais habitual é que os médicos só possam constatar a melhoria quando o fator que a desencadeava já aconteceu.

Algum dia será possível curar o cancro?

No romance O Senhor dos Anéis, há um momento em que o mago Gandalf diz que "não nos cabe a nós escolher em que tempo é que vivemos, só podemos decidir o que fazer com o tempo que nos é dado". No que se refere ao cancro, o tempo em que vivemos é o da transição entre um passado ainda recente em que a doença equivalia a uma sentença de morte e um futuro cada vez mais próximo em que o cancro será controlável e a maioria dos pacientes poderá sobreviver a ele. De momento, temos meio caminho andado. Já não se fala do cancro como "a doença feia", como diziam os nossos avós, e muitas vezes é possível curá‑lo, mas continua a haver muitos casos, quase metade, para os quais ainda estamos à procura da maneira de reverter ou interromper o processo. Assim sendo, o que temos de fazer com este tempo é continuar a trabalhar para aprender a resolver o que ainda não conseguimos resolver.

Muitas vezes, temos de decidir se queremos olhar para as coisas com um olhar mais ou menos otimista. Na ciência, isso não funciona assim. O que fazemos é medir as coisas da maneira mais objetiva possível, sem acrescentar nenhuma interpretação própria. No caso dos tratamentos contra o cancro, podemos dizer que as coisas melhoram de forma mais lenta mas inexorável. Cada ano aumenta a percentagem de sobreviventes, e no caso de alguns cancros os números são tão elevados que já falta pouco para afirmarmos que os temos totalmente sob controlo. Os avanços na investigação dão‑nos motivos para acreditar que, quando a primeira geração nascida no século XXI for confrontada com o cancro, irá fazê‑lo com prognósticos muito mais otimistas do que os que temos atualmente.

Esta melhoria não surgirá sem esforços ou sem investir dinheiro em mais investigação. É a pesquisa que nos permite compreender o que é que acontece com as células quando se tornam cancerígenas, porque é que o fazem, como é que o resto do corpo reage e que consequências isso tem para o organismo. São ainda muitos os aspetos que desconhecemos, mas não devemos menosprezar o caminho já percorrido, porque foi esse caminho o que nos trouxe até aqui e salvou milhões de vidas.

Apesar de o nosso tempo já não ser o da escuridão terapêutica de há duas gerações, temos de continuar a trabalhar para nos aproximarmos cada vez mais da saída do túnel onde o cancro nos manteve fechados durante tanto tempo. Quando alcançarmos essa meta, é muito provável que nos deparemos com outras doenças, menos frequentes hoje em dia, cuja cura passará a ser o novo objetivo da medicina. Agora custa‑nos recordar que, durante muito tempo, os pesadelos no campo da saúde não eram o cancro e a hipertensão, mas sim a varíola ou a tuberculose. Mais cedo ou mais tarde, haveremos de falar do cancro como agora falamos dessas doenças, que para nós já são coisa do passado.

Dificilmente poderemos evitar o aparecimento do cancro. Somos organismos formados por imensas células e, simplesmente por uma questão de estatística, quanto mais tempo vivermos, mais provável será que algo não corra bem com alguma célula. Mas mesmo que não se possa evitar, chegará o dia em que saberemos como curar a maioria dos casos. Talvez não todos: pensar que a curto ou a médio prazo poderemos eliminar todos os cancros, mesmo os mais difíceis de tratar, como o do cérebro, é pouco realista. Mas nunca se sabe.

Há motivos para sermos otimistas. Embora não o curemos totalmente, pelo menos podemos evitar que o cancro mate. Como a grande maioria dos cancros aparece no último terço de vida, trata‑se de encontrar a maneira de travar o seu avanço durante algumas décadas. Com os conhecimentos que temos hoje em dia, não nos parece assim tão descabido.

As melhorias do diagnóstico precoce e do tratamento farão que cada vez mais pessoas superem os cancros mais frequentes. Outros, menos habituais, continuarão a ser fonte de problemas sérios, até não darmos com o seu calcanhar de Aquiles, embora tenhamos bons motivos para pensar que haveremos de lá chegar. Ainda não podemos dizer que derrotámos o cancro, mas o nosso tempo é aquele em que fomos capazes de mudar o rumo do jogo.

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