A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.

Não foi imediatamente reconhecido que a Europa perdera a qualificação de "dominadora", porque os EUA, que entraram na guerra apenas quando os seus interesses foram severamente atingidos, designadamente pelo uso alemão da nova arma que eram os submarinos, foram quem dominou os tratados, a reformulação das estruturas políticas da Europa e a definição do ensaio da "paz sem vencidos" com a criação da Sociedade das Nações. O presidente Wilson condicionou as exigências de Clemenceau, fez aceitar o modelo do Estado-Nação, e assim desaparecerem na Europa os impérios (alemão, austro-húngaro, russo, turco): finalmente, nunca tendo assumido a qualificação de aliados na guerra, também não entraram na Sociedade das Nações.

Parte da Europa exagerou assumindo-se como vencedora da guerra, e alguém comentou que o Tratado não era de paz, mas de armistício para 30 anos. A previsão seria confirmada, e no período que vai de 1920 a 1930, com a memória da passada tragédia a ser atenuada, conseguiu-se um sentimento de regresso à vida habitual, no período de prosperidade e aparente estabilização internacional, mas a crise dos anos 1930 facilitou os totalitarismos, a fatal ascensão ao poder de Hitler, que desencadeou a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945. De novo com intervenção decisiva dos EUA, depois do ataque do Japão a Pearl Harbor, ficando a guerra marcada pelo horroroso genocídio com que Hitler visou extinguir o povo judeu e pelo uso da arma atómica que seria desenvolvido colocando nas mãos dos homens o poder atual de destruir o planeta.

A paz implicou duas Europas (a metade democrática e a metade soviética), duas Alemanhas, duas cidades de Berlim, dois pactos militares inimigos e a liquidação do império colonial euromundista (Holanda, Bélgica, França, Reino Unido, Portugal), impostos pela Carta da ONU e pela Declaração Universal dos Direitos do Homem: as guerras, e não a paz, executaram o fim do império colonial euromundista da Frente Atlântica. De novo a Europa perdeu estatuto internacional na hierarquia do poder, com a vantagem de fortalecer a esperança de um globalismo justo, no caso de a chamada guerra fria não o impedir.

Foi como descendente na hierarquia do poder mundial que a Europa Ocidental procurou conciliar os objetivos do rei da Boémia e a convicção de Camões, ao mesmo tempo que cada Estado procurou a retoma do progresso económico, chegando à definição de uma "era do consumismo de massas", enfrentando a crise de 1974, e ao mesmo tempo assumindo substituir o longo período das competições conflituosas internas pelo projeto da unidade.

A União Europeia foi um milagre de estadistas que não encontra equivalência na crise atual. O Tratado de Roma, de 25 de março de 1957, não fez esquecer a intransigência de De Gaulle contra a associação com o Reino Unido que lhe dera refúgio e ajudara a libertar a França, nem as diferenças de percurso das duas metades da Europa, nem que os EUA não foram aliados nas guerras mundiais mas associados diretores, nem as diferenças entre os Estados do Norte e os do Sul mediterrânico.

Memórias com que o desastroso Brexit do Reino Unido fez lembrar o comentário do prémio Nobel da Paz François Jacob de que "ninguém conhece o rumo que tomará a história. Nada está decidido, nunca". A situação permite compreender o comentário de Monnet quando nas Memórias lamenta ter começado pela cultura e não pela economia. Uma convicção que certamente aprofundaria se pudesse avaliar todas as dúvidas sobre a sabedoria de ter sido adotado o "euro" sem uma definição política suficiente da unidade europeia, com uma história mais marcada pela ambição do diretório do que pela da igual dignidade.

O facto inquietante da anarquia em que decorre o Brexit do Reino Unido aponta para mais dolorosa conclusão. O esforço realizado depois do fim da Segunda Guerra Mundial parecia admitir que se contrariaria o passado de que Barzun dizia que "a mais forte tendência do século XX foi o separatismo. Afetou todas as formas de unidade anteriores". Acontece que a rigidez da resposta da União ao Brexit é assumida quando as tendências e propostas de reformulação interna são numerosas. Estaria talvez mais de acordo com esta situação procurar um entendimento, mesmo proposto pelo Reino Unido, no sentido de se unir ao esforço da reforma e não chegar à situação criada.

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