Sergio Moro apoia humorista Danilo Gentili para presidente

Danilo Gentili, por enquanto, só fala meio a sério, meio a brincar na eventual candidatura mas já conquistou o ex-ministro da justiça. Em sondagem, entretanto, o apresentador de um talk show no canal SBT perde apenas para Lula e Bolsonaro

E se um humorista sucedesse a Jair Bolsonaro na presidência do Brasil? A ideia partiu do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo de jovens liberais que se juntou em 2014 para pedir o impeachment de Dilma Rousseff, e é, segundo os próprios, para levar a sério. Numa primeira sondagem, Danilo Gentili, o comediante em causa, empata em terceiro lugar com os candidatos da chamada via alternativa a Lula da Silva, do PT, e a Bolsonaro, ainda sem partido, que ocupam os dois primeiros lugares na pesquisa. Um dos eleitores de Gentili, entretanto, seria o ex-juiz, ex-ministro e ex-futuro candidato Sergio Moro.

"Um dos poucos programas a que tenho assistido é o Manhattan Connection [talk show transmitido na TV Cultura]. O ambiente descontraído, a qualidade dos âncoras, a relevância e a heterogeneidade dos convidados têm sido um atrativo. Num deles, quase foi lançada a candidatura presidencial do Danilo Gentili - que, aliás, teria o meu voto", escreveu Moro, hoje a trabalhar na consultora norte-americana Alvarez & Marsal e praticamente fora da corrida presidencial, em artigo na revista Crusoé.

Mário Sabino, publisher e colunista da mesma revista, assumidamente defensora da Operação Lava Jato que o ex-juiz coordenou, defendeu no Twitter que "a candidatura de Danilo Gentili à presidência seria uma piada de muito menos mau gosto do que a de Bolsonaro e a de Lula".

O próprio humorista, nascido há 41 anos em Santo André, cidade nos limites de São Paulo, partilhou esse tweet, o que foi entendido como um sinal de que encara a candidatura com seriedade. Noutras publicações nas redes sociais, entretanto, negou já se ter reunido com André Marinho e Marcos Aurélio Carvalho, os ex-"marqueteiros" de Bolsonaro, conforme noticiado, e reagiu com humor à sondagem que o dá na luta pelo terceiro lugar nas intenções de voto.

"Pessoal, eu não compareci a nenhuma reunião hoje para falar de candidatura. Acordei nesse sabadão de sol e vim para casa da minha mãe tomar café. Essa é a minha grande agenda presidencial da semana", escreveu, ao lado de uma fotografia em que vê televisão, acompanhado de um gato e a beber uma bica de uma caneca de lata.

"Merece mais 10% pela caneca de lata", comentou um seguidor. Gentili respondeu: "Quando eu for presidente você também terá a sua". Noutra ocasião, prometeu indicar Kim Kataguiri, deputado federal pelo DEM e um dos mais destacados membros do MBL, para presidente da Câmara dos Deputados caso seja eleito.

O teste ao nome de Gentili feito pelo MBL, numa sondagem encomendada ao Instituto de Pesquisas Estratégicas, tornou-se um dos assuntos mais comentados da internet do Brasil nas últimas semanas. O humorista, um dos pioneiros na stand-up comedy brasileira, apareceu com 4% das intenções de voto, empatado com Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Luciano Huck (sem partido), todos concorrentes a empunhar a bandeira de candidato da terceira via contra Lula (que somou 36 pontos) e Bolsonaro (preferido de 31% dos ouvidos).

Em vídeo no YouTube, o coordenador nacional do MBL, Renan Santos, afirmou que a ideia de lançar Gentili, um ferrenho anti-PT e desde há meses crítico de Bolsonaro, é "séria". "Esse cara não é pequeno, como querem colocar, não é brincadeira", disse Santos, dando como exemplo o apoio espontâneo ao apresentador do canal SBT, o segundo mais visto no Brasil logo após a Globo, sobretudo por meio de hashtags no Twitter como #Gentili2022 ou #DaniloPresidente disseminadas pela juventude. O líder do MBL comparou o fenómeno ao que levou Bolsonaro à presidência, em 2018.

Politizado, Gentili usa as redes sociais para atacar quer Lula, quer Bolsonaro. Na quarta-feira, por exemplo, publicou uma frase do presidente - "eu faço o que o povo quiser, tá ok?" - e comentou-a repetidas vezes: "O povo queria as vacinas da Pfizer que você não comprou" ou "o povo quer ver o seu filho investigado".

