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19 SET 2020
20 setembro 2020 às 18h14

10 figuras para 10 figurões do campeonato

Pegámos na classificação do campeonato dos campeonatos e escolhemos as 10 figuras de cada uma das equipas do top 10. Eusébio, Fernando Gomes, Peyroteo são as figuras escolhidas nos três grandes.

No top 10 da história do campeonato, baseado em presenças, jogos e, mais valorizado, vitórias, apenas dois históricos estão fora da I Liga. O Vitória Futebol Clube (72 participações, 2072 jogos e 694 vitórias), com o 7.º lugar do clube de Setúbal a não evitar o choque da despromoção administrativa e a Académica (64 participações, 1704 jogos e 516 vitórias) confortavelmente na 9.ª posição à frente do Marítimo (41 participações, 1312 jogos e 446 vitórias), que fecha esta lista. Os únicos totalistas de presenças, e dominadores de títulos, ocupam o pódio. São, obviamente, Benfica (87 participações, 2432 jogos e 1664 vitórias), FC Porto (87 participações, 2432 jogos e 1619 vitórias) e Sporting (87 participações, 2432 jogos e 1501 vitórias). Seguem-se, em 4.º, Belenenses (77 participações, 2146 jogos e 877 vitórias) - polémicas de registos entre a SAD e o clube de origem à parte -, em 5.º, o Vitória Sport Clube (76 participações, 2222 jogos e 863 vitórias), em 6.º, o Sporting Clube de Braga (65 participações, 1956 jogos e 755 vitórias). O Boavista Futebol Clube (58 participações, 1738 jogos e 666 vitórias) está em 8.º. Craques sempre houve e haverá, encontrar numa figura que os represente sob um emblema é propenso a discussões, quase todas elas válidas e meritórias.

Benfica

Terceiro melhor marcador de sempre do campeonato, com 318 golos (menos um do que Fernando Gomes e a 14 do recordista Peyroteo, 332). Um detalhe num currículo brilhante, individual e coletivamente. Eis Eusébio, a "pantera negra", ou a pantera negra, Eusébio. Com uma potência e colocação de remate que ainda hoje são difíceis encontrar, Eusébio da Silva Ferreira é a grande referência do futebol em Portugal até Cristiano Ronaldo. E mesmo assim. Em Inglaterra, conquistou o mundo e quase o Mundial 1966, sendo considerado Bola de Ouro pela France Football, o melhor a atuar na Europa. Ganhou duas vezes a Bota de Ouro de melhor marcador europeu. Além do terceiro lugar em Inglaterra, foi campeão europeu pelo Benfica em 1962 (o clube bisou, depois do ano anterior), marcando dois golos. Jogou mais três finais no início da era das finais perdidas do clube da Luz (dez: sete na prova principal, três na Taça UEFA/Liga Europa). Ganhou 11 campeonatos nacionais e cinco Taças de Portugal e venceu sete vezes a Bola de Prata destinada ao melhor marcador do campeonato nacional. Na carreira, marcou 733 golos em 745 jogos (41 em 64 internacionalizações pela seleção de Portugal).

FC Porto

A Fernando Gomes podem contrapor 20 nomes (de Deco a Pinga, de Hernâni a Jardel). Mas nas Antas a Gomes chamam-lhe o bibota. Por ter ganho duas Botas de Ouro europeias (melhor marcador dos campeonatos do Velho Continente). Falhou a final de Viena por lesão, mas pertence-lhe uma grande parte do título europeu de 1987, o primeiro de uma história de sucesso imparável do FC Pinto da Costa. Ponta-de-lança, avançado inteligente e com um sentido de posicionamento que só terá paralelo em Nené (colega de seleção e adversário do Benfica), marcou golos em catadupa. E deu tantos a marcar, ofuscados pelos que assinou. Marcou mais do que Eusébio no campeonato (319 vs. 318), sucedendo-lhe como referência decisiva no panorama da bola na rede. Portuense e portista, estreou-se na equipa principal do FCP em 1974. Entre 1976-77 e 1978-79 conquistou por três vezes a Bola de Ouro (melhor marcador) e foi bicampeão nacional. Agastado com uma lesão no Sporting Gijón, foi das primeiras decisões de Pinto da Costa como presidente: recuperá-lo para os azuis e brancos. Foram mais duas Botas de Ouro (1983 e 1985), três de prata, campeonatos e a primeira final europeia do clube, a infame derrota com a Juventus em 1984.

