A vergonha de António Costa

Há poucas coisas mais excitantes para os vendedores do "anda tudo a roubar" e do "vivemos na promiscuidade" do que um acontecimento que envolva políticos e futebol. Portugal é um país que tem problemas evidentes de corrupção e de promiscuidade entre os vários poderes, como qualquer democracia. A minha memória não é das melhores, mas eu vivi neste país toda a minha vida e só alguém que aqui não esteve ou é muito esquecida pode negar os significativos avanços na luta contra estes cancros, que tem de ser constante e sem descanso.

Num país pobre e com problemas de desigualdade muito sérios vender a ideia de que a razão para todos os problemas é a corrupção e o compadrio é a coisa mais fácil do mundo. Dá muito mais trabalho avaliar uma política pública, as razões que levaram a decisões, as variantes envolvidas, do que simplesmente gritar num programa de televisão ou num artigo de jornal que ali houve tramoia - os casos das parcerias público-privadas ou as questões energéticas são exemplos gritantes. Há, assim, uma indústria de opinadores e até de associações que vive de construir a imagem de que vivemos num país a saque, uma autêntica república das bananas. Com sucesso, diga-se.

As consequências no clima de suspeita geral sobre os políticos e o que isso provoca na qualidade da democracia com o afastamento de pessoas de qualidade que, pura e simplesmente, não estão para ver o seu nome arrastado pela lama está por apurar, mas estou certo de que é muitíssimo superior às possíveis vantagens de uma qualquer denúncia por parte desses profissionais da indústria do "anda tudo a roubar" que possa ter tido razão de ser.

Dizer mal do futebol também é um mandamento essencial dessa gente. É um ambiente que não se pode frequentar porque aquilo é só bandidos - nem preciso de dizer a importância do futebol para o bom nome do país e a sua importância económica. Ou seja, numa atividade em que os portugueses estão muito envolvidos, em instituições intermédias relevantes, deveriam estar vedadas, por exemplo, a políticos, esses tipos que têm de tomar conta do bem comum e de estar junto das pessoas.

Um dos problemas que os vendedores do país a saque geram - e que tanto ajudam os populistas - é lançarem a confusão entre aquilo que merece condenação, o que não merece e o que precisa de uma reflexão que vá para lá da vontade de dizer mal porque sim.

Um bom exemplo é o da triste cena que o primeiro-ministro fez ao aceitar fazer parte da comissão de honra de Luís Filipe Vieira.

Todas as situações de políticos que participam nas vidas dos seus clubes foram postas em causa - como de costume, aliás. No fundo, esta passava por mais uma, mais grave por ser um primeiro-ministro, mas igual a tantas outras. E não foi, tanto no início como no epílogo.

Um primeiro-ministro aparecer como uma, de facto, testemunha abonatória de alguém num caso de corrupção de um membro de um órgão de soberania não é admissível por nenhum ângulo de análise. O futebol é detalhe, temos sim uma situação de potencial promiscuidade justiça/política. E que fique claro, nem por um segundo se põe em causa o sagrado princípio da presunção de inocência ou sequer se traz à colação antigas condenações. É tão-somente o dever de distanciamento entre política e justiça que está em causa quando se exercem funções como as de António Costa. Aquele cuidado que o primeiro-ministro teve com José Sócrates. No fundo, Vieira tem como testemunha abonatória em todos os processos que correm contra si o primeiro-ministro de Portugal.

No mesmo sentido, aparecer ao lado (e não é de agora) de alguém que é um dos maiores devedores de um dos bancos que andamos todos a pagar exigia outra contenção, melhor, leitura da sensibilidade popular.
Mas se tudo isto já era suficientemente grave, o primeiro-ministro, a figura política mais importante do país, sujeitou-se à humilhação pública de ver Vieira correr com ele da lista de apoiantes.

António Costa envergonhou-se e envergonhou as funções que desempenha.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG