O turismo também é um "ismo"

Uma sociedade será tanto mais madura quanto maior for a sua capacidade de, coletivamente, conjugar a mudança do mundo nos "ismos" que lhe regem a produção intelectual e as políticas. O turismo, como "ismo" e tal como o mundo, são outros, ainda bem que são, que se transformam, desde as termas dos romanos e das peregrinações da Idade Média até ao turismo massificado.

Surpreendo-me quando ouço queixumes acerca do aumento da afluência de turistas a Portugal. Sobretudo os de pessoas preocupadas com o perigo de uma eventual desidentificação cultural do nosso cantinho à beira-mar e do manjerico nele plantado. Quem não ouviu já aquela piada irónica (com várias variações e cuja origem creio desconhecer) em que um lisboeta se vira para os amigos e diz "vejam lá vocês que fui ao Chiado há pouco e até ouvi falar português"?

Confesso que também me ri. Mas também reconheço que basta descer do Chiado até à Praça do Comércio para perceber que qualquer tentativa de definição de uma identidade monolingue e monocultural de Lisboa só pode revelar a ingenuidade intelectual de quem a tenta. Pois se todos os caminhos iam dar a Roma, não se poderá dizer, liricamente até, que noutros tempos todas as ondas vinham rebentar ao Cais das Colunas? Basta um passeio histórico pela tradição artística da representação pictórica da Praça do Comércio de Lisboa para chegarmos à conclusão de que ela tem apenas um traço comum: a multiculturalidade. A História de Portugal conta-se tanto por aqueles que de cá partiram, e por longe ficaram, como por aqueles que de longe vieram e por cá ficaram.

O número de turistas em busca da célebre luz de Lisboa tem aumentado exponencialmente, e essa luz, neste momento, é a luz da ribalta. Desde a sardinha, viva ou em conserva, ao sol e à praia, a Lisboa não falta nada. Para juntar à sua "menina e moça", Lisboa até já tem uma material girl...

Este fenómeno trouxe-nos uma oportunidade que temos aproveitado: revalidámos no mês passado o título de Melhor Destino Europeu nos World Travel Awards, com Lisboa como a Melhor Cidade Destino. O turismo em Portugal ultrapassou a sazonalidade e ganhámos a batalha da internacionalização. Mas, como se sabe, a oportunidade traz também responsabilidade. Neste caso, a de assegurar um turismo social e ambientalmente sustentável. O novo paradigma do turismo trouxe o chamado "turista social" e o turista que busca uma selfie perfeita para partilhar nas redes sociais. Surgiram o turista residencial de longa duração e o fenómeno do arrendamento local e agudizou-se a consciência do imperativo de um turismo inclusivo e acessível a pessoas com deficiência e requisitos de acesso.

Tudo isto e muito mais precisou de resposta (com articulação diferenciada a nível territorial) a nível normativo e legal, a nível da adequação da formação, dos serviços turísticos e das infraestruturas urbanas e até a nível da fiscalidade e tributação. O que se segue? Continuar, claro. Pensar e planear coletivamente sobre a melhor forma de harmonizar uma atividade estratégica para o desenvolvimento económico e social do país com as expectativas dos cidadãos.

Temos cidades maravilhosas, que se tornem o grande rio onde outros pequenos rios venham desaguar.

Deputada do PS

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.