Sporting

Quando Fernando Baptista de Seixas Peyroteo (Peyroteo, golo), em 1949 se retirou, aos 31 anos, foi um choque. O Sporting perdia um goleador prolífico e ainda há quem defenda que o tetra seria uma realidade em 1950 (chegaria a Alvalade na década seguinte). Peyroteo, golo: em 332 jogos oficiais de leão ao peito, marcou 540 golos. É o recordista do campeonato, com 332 - e uma média de um golo por cada 53 minutos. Uma anomalia funcional, no caso: há apenas quatro outros jogadores com mais golos (mais de cem) do que jogos, ou tantos como: Mário Jardel (183 em 183, 83 minutos por golo - mpg); Eusébio (318 em 313, 86 mpg); José Águas (291 em 281, 87 mpg); e Julinho (168 em 166, 89 mpg). Peyroteo será para sempre herói imortal do Sporting Clube de Portugal, sendo o terceiro jogador da história do clube com mais títulos: 19 em 12 épocas, apenas superado pelo guarda-redes João Azevedo (23 títulos em 17 épocas) e por Manecas (21 títulos em 16 épocas). Era o ponta que unia as estrelas de duas das mais famosas linhas ofensivas do Sporting, e do futebol português: a primeira, menos conhecida, com Mourão, Pedro Pireza, Manuel Soeiro e João Cruz; e os Cinco Violinos, com Jesus Correia, Albano Pereira, José Travassos e Manuel Vasques.

Belenenses

Sebastião da Fonseca Lucas, o Matateu, não foi campeão nacional. O grande craque do Belenenses esteve a quatro minutos de o conseguir em 1954-55, quando um golo do Sporting na última jornada mandou o título para a Luz. Portanto, há uma lista de campeões (1945-1946 - o único clube fora do eixo "três grandes" até ao título do Boavista em 2001), mas sem Matateu, a maravilha inesgotável. Depois de Belém, andou por todo o lado (da II Divisão ao Canadá) e ainda fazia jogos profissionais aos 60 anos. Dessa lista fazem parte outros imortais, como Artur Quaresma, Mariano Amaro, Serafim das Neves, Vasco Oliveira, Armando, Feliciano, Francisco Gomes, António Capela, Rafael Correia, Manuel Andrade, José Pedro, Elói, Mário Coelho, José Sério, Francisco Martins, Mário Sério e António Martinho; e o treinador Augusto Silva. Antes de Eusébio, curiosamente também nascido em Lourenço Marques, Moçambique, cerca de duas décadas depois, nunca o futebol português vira um fenómeno desta magnitude. Os seus feitos - golos e poder de destruição das defesas contrárias - surgiam por todo o mundo. Foi duas vezes melhor marcador do campeonato, do qual é o 7.º melhor marcador de sempre com 219 golos. Ganhou uma Taça de Portugal em 1959-60.

