Efeitos colaterais da exaustão

Mais uma volta no carrossel do Brexit. Há acordo ou não há acordo? É aprovado em Westminster ou não? Há novo referendo? Nova extensão do prazo? Eleições antecipadas? Muitas destas dúvidas permanecem. A única certeza é que a exaustão deste penoso processo tem levado todos a ajustar comportamentos, com efeitos desconhecidos. Nada será como dantes.

A exaustão sobre o Brexit é geral. Os políticos britânicos deixaram de ter espaço para introduzir outros pontos na agenda e a fragmentação de caminhos ao fundo do túnel continua a caracterizar os posicionamentos dos partidos. Desengane-se quem pensa que um acordo recauchutado em Bruxelas clarifica as posições em Londres. Pode alterar algumas posições de deputados no sentido da aprovação do acordo, mas isso não significa tornar a oferta das várias bancadas mais clara. Já a sociedade britânica está à beira de um ataque de nervos. Dispersa voto irritado, desacreditada que está dos dois grandes partidos e das guerras intestinas que os consomem e que, em boa verdade, conduziram ao referendo, ao resultado e ao trajeto até aqui. Não vai ser fácil recuperar de tudo isto.

Do lado das empresas e dos imigrantes, a apreensão permanece, uns com planos de contingência montados, outros sem escala para isso e por isso à mercê de decisões mais arriscadas. A imprensa vai tentando acompanhar as várias dinâmicas britânicas e comunitárias, tomando cada vez mais partidos e trincheiras, numa espiral de análises em que fica difícil não escrever julgando constantemente os protagonistas ou tentando encontrar ângulos pouco explorados. Estamos todos no mesmo barco, confesso. A exaustão, porém, é um dos métodos clássicos de negociação política e, em processos em que o relógio está em contagem decrescente, pode ter resultados inesperados.

O primeiro é criar a ilusão de ter tornado Boris Johnson um governante mais moderado do que a sua exuberância indicaria. Claro que essa moderação só resulta do pragmatismo que sempre o acompanhou e que faz dele um portador de soluções de algibeira prontas a apresentar em função do contexto. Na oposição, vestia um fato. Na Câmara de Londres, outro. Na campanha para o referendo, vários. No governo, mais um, despojado logo depois quando foi preciso ganhar a liderança do partido. É de facto impossível manter aquele cabelo penteado com tanta cambalhota. Estes meses como primeiro-ministro levaram o jogo de cintura de Johnson a outro nível, à medida que ia lendo a dinâmica em Westminster, Bruxelas e sobretudo as sondagens. Dias houve em que o apocalipse da saída sem acordo era o objetivo, outros em que a negociação com os irredutíveis 27 um imperativo moral. Dias em que a queda do governo era um objetivo forçado, outros em que a agressividade contra os Comuns intercalava com um ou dois sinais de disponibilidade negocial. No meio deste longo percurso político, só por exaustão é que Boris Johnson consegue os seus objetivos. Contudo, é na permanente cambalhota que pode estar o veneno. É que, com um acordo renegociado em Bruxelas, deixa de poder constar das propostas de Johnson numa eleição antecipada qualquer saída abrupta, capaz de atrair todos os que votaram no Brexit Party e acomodar os conservadores que defendem esse caminho. Isto muda o cálculo de vitória antecipada numa eleições a curto prazo.

O segundo é criar a ilusão de ter tornado Jeremy Corbyn um fator de pressão sobre o governo, em resultado de uma frente comum das oposições que supostamente o líder trabalhista conseguiu congregar nos últimos dois meses. Esta frente não só não existe como nem sequer é unívoca nas propostas que apresenta. Os liberais-democratas e os escoceses querem que o Reino Unido permaneça na União Europeia e estão disponíveis para fazer qualquer coisa que reverta todo o processo. No caso do SNP, até a radicalizar o tempo de fadiga que se vive com o Brexit, lançando um novo referendo à independência, desta feita unilateral, que porá os cabelos em pé a Londres e a Bruxelas. Basta ver como está a situação na Catalunha para se antecipar alguns dos feitos.



Já os trabalhistas continuam com as habituais nuances internas: há quem queira a permanência, quem queira a saída ordenada com um acordo, quem queira um referendo que recupere a questão de 2016, quem queira um referendo para validar um acordo de saída, até quem queira sair sem acordo e pôr fim a esta história. Jeremy Corbyn, sendo genuinamente um brexiteer, foi assumindo todos estes papéis ao longo do seu mandato, sem nunca consolidar uma linha coerente, percetível e mobilizadora. Se o Brexit está em modo de exaustão coletiva e chegou como chegou até 2019, a Corbyn muito deve. Para este, a rejeição preanunciada do acordo renegociado por Boris Johnson implica poder assistir, como já está a suceder com mais de uma dezena, a que vários deputados trabalhistas se juntem ao primeiro-ministro na votação de hoje. Os efeitos de mais esta tensão interna podem não ser meigos.

Por fim, a ideia de que em Bruxelas não existia espaço algum para aberturas negociais, tal como todos os líderes europeus foram expressando à exaustão. Como se viu, perante esta e o relógio escancararam com facilidade as portas a Boris Johnson no primeiro Conselho Europeu em que esteve participou. A fadiga processual tem levado toda a gente a ceder, a alterar posições aparentemente inflexíveis, a assumir efeitos que não estavam previstos ou posturas que não queriam assumir. Todos vão ter de gerir politicamente estas inversões de percurso, quer o acordo passe hoje ou não nos Comuns. As mudanças de figurino aos olhos dos eleitorados só serão aceites se produzirem bons resultados, ou pelo menos se reduzirem os riscos que os cenários mais negros levantavam. Caso isso não suceda, não é por se assinar um acordo em Bruxelas que haverá desanuviamento em Londres. Ou em Edimburgo. Ou sequer em Belfast ou em Dublin. Pelo contrário. O Brexit é um processo, não é um momento escrito. A primeira etapa, penosa ao ponto de exasperar tudo e todos, só agora está à beira de poder ser dirimida. Qualquer que seja o desfecho hoje, as próximas etapas prometem intensidade semelhante.

Investigador universitário

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