Lisnave. Memórias da empresa que até nas greves era referência

A Lisnave foi uma das principais empresas nacionais e uma referência na reparação naval. E pelos estaleiros de Almada, agora abandonados, passou também uma parte da história de Portugal social e política. Que agora é recordada numa exposição no Museu Naval da cidade.

"Isto deixa-me uma nostalgia..." António da Silva Xavier está parado na entrada principal dos terrenos onde durante 30 anos existiu uma das maiores empresas portuguesas: a Lisnave. Olha em redor e vêm-lhe à memória os 25 anos que trabalhou naqueles 45 hectares da Margueira, na Cova da Piedade (Almada). E os 25 anos que passaram desde que, pela última vez, saiu dos estaleiros onde só regressou na passada sexta-feira, dia 16 de novembro, acompanhado pelo DN.

Foi um quarto de século que António Xavier passou entre docas, válvulas e geradores. Entrou em 1970 e saiu em 1993, a trabalhar numa empresa que marcou a vida social e política de Portugal antes e depois do 25 de Abril de 1974. A história da Lisnave é essa história de glória naval - os seus funcionários eram reconhecidos mundialmente e os estaleiros de Almada tinham bastante procura. Mas também é a história de greves e protestos que marcaram o país entre 1975 e os anos 90. E é toda essa história que a Câmara de Almada quer homenagear com uma exposição que abre esta segunda-feira ao público no Museu Naval da cidade.

Pórtico de Identidade. A Lisnave em Almada é o título da iniciativa que vai avivar a memória de antigos trabalhadores e mostrar aos mais novos o que era a vida naquele estaleiro que marcou a cidade e levou ao seu crescimento. Para muitos, o terreno deserto, com erva a crescer, edifícios partidos, estruturas ferrugentas e as docas abertas ao sabor das mares do rio Tejo, é uma visão triste, muito triste.

"Quando passo ali vem uma mágoa. Aquilo foi uma grande casa." Clemente Mitra, que agora é o presidente da direção dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, também acompanhou o DN na visita ao que resta da antiga Lisnave e, tal como António Xavier, não esconde a mágoa por ver o abandono a que está votado o espaço que já foi quase uma cidade e que agora serve para eventos esporádicos - como um exercício recente da GNR ou a gravação, há quatro anos, do vídeo Raised by Wolfes, canção que faz parte do álbum Songs of Innocence, dos U2.

Os dois antigos funcionários fazem um passeio por algumas das zonas do antigo estaleiro, explicam o que se fazia em algumas - como o edifício que ficou conhecido como o Desemprego, pois era para ali que nos anos de decadência da empresa os trabalhadores iam quando não tinham trabalho, mas não podendo abandonar as instalações - e falam, com orgulho, do que se fazia na doca X ou no edifício Y.

Uma viagem pela história

Os estaleiros de Almada foram inaugurados a 23 de junho de 1967 - os primeiros navios a entrar foram o Príncipe Perfeito e e o Índia, ambos da Companhia Nacional de Navegação - na sequência de um requerimento da empresa Lisnave-Estaleiros Navais de Lisboa, de José Manoel de Mello, para a construção da infraestrutura na Margueira.

E assim nasce a principal estrutura de reparação de navios em Portugal e que ao longo dos anos se transformou numa referência internacional, chegando a ter perto de 11 mil funcionários e nas suas docas alguns dos maiores barcos do mundo. Era uma estrutura impressionante para a época, como refere um depoimento que se pode ler na exposição disponível no Museu Naval de Almada. "A Lisnave era praticamente uma cidade dentro de outra cidade, a funcionar 24 horas por dia, 365 dias por ano", deixou escrito num cartão, da exposição, um trabalhador de nome Luís Milheiro.

Foi de tal ordem a importância da empresa que Almada cresceu para as freguesias conhecidas como Laranjeiro, Cacilhas, Cova da Piedade. O comércio e o urbanismo aumentaram de forma exponencial. Falando em marcas que ficam para a história, há uma que não deverá desaparecer - aliás, é peça essencial do projeto chamado Cidade da Água, que pretende construir edifícios de habitação, um hotel, um museu, um centro de congresso e uma marina - é o pórtico que pode movimentar 300 toneladas e que no topo tem escrito Lisnave.

A pressa de Américo Thomaz

Um dos momentos importantes da Lisnave foi a inauguração da doca 13 e do pórtico vermelho que se vê de todo o lado. A cerimónia de abertura ao Tejo desta estrutura - que ficou disponível em 1971 e que permitia receber navios até um milhão de toneladas, que não existiam na época - ficou gravada em vídeo pela RTP e entre as imagens há uma que ficou célebre e que pode ser vista num dos ecrãs disponíveis na exposição.

É o momento em que Américo Thomaz, o 13.º Presidente da República e o último do Estado Novo - entre aplausos na bancada olha para o relógio e comenta algo para quem está ao seu lado que não ficou gravado, mas que dá a ideia de que o presidente estava com pressa para sair do local.

Ganhar muito bem

"Era uma grande empresa, tínhamos todos os serviços, pagava bem. Repare, vim para aqui com 17 anos (em 1970 e saiu em 1986), era o trabalhador 22 771, e comecei a ganhar 4250 escudos (38,54 euros) quando o meu pai, que era cobrador na ponte de Vila Franca, ganhava 1020 escudos [9,25 euros]", conta Clemente Mitra mostrando a vantagem que era na altura trabalhar nestes estaleiros. Os ordenados eram acima da média nacional, mas não era só por isso que a Lisnave era uma referência. As condições dadas aos trabalhadores também eram superiores ao que a grande maioria das empresas ofereciam.