V. Guimarães

O VSC (Vitória Sport Clube) é um fenómeno em muitos aspetos, um pouco comum: poucos clubes têm tantos guarda-redes ilustres. (Alguns) exemplos: Vítor Damas, Jesus, Neno e Silvino, todos internacionais. E de entre tantos craques mais antigos (Tito, Djalma Freitas, etc.) ou mais recentes (Pedro Martins, Pedro Barbosa, Paulinho Cascavel), surge N'Dinga Mbote Amily, zairense (hoje, o país é República Democrática do Congo). Um dos mais polémicos e talentosos. Polémico porque em 1987-88 abriu uma ferida ainda aberta com a Académica, que reclamou utilização irregular e pediu a descida dos vimaranenses (acabando por descer a Briosa). Talentoso porque nas décadas de 1980 e de 90 era motor, guia, gazua, olhos e coração do VSC que batia o pé a qualquer adversário. N'Dinga chegou, viu e venceu: em 1986-87, o Vitória conseguia o 3.º lugar no campeonato pela segunda vez na história, depois do longínquo 1968-69 - e que repetiria em 1997-98 (época seguinte à saída do médio) e 2007-08. Ao Vitória que destilava futebol bonito, agressividade e ambição: ganhou o único título do século XX ao bater o FC Porto na Supertaça de 1988. Um confronto resultante da final da Taça de Portugal perdida (0-1) para o campeão 1987-88 (FC Porto), época em que os minhotos chegaram aos quartos-de-final da Taça UEFA.

Sp. Braga

Fino com uma "mula", alcunha que lhe deu o sábio Quinito que potenciou o Sp. Braga da década de 80 do século XX, Eduardo Mendez herdou o Dito do pai, Eduardito. Um galego bom de bola que viera jogar para o Gil Vicente nos anos 1960. Dito era "mula" porque falava pouco, mas jogava muito. A antecipar intenções, a sair a jogar, a rematar com potência e colocação invulgares para um central do início dos anos 1980. Representa uma linha de jogadores que deram glória ao Sp. Braga no campo e na tesouraria - foi vendido ao Benfica, onde passou duas épocas (1986-87 e 1987-88, com final da Taça dos Campeões, perdida para o PSV nos penáltis), e saiu com polémica para o FC Porto, jogando apenas uma época nas Antas. Colocar Dito como símbolo dos craques do Sporting Clube de Braga é homenagear um homem inteligente, um futebolista de eleição, mas também a memória. De uma vida curta para um homem que morreu no início deste mês, aos 58 anos. Porque Braga viu Mendonça (o primeiro a jogar em Espanha, no Deportivo e, depois, como craque e hoje lenda do Atlético de Madrid), Perrichon (marcou o golo decisivo na Taça conquistada em 1966), João Cardoso, Chico Faria, Chico Gordo ou Karoglan, a estrela do super Braga dos anos 1990, com Manuel Cajuda.

V. Setúbal

O período de ouro do super Vitória, nacional e europeu, teve em Jacinto João, o genuíno JJ, o seu craque. Estrela de imprevisibilidade, drible e mudanças de direção sem reação, JJ foi o extremo-esquerdo que deu poder e fantasia a uma equipa de craques. Jogadores como José Maria, José Torres, Duda, Octávio Machado, Matine, Vítor Baptista, Figueiredo, Jaime Graça, Carlos Manuel ou Caíca, entre muitos outros. Oriundo do FC Luanda, cidade onde nasceu, representou o Vitória entre 1965 e 1979, exceto a passagem entre 1975 e 1976 na Portuguesa (Brasil). Era a fera da equipa que com José Maria Pedroto se tornou no melhor Vitória de todos os tempos. Entre 1969 e 1974, intromete-se na luta pelo poder futebolístico de Sporting e Benfica, chegando ao 2.º lugar (em 1972), três vezes ao 3.º lugar (em 1970, 1973 e 1974) e uma vez ao 4.º (em 1971, igualando o registo de 1969). E que perdeu por pouco a final da Taça de Portugal em 1972-73 (2-3) com o Sporting. JJ esteve em três das quatro finais da Taça de Portugal consecutivas, chegando com o Vitória detentor do troféu (ganho pela primeira vez em 1964-65), ganhando em 1967 (a mais longa com duas horas e 24 minutos) e perdendo duas para Sp. Braga (1966) e FC Porto 1968).

