CTT vai continuar a vender estações neste ano

Encaixe de 12 a 13 milhões previsto na reestruturação já atingido. CTT apresenta contas no mesmo dia em que Anacom vai ao Parlamento e em véspera de votação das propostas do PC, BE e Os Verdes de regresso da empresa à esfera pública.

Os Correios já atingiram o objetivo de encaixe de 12 a 13 milhões de euros com a venda de ativos, previsto no plano de reestruturação até 2020, mas neste ano "a venda de imóveis vai continuar", sabe o DN/Dinheiro Vivo. Os CTT apresentam hoje as contas anuais, no mesmo dia em que o presidente da Anacom, João Cadete de Matos, vai ao Parlamento para discutir os CTT. Amanhã, são votadas no Parlamento as propostas do PC, BE e Os Verdes que pedem o regresso à esfera pública da empresa.

O plano de reestruturação da companhia previa, até 2020, a venda de até 30 ativos e um encaixe até 13 milhões, mas os Correios já anteciparam essa meta. "Os CTT alcançaram esse objetivo de encaixe em 2018, conforme já partilharam com o mercado de capitais, com a alienação de ativos que já não se encontravam afetos à atividade operacional", diz fonte oficial dos Correios ao DN/Dinheiro Vivo.

Os resultados do plano de transformação dos CTT são hoje conhecidos, mas até novembro a empresa tinha encerrado 52 estações e aberto 70 postos de correio. "Muitas das lojas foram arrendadas/vendidas aos atuais parceiros que asseguram a atividade de posto de correio", diz fonte oficial. "Os espaços próprios estão ou serão colocados no mercado, para venda ou arrendamento", diz a mesma fonte, não adiantando quantas estações serão colocadas à venda, nem o encaixe previsto.

Com a reorganização da rede de lojas, os CTT antecipavam até 2020 um custo estimado de 15 milhões não recorrentes e uma poupança anual de entre 6 e 7 milhões de impacto no EBITDA recorrente.

Plano de reestruturação impacta lucros

Será o plano de reestruturação o principal fator que terá influenciado os resultados de 2018. Até setembro, o plano tinha gerado gastos não recorrentes de 16,3 milhões de euros, tendo impactado fortemente os lucros: recuaram 49,3% face aos primeiros nove meses de 2017, para os 9,9 milhões. As contas anuais deverão indicar uma subida de receitas globais, com lucros a cair menos do que em anos anteriores, sabe o DN/Dinheiro Vivo, pese embora o impacto do plano de reestruturação. No ano passado cerca de 500 trabalhadores saíram dos CTT, metade dos quais por via do plano de reestruturação. Outros 200 terão sido contratados para reforçar o banco postal, entrega de correio, entre outras funções.

Os analistas dividem-se sobre o que irão revelar as contas anuais da empresa. "O final de 2018 não deverá fugir muito ao que assistimos durante o resto do ano, o plano de reestruturação cujos custos não recorrentes devem continuar a pesar sobre os resultados e o banco deverão continuar a representar a maior fatia dos custos, enquanto o serviço postal deverá continuar a gerar lucros", diz Eduardo Silva, head of sales da XTB.

Albino Oliveira mostra-se mais otimista. "O aumento de preços implementado e a sazonalidade favorável associada ao 4.º trimestre de 2018 (período natalício) poderão ambos ajudar os resultados do segmento do correio. Aliás, também o segmento do expresso e encomendas poderá registar o mesmo efeito favorável de sazonalidade". Mais, lembra o analista da Patris Corretora, boas notícias poderão vir por via da venda de ativos contemplada no plano de reestruturação da companhia. "O grupo CTT informou no início de dezembro de 2018 que foi assinada a escritura pública de venda definitiva de um imóvel em Lisboa (a estação de Socorro, em Lisboa). O mesmo comunicado apontava para uma mais-valia contabilística antes de impostos de cerca de 8,5 milhões de euros (com um impacto fiscal de cerca de 1,1 milhões de euros)", lembra.