A aposta do MBL, que veria com bons olhos a eleição de alguém da tal "terceira via" ou "grande guarda-chuva democrático", como lhe chamou o pré-candidato Luiz Henrique Mandetta em entrevista ao DN, é que Gentili desvie votos de bolsonaristas - sobretudo jovens.

Ouvido pelo DN, o cientista político Vinícius Vieira avaliou que "Gentili pode, sim, capturar um certo eleitorado propenso à direita". "E, mesmo que não ganhe mas chegue a uns 10%, teremos aí pela primeira vez a transposição à escala nacional de um fenómeno comum nas eleições locais e nas eleições parlamentares que é o voto de protesto".

A cada eleição no Brasil há centenas de candidatos bizarros e exóticos, dos quais o palhaço Tiririca, dono do slogan "vote em mim, pior do que "tá não fica" e deputado mais votado das eleições gerais de 2010, é o exemplo máximo de protesto no século XXI. No século XX, o troféu vai para Cacareco, a rinoceronte que recebeu mais de 100 mil votos (nulos, portanto) na corrida à prefeitura de São Paulo em 1959.

"Mas Gentili é mais do que um personagem caricato: é alguém que já há algum tempo vem defendendo a agenda de centro-direita ou direita, a agenda do lava-jatismo, e que chegou a demonstrar simpatia pelo Bolsonaro, com quem depois rompeu, pelo que a sua candidatura seria menos um voto de protesto e mais uma boa alternativa para os lava-jatistas, seria, afinal, uma ressurreição do lava-jatismo pelas mãos de um humorista".

"Isso, se não for considerado trágico, é pelo menos considerado engraçado, tendo em conta que o lava-jatismo - e isto não é opinião, são evidências - lidou à margem da lei sob o pretexto de combater quem estava à margem da lei", continua Vieira, para quem o Brasil merecia, nas eleições do ano do bicentenário da independência do país "melhor do que Bolsonaro, Lula e um humorista".

Por outro lado, "a candidatura de Gentili encerra, mais do que o caudilhismo hispânico sentido nos países vizinhos, algum sebastianismo, dadas as origens portuguesas do Brasil, isto é, o mito da recuperação da glória da nação por um líder carismático que vai purificar Brasília".

"Se ele concorrer pelo partido que mais parece ter simpatia pelo lava-jatismo, o Podemos, ele pode herdar muitos votos que foram em 2018 para o PSL [o então partido de Bolsonaro], ou seja, pode rachar a direita, mas seria mais uma fragmentação na centro-direita, facilitando a vida de Bolsonaro e de Lula que, por ora, lideram as sondagens", completa o politólogo.

Gentili começou a carreira na stand-up comedy em 2006, ganhou notoriedade no programa CQC, que misturava humor com jornalismo, na TV Bandeirantes, onde apresentou depois o talk show Agora é Tarde, antes de migrar para a concorrente SBT para ser o anfitrião do The Noite.

Ator esporádico e autor de livros de humor, Gentili é crítico do que considera "politicamente correto" na comédia e soma incontáveis processos (e ameaças de processos) sobretudo de deputados do PT, o seu principal alvo político antes de se tornar crítico do bolsonarismo.

Em 2011, foi classificado pelo The New York Times como "o enfant terrible" da comédia brasileira e em 2012 comparado pelo The Guardian aos norte-americanos Jon Stewart e Bill Maher.

OUTROS CASOS

Volodomyr Zelensky (Ucrânia)

Comediante famoso ganhou as eleições ucranianas em 2019. Não tinha experiência política, o que foi visto até como ponto forte, mas era mais conhecido dos eleitores do que os rivais.

Jimmy Morales (Guatemala)

Ator cómico, interpretou personagens como um cowboy que se tornou presidente antes de ele próprio se candidatar na vida real e ganhar com um discurso anti-corrupção.

Jon Gnarr (Islândia)

Com propostas como criar uma Disneyworld no aeroporto ou ter um urso polar no zoológico, o cómico líder do "Melhor Partido" ganhou as eleições para a câmara municipal de Reiquejavique.

Beppe Grillo (Itália)

Humorista conhecido desde a década de 70 por piadas ácidas com políticos, fez do Movimento Cinco Estrelas o maior partido do parlamento italiano em 2018.

Slavi Trifonov (Bulgária)

Estreante em eleições, o apresentador conhecido pelos diálogos com a marionete Cu-Cu, conquistou 18% dos votos para o seu partido anti-sistema nas eleições deste mês na Bulgária.

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