Boavista

O Boavistão teve duas vidas, até ao momento - em que uma parceria com o investidor Gerard López e o estratega Luís Campos dão esperança no Bessa para uma terceira, sustentada em reforços de elite. O primeiro era comandado por Valentim Loureiro no cadeirão e teve o dedo de José Maria Pedroto no banco; o grande símbolo em campo foi Manuel Barbosa, um médio de combate, mas que tratava a bola por tu. Manuel Barbosa é o jogador que mais vezes vestiu a camisola axadrezada: 345 entre 1968 e 1983. Nos últimos anos, foi o capitão de uma equipa cheia de talento, manha e inteligência que na década de 1970 e início dos anos 1980 conquistou três das cinco Taças de Portugal do clube e uma das três Supertaças. O campeonato foi ganho em 2001, na segunda vida, com João Loureiro a suceder ao pai Valentim como presidente em 1997. Jogou na II Divisão (última subida em campo em 1968-69 - em 2014-15 foi promovido pela federação administrativamente da descida em 2008-09 devido ao processo judicial Apito Final e dívidas à Liga), estava na primeira luta pelo título, perdido para o Benfica em 1975-76 (o primeiro 2.º lugar). Craque de perícia, técnica, liderança num clube por onde passaram, em diferentes fases, Caiado, João Alves, Sánchez, Timofte, Nuno Gomes, João Vieira Pinto, etc.

Académica

Craques, na Briosa, eram doutores em campo e obtinham (a maioria) formação universitária fora dele. Na década de 1960, o capitão era Pedro Miguel Rocha, já neste século fisioterapeuta da Académica. Liderava uma equipa na melhor fase da sua história: 4.º lugar no campeonato 1964-65, chegando à melhor classificação da história (2.º) em 1966-67, discutindo o título com o Benfica e a final mais longa da Taça, duas horas e 24 minutos e uma derrota (2-3) com outro grande da época, o Vitória de Setúbal. A equipa era orientada por um ex-jogador, o "velho capitão" Mário Wilson, e Rocha, "o macaense" (nasceu em Macau) liderava com solidez o talento que brilhava em nomes como Artur Jorge (segundo melhor marcador do campeonato em 1967), Toni, Rui Rodrigues, Manuel António e os irmãos Campos (Vítor e António). Um ano depois, mais um quarto lugar e a estreia nas competições europeias (eliminação por moeda ao ar com o Lyon) e, em 1969, a famosa final da Taça no Jamor com o Benfica em que o Estado Novo sofreu um golpe irreparável pela contestação estudantil, com colaboração dos colegas do Benfica (que ganhou o jogo). Rocha ainda é (e continuará a ser) o jogador com mais jogos (455) pela Académica. A Académica dos sonhos infinitos que ganhou a segunda taça em 2012 com um golo de Marinho a abater o Sporting.

Marítimo

A fortaleza dos Barreiros tem décadas e uma das paredes é Carlos Jorge, um dos melhores jogadores madeirenses. E que lista: Cristiano Ronaldo ou Pinga e nomes menos famosos, mas nunca esquecidos na ilha e no Marítimo como o "eterno capitão" Ângelo Gomes, Tininho ou Eduardinho, estes todos ligados ao Club Sport. Carlos Jorge, entre 1985 e 2000 (com duas épocas de permeio no Sporting, 1992-93 e 1993-94), acumulou o maior número de jogos de verde-rubro: 319. Nem Briguel (316), que lhe sucedeu como grande capitão, conseguiu lá chegar. Central alto e forte, Carlos Jorge utilizava a inteligência posicional e a personalidade discreta para anular adversários e motivar colegas. Comandou a equipa no melhor período do clube, com uma final da Taça (1995, perdida para o Sporting que representara nas duas épocas anteriores; houve outra perdida no ano seguinte à reforma do central, em 2001, frente ao FC Porto) e três dos seis 5.ºs lugares no campeonato, a melhor classificação do Marítimo. E o primeiro foi quando Carlos Jorge tinha saído para a incursão em Alvalade, em 1992-93. Carlos Jorge foi ainda adjunto de vários treinadores após o final da carreira e é um símbolo incontornável do Club Sport Marítimo, de craques diversos e abundantes.