Mas deverá ser do negócio do correio expresso e encomendas que deverão vir as notícias mais positivas. Esta é uma área em que a companhia tem vindo a apostar, na expectativa de crescimento do comércio eletrónico. Nesta área, o marketplace criado em joint-venture com a Soane, a Dott, está "prestes a ser lançado no mercado" e "muito em breve" o sistema de cacifos automáticos (piloto que arrancou em Lisboa em novembro de 2017 e que permite aos clientes levantar encomendas em cacifos localizados em zonas de grande circulação) vai chegar ao Porto, segundo fontes próximas da empresa ouvidas pelo DN/Dinheiro Vivo.

Plano será suficiente?

Com o plano de reestruturação, os CTT acreditam poder vir a ter uma "contribuição positiva de até 45 milhões de euros para o EBITDA recorrente a partir de 2020 e ajudar a contrariar a contínua queda estrutural do negócio de correio". A concretizar-se, resta saber, se será suficiente para preparar a companhia para os desafios do setor e para o regresso ao crescimento dos lucros.

"Ainda existe alguma confusão sobre o que são os CTT, os que confundem os CTT com uma empresa pública e se regem por métricas sociais ou de interesse público seguem a questionar a direção da empresa, no entanto os CTT foram privatizados e têm de ser preparados para se tornarem uma máquina de fazer dinheiro. Têm de criar uma estrutura competitiva que permita o crescimento a longo prazo", comenta Eduardo Silva. "Em certa medida até podemos considerar que a direção até tem tido algumas preocupações em não cortar totalmente com o lado social, pois o nível de pragmatismo necessário seria na realidade mais agressivo", considera o head of sales da XTB.

Paulo Rosa, da GoBulling, admite que o plano poderá não ser suficiente. "Poderá não compensar o aumento da concorrência nas encomendas, diminuição do correio tradicional, o Estado usar cada vez menos esse mesmo correio tradicional e o comportamento do Banco Postal", comenta. "Urge implementar uma política de dividendos racional, sustentável e de acordo com os lucros gerados pela empresa, logo o payout deveria ser inferior a 100%, ou seja, próximo dos 50% a 60%."

A deterioração mais forte do que esperado dos volumes de tráfego de correio "não deixaram alternativa aos CTT que não a apresentação e implementação do seu Plano de Transformação Operacional", considera Albino Oliveira. Foco que deverá continuar, defende o analista da Patris. "O impacto do enquadramento em termos de regulação representa, aliás, mais uma razão para o grupo manter a sua atenção focada na base de custos, com o objetivo de proteger a rentabilidade do negócio", continua. "Se olharmos para os sinais que são fornecidos por outras empresas do setor, estas preocupações dos CTT deverão continuar a ser justificadas, provavelmente mesmo uma vez terminado o atual programa de reestruturação, de modo a lidar com as incertezas que são encontradas nas perspetivas de evolução para este setor", alerta. "Naturalmente, a evolução das áreas do Banco CTT, Serviços Financeiros e Expresso e Encomendas será fundamental de modo a compensar as tendências negativas estruturais apresentadas pelo segmento do Correio."

Ainda vale a pena investir em ações CTT?

Um cenário de pressão que lança dúvidas sobre se investir em ações CTT ainda é uma aposta atrativa: desde o arranque da negociação do título em bolsa, as ações dos CTT já recuaram mais de 40%. "Talvez neste momento os CTT seja um título mais arriscado do que era em 2013, altura da privatização", admite Paulo Rosa, da GoBulling. Uma visão partilhada pelos analistas ouvidos pelo DN/Dinheiro Vivo. "Com o mercado acionista em alta os investidores ainda procuram oportunidades para incorporar no portfólio. Ninguém consegue avaliar de forma definitiva que os mercados vão seguir em alta e, nesse âmbito, independentemente do título, os investidores mais cautelosos procuram quebrar para voltar a entrar no mercado a valores mais razoáveis. O dividendo pode compensar alguma falta de volatilidade no ativo nesta zona", afirma Eduardo Silva. Mas deixa um alerta: "O debate político vai subir de tom e poderá mesmo condicionar o interesse no título."

"O enquadramento para o setor (não só em Portugal) continua a ser difícil. A opinião de cada investidor relativamente à evolução futura do título em bolsa irá necessariamente passar pela confiança que existir quanto à capacidade de implementação do plano de eficiência/redução de custos operacionais, assim como da capacidade do grupo para melhorar a rentabilidade das áreas de negócio fora do Correio, nomeadamente no que se refere ao segmento do Expresso e Encomendas", argumenta Albino Oliveira.

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