"Com o nosso apoio foi possível desenvolver um candidato a vacina covid-19. Está em ensaios clínicos"

Primeira entrevista do novo CEO da Philip Morris Internacional, Jacek Olczak, que acaba de ser nomeado e que tomará posse em maio de 2021. Quer um mundo sem fumo, defende o tabaco aquecido e diz que o clima agradece. Consigo trabalham mais de 400 cientistas em inovação e saúde, incluindo em vacinas.

A partir da Suíça e na plataforma Teams, Jacek Olczak falou ao Diário de Notícias acerca da sua nova missão: liderar uma multinacional de tabaco que está apostada em acabar com o fumo. Parece uma contradição, mas para Jacek - até agora chief operating officer - o caminho para o seu mandato, que se iniciará em maio, é claro: trilhar um "unsmoked world" (um mundo sem fumo). Segundo a Philip Morris Internacional (PMI), em todo o mundo 9,6 milhões de consumidores fizeram a transição para o tabaco sem fumo graças a uma tecnologia que arrancou há seis anos, com a promessa de reduzir o efeito nocivo para a saúde por comparação com os cigarros. Em Portugal, a PMI detém a Tabaqueira, em Albarraque (Sintra) e quer transformar a produção de cigarros em IQOS, mas diz que "por causa da crise, este não é o momento para carregar no botão".

Como novo CEO, que estratégia definiu? Assentará num mundo sem fumo, com a do seu antecessor, Andre Calantzopoulos (que passa a chairman)?
Absolutamente, de outra forma não teria aceitado o cargo. Considero que a visão do Andre estava certa. Com ele trabalhei vários anos e conversávamos, há seis/sete anos, sobre esse produto, testes e consumidores, e concluímos que a ciência confirmou que o produto era muito melhor do que os cigarros. Acho que temos a estratégia certa. Há pessoas que consideram que não é excitante, porque é uma continuação do mesmo, mas eu respondo: estou muito orgulhoso e satisfeito de continuar o mesmo. É a visão certa. E demonstrámos que conseguimos resolver, de uma vez por todas, o problema de fumar. Para todos. Acho que em dez anos poderemos esquecer o ato de fumar tal como conhecemos. O grande benefício é não só para milhões de fumadores em cada país, mas para as famílias e as pessoas que os rodeiam. Nunca tivemos uma oportunidade como esta. Não estamos a vender um cigarro melhorado. Isto é realmente uma coisa revolucionária. Um produto em que estamos a inalar menos 95% das substâncias nocivas, incluindo substâncias cancerígenas, etc. Obviamente, as pessoas, mesmo assim, dizem que "não está provado, que não é verdade". Eu percebo, e há cinco anos poderia ser uma boa conversa. Mas não hoje, não. Então todos os cientistas estão errados? Sejamos realistas.

Como está a crise da covid-19 a afetar o negócio da PMI?
Da mesma forma que afeta uma companhia aérea, por exemplo, ou a indústria. O produto está a ser usado em diversas ocasiões, na rotina diária. Uma pessoa acorda de manhã, toma o pequeno-almoço e fuma o seu primeiro cigarro... A humanidade foi confrontada com um facto que toca a vida de todos, não só de uma perspetiva de saúde, mas também de uma perspetiva económica. Perderam-se muitos postos de trabalho apenas porque se quis prevenir a disseminação do vírus. Não quero falar do que é certo ou errado. Este é um evento pandémico. Acho que todos devemos agir em conjunto para encontrar a solução. A realidade é que o impacto se vê na mudança de todas as nossas rotinas. Não viajamos, não vamos trabalhar do mesmo modo, não vamos ao centro comercial da mesma forma, não vamos ao restaurante, não temos férias da mesma maneira. Todos os aspetos da nossa vida ficaram de cabeça para baixo. Quanto mais depressa resolvermos esta pandemia melhor.

Trabalhando mais em casa, o consumidor tem tendência a fumar menos? Ou o stress da crise faz subir o consumo?
Cada fumador é diferente. Não gostaria de generalizar. A verdade é que o consumo do produto está relacionado com momentos durante o dia, e a rotina diária foi completamente prejudicada. Há padrões de fumo diferentes. Se não há oportunidade de ir ao restaurante, ao bar, ao exterior, então podem fumar menos. A diminuição do turismo, o encerramento das fronteiras também têm impacto negativo. Mas em países desenvolvidos o impacto é menor.

De que forma é que a empresa tem evitado o contágio e preservado postos de trabalho?
O que é importante é que, durante esta crise, tentámos sempre proteger os nossos funcionários o mais possível, adotámos todas as soluções de trabalho remoto, investimos muito na fábrica para que as pessoas se sintam confortáveis com o seu espaço, não permitindo que se reúnam ao mesmo tempo quando há mudança de turnos. Tem sido feito um trabalho fantástico. E é importante não termos perdido o foco no IQOS. Sobre as equipas, não se trata de fazer redução, mas de transformar as unidades para criar a capacidade de continuar a produzir. Há locais no mundo em que, por causa da pandemia, o emprego desceu. Mas nós contratámos e minimizámos o impacto negativo através do ajustamento da estrutura.

Mais do que nunca, todos temos preocupações com a saúde. O modelo do IQOS tem futuro ou exige novos desenvolvimentos?
Esta é a tecnologia certa, confirmada pela ciência e com toda a fundamentação. Isto é importante. Há sempre melhorias na perspetiva do interface do utilizador, e no próximo ano queremos ter mais componentes reutilizáveis.

Em Portugal o IQOS não é acessível a consumidores com baixos rendimentos. O seu antecessor admitiu, numa entrevista ao Dinheiro Vivo, uma redução de preço para breve, tornando-o mais acessível. Concorda?
Bem, estamos a trabalhar em cortar o custo sem comprometer o produto. Além disso, está a ficar mais barato porque há economias de escala. No início fizemos um esforço, subsidiámos os equipamentos, e os clientes têm de olhar para isso. Investimos sete mil milhões de dólares [5718 milhões de euros] no desenvolvimento do produto. Custa dinheiro, mas tem resultados significativos.

No próximo ano já será mais acessível?
Por motivos de concorrência não posso fazer esse tipo de promessas. Mas prometo que não abandono essa ideia, nenhum desenho das minhas estratégias foi feito para deixar de fora os 1,5 milhões de fumadores portugueses. Tenho de descobrir como tornar este equipamento disponível para todos.

Quando é que a fábrica em Portugal, a Tabaqueira, produzirá IQOS? O seu antecessor mencionou essa intenção, sem data...
O plano depende da evolução. Nas fábricas que temos, e obviamente com o declínio da procura pelos cigarros, estamos a convertê-las em fábricas de investigação e desenvolvimento. Mas isto é mais uma questão tática, de saber qual o momento certo para carregar no botão. A Tabaqueira é uma das nossas melhores fábricas, mas temos de ser cautelosos. O cash flow que hoje temos nos cigarros também será redirecionado para suportar o IQOS. 2021 está a chegar e vem depois 2022... esperemos que as coisas acalmem. As pessoas recebam a vacina, o vírus desapareça - pelo menos na sua maioria -, e então podemos pensar no que podemos fazer com o negócio.

Os vossos mais de 400 cientistas estão a colaborar em alguma investigação relacionada com vacinas?
A PMI tem uma participação numa empresa biofarmacêutica no Canadá, que se especializou no desenvolvimento de vacinas usando uma tecnologia à base de plantas, e há uma variedade da planta do tabaco. Sabemos muito sobre ela e como a modificar. Através do nosso investimento nesta empresa, temos apoiado a investigação e desenvolvimento de vacinas, consistente com os esforços da PMI no desenvolvimento científico e inovação. É uma tecnologia muito promissora, pois permite desenvolver e produzir vacinas a um custo muito menor e de forma mais rápida. Portanto, este é um dos recursos que também olhamos, para quaisquer perspetivas que a empresa possa ter além do core business. Podemos aplicar as nossas capacidades para usos completamente diferentes. Esta empresa já foi bem-sucedida no desenvolvimento de uma vacina contra a gripe, e ficámos muitos satisfeitos porque com o nosso apoio foi possível desenvolver, produzir e disponibilizar um candidato a vacina para a covid-19, que se encontra em ensaios clínicos de fase 2/3. Recentemente, esta empresa recebeu também apoio do Governo canadiano, o que é um bom exemplo de que melhores resultados podem ser alcançados quando governos e empresas unem esforços para promover objetivos comuns para um bem maior.

A descarbonização também será uma meta?
O objetivo é ter um negócio sustentável. Temos metas muito ambiciosas, porque usamos a abordagem científica, especialmente nas emissões de carbono. Há duas semanas recebemos a distinção Carbon Disclosure Project (CDP), uma das dez organizações no mundo reconhecidas como Triple, pelo projeto de redução de carbono. Acho que já somos uma das dez melhores empresas do mundo a chegar a esse patamar e levamos isso muito a sério, desde a gestão de recursos, do carbono e emissões. Já temos uma série de fatores que são neutros em carbono.

Covid-19. "Aplicámos medidas mais restritivas do que as do Governo"

O processo de reprivatização da Tabaqueira, em 1997, marca o início da presença da Philip Morris Internacional (PMI) em Portugal. Esta multinacional é a principal empresa de fabrico e comercialização de tabaco do mundo. Hoje o grupo Tabaqueira/PMI emprega mais de mil pessoas e está entre os dez maiores exportadores nacionais. Em 2019, dos 26 mil milhões de cigarros produzidos, 82% seguiram para os mercados internacionais, incluindo Espanha, Itália e França. No total, no ano passado, a Tabaqueira exportou 605 milhões de euros, tendo registado um volume de negócios de 1500 milhões de euros. Em Portugal, desde 2017 que o diretor-geral é lusitano, Miguel Matos.

A fábrica da Tabaqueira produz cigarros, mas ainda não fabrica IQOS. Isso afeta a competitividade da unidade industrial portuguesa?
Conseguimos manter a competitividade, já a tínhamos antes do IQOS. Há uns anos, quando houve a primeira ideia sobre o IQOS, sim, agora temos de analisar. Mas esse é o caminho, é um processo evolutivo.
Como tem sido lidar com o absentismo por efeito da pandemia?
Gerimos bem, porque implementámos, desde cedo, medidas de restrição e mais rigorosas do que as ditadas pelo Governo. O distanciamento social, a utilização de máscaras e viseiras, o álcool-gel que fazemos na fábrica e que distribuímos aos trabalhadores. Tivemos alguns casos de covid-19 entre funcionários, apenas na segunda vaga, mas nenhum deles foi infetado nas nossas instalações. Foram todos casos de contágio em contexto pessoal. No início da pandemia, honestamente, foram momentos assustadores, mas, no fim, acabou por correr tudo bem e as pessoas sentiram-se confortáveis a ir para o trabalho. E isso é muito importante.

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