À entrada recebiam fatos-macaco, capacetes - de cores diferentes segundo a sua especialização -, malas de ferramentas. Tinham serviços de saúde, vários refeitórios, colónia de férias, apoios sociais. "Conhecíamo-nos todos pelo nome ou pelo local onde trabalhávamos", recorda o soldador que depois do 25 de Abril passou a ser bombeiro, já era voluntário em Cacilhas, pois quando regressou do serviço militar a sua secção tinha sido encerrada.

Toda esta história da empresa está retratada no museu. Ali, além de capacetes e fatos-macaco - por exemplo, os operários que trabalhavam à noite recebiam ceroulas e camisolas de gola alta -, pode-se ver cacifos, peças retiradas do estaleiro, estatísticas de acidentes, os locais onde os trabalhadores da Lisnave foram dar formação por serem considerados dos mais profissionais do mundo.

E mensagens. Muitas mensagens.

"Andávamos quase a cair de pé. Aconteceu-me entrar no autocarro, já morava aqui na Cruz de Pau, apanhar o autocarro frente ao portão da Lisnave e ir parar a Setúbal. Tomávamos um banho, sentávamo-nos no autocarro, ao fim de cinco minutos estávamos feitos um prego", escreveu um trabalhador identificado como Paulino Motaco dos Santos. Mais à frente, uma outra mensagem chama a atenção: "Quando a gente tira o fato-macaco ficamos mais macios, digamos assim. O fato-macaco mascara-nos, dá-nos uma máscara rude", diz Filipe Manuel Rua.

Mas nem tudo são boas recordações. Há quem, como José Alberto Rego dos Santos, não esqueça momentos difíceis. "Houve uma explosão enorme, uma coisa fora do vulgar, e morreram carbonizados uma série de homens que estavam lá dentro. Deve ter sido um horror porque nós ouvíamos no estaleiro eles a bater no costado do navio, a bater, a bater com as marretas para os salvarem. Foi horrível."

As greves e um petardo como recordação

Do ponto de vista laboral, a importância da Lisnave foi enorme. A exposição não esquece os protestos, as manifestações e a forma como as autoridades os terminaram. Como aconteceu a 22 de março de 1984 quando a polícia chegou a atirar petardos para dentro da Lisnave. E a prová-lo lá está um deles exposto numa vitrina. A ação mais marcante foi a que aconteceu em 1986 quando os trabalhadores fecharam a empresa, uma ocupação que terminou com a atuação da Unidade de Intervenção da PSP. No período pós-25 de Abril houve situações de "sequestro" de administradores por algumas horas, mas nada tão grave como aquela situação, alguns anos mais tarde.

A força dos trabalhadores da Lisnave, junto dos quais o Partido Comunista Português era líder, foi usada para várias lutas que não eram as da empresa. A ação mais famosa dos funcionários foi a de 12 de setembro de 1974 quando os operários marcharam sobre Lisboa com os seus fatos de trabalho e capacetes exigindo, no Ministério de Trabalho, "o saneamento dos fascistas". Na exposição, lá estão as faixas a lembrar a fome que os trabalhadores e as famílias passavam devido aos ordenados em atraso.

"Nós tínhamos a noção da nossa importância. Fizemos greves para ajudar outras empresas que tinham problemas com as suas administrações. Chegámos a dar cada um cinco escudos [0,0045 euros] para ajudar a pagar o ordenado do mês a algumas pessoas. Éramos uma referência", diz Clemente Mitra. Para António Xavier completar: "A maior força era do Partido Comunista, mas naquele tempo nem todas as nossas greves foram bem feitas. O patrão pagava-nos e nós íamos fazer greves pelos outros. Uma vez fizemos uma pela Rodoviária Nacional e mais tarde, quando estávamos a fazer uma pelos nossos direitos, os motoristas passavam e gritavam: 'Vão trabalhar malandros.'"

"E quem não era do PCP era revisionista", lembra o presidente dos Bombeiros de Cacilhas.

Entre protestos dos trabalhadores, o aproximar da cidade ao estaleiro, o que fez que as pessoas que moravam nos prédios que estão do outro lado da rua em relação às docas protestassem devido ao barulho e à sujidade que lhes entrava pela casa devido às tintas e à granalha (material utilizado para retirar a tinta dos navios), e a cada vez maior mão-de-obra barata que surgia pelo mundo da reparação de navios, o destino da Lisnave em Almada começou a ser traçado.

As encomendas de trabalhos diminuíram, até que em 2000 fechou portas e transferiu-se totalmente para Setúbal. Em Almada ficou o pórtico, os edifícios vazios, a erva a crescer e a esperança de que a zona volte a ganhar um dia o dinamismo que já teve.

O que também ficou foi o orgulho dos ex-trabalhadores e das famílias, como o de uma criança que escreveu num dos cartões que estão à saída: "O meu tio José Martins trabalhou na Lisnave (reboques), e sempre falou com gosto da Lisnave." A exposição abre hoje ao público entre as 09.30 e as 13.00 e as 14.00 e as 17.30. O Museu Naval encerra aos domingos e feriados.

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